CARTAS DOS IMIGRANTES POLONESES NO BRASIL

 

Cartas de imigrantes escritas nos anos de 1890-1891 e aprendidas pelos russos.
 

 

Traduzidas por: Francisco Dranka

Texto do livro: Anais da Comunidade Polonesa, Volume VIII .- Ano 1977 Editado pela
Superintendência do Centenário da Imigração Polonesa ao Paraná.

(No livro é dada a permissão para divulgar o texto desde que citada a fonte)

 

Digitalizado por: Isabel Checchinato

Para publicação no site www.polonesesnobrasil.com.br

 

ÍNDICE - Clique sobre a linha para ler a carta

 

 

22 João Baginski de São Feliciano, Rio Grande do Sul à família (o endereço é desconhecido). 1/01/1891

 

23 .João Baginski e esposa de São Feliciano, Rio Grande do Sul à família, (o endereço é desconhecido). 2/02/1891

 

24. A . Bakalarski de Florianópolis, Santa Catarina, à esposa e filhos. (endereço desconhecido). 10/01/1891

 

25. A . Bakalarski de Florianópolis,Santa Catarina à esposa e filhos, (endereço desconhecido). 2/02/1891

 

26. A . Bakalarski de Florianópolis, Santa Catarina à esposa, (endereço desconhecido). falta a data

 

27. Antônio Bartnicki de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul ao filho Adão. Ciechanów (?).  224/03/1891

 

28. Inácio e Mariana Binkowski de Silveira Martins, Rio Grande do Sul para sua esposa e família, (endereço desconhecido)

 

29. André Borkowski de Tomás Coelho, Paraná para a família, (endereço desconhecido).  10/3/1891

 

30. Ana e Jacó Bufalt de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul aos pais (Zyrardów). 2/04/1891
Veja local desta carta: Zirardów

 

31. Antônio Czerwinski de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul para a família. (Zyrardów). 3/03/1891

Veja local desta carta: Zirardów

 

32. A . Fruscinska de São Paulo para um tal Sr. Slojewski (endereço desconhecido). 27/03/1891

 

33. Leon Galbierczyk de Santo Antônio da Patrulha Rio Grande do Sul para J. Kaminski e sua esposa (endereço desconhecido). 28/12/1890

 

34. J. Gasiorowski de São Paulo para um tal Sr. Javorsk (endereço desconhecido). 27/03/1891

 

35. Gasiorowski de São Paulo aos pais (endereço desconhecido). 27/03/1891

 

36. Gasiorowski de São Paulo aos pais (endereço desconhecido). 28/3/1981

 

37. Ludovico Gier do Rio de Janeiro para uma destinatária desconhecida

 

38. Luiz Gmuchowski de São Mateus do Sul, Paraná, para a Sra. Maria Zóltkowski (endereço desconhecido; província de Lomza). A carta está endereçada para o padre de Bremen. 1/01/1891.

 

39. Estanislau Jablonski de Rio Carolina, Santa Catarina, para seus pais (endereço desconhecido).    5/02/1891.

 

40. José Jaczynski de São Mateus do Sul, Paraná, aos pais (endereço desconhecido). 22/02/1891

 

41. Adalberto Jakukowski de Jaguari, Rio Grande do Sul, para a irmã (endereço desconhecido). 15/02/1891

 

42. João Jaras de São Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa (Zyrardow). 29/02/1891.
Veja local desta carta: Zirardów

 

43. Martim Kalinowski de Ijuí, Rio Grande do Sul para Fernando Schultz, (endereço indefinido). 6/03/1891.

 

44. Martim Knaczynski de Silveira Martins, Rio Grande do Sul a um destinatário desconhecido. 6/04/1891.

 

45. Martim Knaczynski de Silveira Martins, Rio Grande do Sul. (o destinatário é desconhecido). 6/04/1891.

 

46. Alexandre Kucinski de São Feliciano, Rio Grande do Sul à família. (endereço desconhecido). 23/12/1890

 

47. Mariana e Casemiro Kurków de Indaial, Santa Catarina ao irmão (endereço desconhecido).  28/12/1890.

 

48. Adão Labuda de são Mateus do Sul para seu cunhado (endereço desconhecido). São Mateus, 14 de fevereiro de 1891

 

49. Mateus lesinski de São Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa (endereço desconhecido). Falta data.

 

50. Josefa e Antônio Lewinski de indaial, Santa Catarina o cunhado (endereço desconhecido). 22/03/1891

 

51. Valentim Miecikiewicz  e sua  mulher de Nunes  (Massaranduba),  aos pais. Santa Catarina (endereço desconhecido). 2/01/1891.

 

52. Martim  Miler e  esposa de  São Mateus,  Paraná        (destinatário desconhecido). em Ostrowy, mun. de Kutno. 20/11/1891.

 

53. Casemiro Monatowski de Blumenau, Santa Catarina ao cunhado Antônio Bronski (endereço desconhecido). 1890.

 

54. Pedro Murlik de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul para a família (endereço desconhecido). 26/11/1891.

   

55. João Muszynski de São Feliciano, Rio Grande  do Sul, á esposa, Regimin, município de Ciechanów. 1/04/1891

Veja local desta carta: Regimin

 

56. Caetano Nowak de Rio Carolina, Santa Catarina para a família (endereço desconhecido). 25/01/1891

 

57. Caetano Nowak, Rio Carolina, Santa Catarina para o irmão (endereço desconhecido sem data e falta a introdução da carta)

 

58. André Palinski de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, à  esposa (endereço desconhecido). 29/01/1891

 

59. José Rogowicz de Dona Joana, Santa Catarina para a filha Úrsula, em Dobrosolosovo, município de Konin. 5/03/1891

 

60. Estanislau Sabelski de Brusque, Santa Catarina para os pais (endereço desconhecido). 15.03.1891

 

61. Antônio Saniewski de São Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa. (endereço desconhecido). 2/02/1891

 

62. João Sitniewski de Santa Cândida, Santa Tereza (?)   Rio Grande do Sul para Francisco Baginski, Stara Wiés, município Prasnysz. 13/03/1891

 

63. José Skowronski e esposa de São Mateus, Paraná, para os pais, Ostrowy, município Kutno. 19/03/1891.

 

64. Francisco Skurczynski de Rio Negro, Paraná ao irmão (endereço desconhecido).  31/03/1891.     Não existe o original e o texto foi transcrito pelos assistentes da Universidade Polonesa Livre e Oculta de Varsóvia

 

65. Alexandre Slwaski à família de lugar indeterminado do município de Encruzilhada, Rio Grande do Sul (endereço desconhecido). 27/12/1890

 

66. José, Josefa e Estanislau Sobiesiak de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul aos pais. Zyrardów, 3/04/1891
Veja local desta carta: Zirardów

 

67. José Sobiesiak, de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul  (endereço desconhecido). Zyrardów. Falta data.

 

68. Antônio Stolarski, de Caxias do Sul aos pais (endereço  desconhecido). Escreveu João Wietrzykowski. 25/01/1891

 

69. Constantino Strzelarski de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul ao irmão Max (endereço desconhecido)  23/02/1891

 

70. João Strzelec do Brasil para Mariana Seklicka, (endereço desconhecido). 15/12/1890. Não existe o original. O presente é transcrição reconstituída durante a ocupação pelos alunos da Universidade Polonesa  Livre  e Oculta  de Varsóvia. 15/XII/1890

 

71. Mariana e Teófilo Suchowski de Porto Alegre à mãe (endereço desconhecido). 25/04/1891

 

72. Estanislau Ratas de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul aos pais, (endereço desconhecido). 23/03/1891

 

73. João Wietrzykowski de Caxias do Sul aos pais, (endereço desconhecido). Falta a data

 

74. João Wietrzykowski, de Caxias, Rio Grande do Sul à família, (endereço desconhecido). 26/01/1891.

 

75. Estanislau Wisniewski de Nova Trento, Santa Catarina aos pais, (endereço desconhecido). 15/03/1891.

 

76. Inácio Zielenski, são Mateus, Paraná, para destinatária desconhecida, Ostrowy, província Kutno, 15/11/1891. A carta foi escrita por uma outra pessoa.

 

77. Antônio  Zielinski  de  Santo  Antônio da Patrulha,  Rio Grande do Sul para Nicolau Bama, (endereço desconhecido). Correio Ciechanów. 26/11/1891.

 

78. Um autor desconhecido da região de São  Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa, (endereço desconhecido). Falta a data.

 

79. Autor desconhecido de Rio dos Patos, Paraná, ao filho (endereço desconhecido). 21/03/1891.

 

80. Autor desconhecido, de um lugar desconhecido do Brasil, para Tomás Konecki, (endereço desconhecido). 13/02/1891. Não existe o original, mas uma transcrição   feita  durante a ocupação pelos alunos da Universidade Polonesa Livre e Oculta de Varsóvia.

 

81. Autor desconhecido, do Brasil aos pais. (endereço desconhecido). 6/03/1891.

 

82. Autor desconhecido para destinatário desconhecido (falta o princípio da carta).

 

CARTAS

 

22. João Baginski de São Feliciano, Rio Grande do Sul à família (o endereço é desconhecido). 1/01/1891.

 

 

 

                                                           Brasil, 1 de janeiro de 1891

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

            Saúdo-vos querida família inteira. Estamos aqui vivos e todos com saúde, toda a família.Descrevo a viagem toda, de Bremen a Rio de Janeiro. (Levamos) 18 dias até Rio de Janeiro; nesta cidade ficamos de quarentena, durante 12 dias; em outro navio viajamos durante 12 dias até Porto Alegre navegamos três horas até a ilha. Nesta ficamos 12 dias e partimos de trem, viajando três horas. Da ilha cavalgamos em bois e viajamos com carretas de duas rodas, tiradas por cinco parelhas e viajamos durante sete dias. Chegamos a colônia São Feliciano, onde nos estabelecemos. Até agora não recebemos colônias e não sabemos quando nos darão, mas esperamos que ganharemos em breve essas colônias. No momento participamos de trabalhos diários pelo que ganhamos diariamente 2 rublos. Com isto adquirimos os víveres e a vida é cara.

            Não tenho ninguém conhecido, porque todos se espalharam, somente Inácio Bienkoski. Os Leszcynski partiram para Mato Grosso. Se eles escreveram cartas, mandem-nos notícias como passam.

            No Brasil produz-se tudo; tudo o que se atira à terra cresce da melhor forma. Pode-se colher duas vezes por ano. Descrevo tudo e não tenho nada mais a escrever, porque não sei mais nada. Aguardem outra carta que enviarei, então talvez possa descrever mais coisas. Peço-vos, queridos pais que me respondam quanto antes. Rogo igualmente ao prezado tio que entregue essa carta a Francisco Baginski na aldeia de Garkowwo. Endereço: América do Sul, Brasil, Cidade Porto Alegre, Colônia São Feliciano, João Baginski. (a última frase, após Brasil está riscada no original). Bilhete anexo: Escrevam para este endereço: Brasil, Estado do Rio Grande do Sul / Porto Alegre / Município Encruzilhada / Colônia Francisco Glicério / Herr Jan Baginski.

 

 

 

23.João Baginski e esposa de São Feliciano, Rio Grande do Sul à família, (o endereço é desconhecido). 2/02/1891.

 

                                                           Brasil, 2 de fevereiro de 1891.

 

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre Amém.

 

            Queridos pais, irmãos e irmãs. Levo ao nosso conhecimento que estamos com saúde por graças de Deus, o que também lhes desejamos de todo o coração. Fizemos uma boa viagem.Quando chegamos ao destino recebemos uma propriedade de uma légua de largura e não sabemos qual é o seu comprimento. Se é do vosso desejo vir, venham e o mesmo que o faça o irmão mais novo. O mais velho que permaneça (lá). Aqui cada um recebe sua propriedade. Peço que me respondam se receberam a carta ou não. Solicito que escrevam antes de viajar. Vocês terão que pagar 18 marcos da fronteira até Bremen e de Bremen para o Brasil é grátis. Quando chegarem ao Rio de Janeiro, inscrevam-se para Porto Alegre e em Porto Alegre para Feliciano. Aqui o clima é igual ao da Polônia na festa de São João. Levem roupas de corpo e de cama e tudo o que puderem de roupas e panos. Não são necessárias as roupas de inverno.

            Escrevam-nos e peço que nos forneçam o endereço de Antônio Olszewski da América. Não tenho mais nada a escrever, a não ser fazer votos de sucesso e de boa viagem. Lembranças a Alberto Bloskieewicz e a toda a família; ao Ruteczki e a todos os conhecidos. Permaneçam com Deus.

 

                                                           João Baginski e esposa Helena Baginska

 

                                                           Adeus.

 

A. Muzakowski (assinatura de quem escreveu a carta).

 

 

 

 

24. A . Bakalarski de Florianópolis, Santa Catarina, à esposa e filhos. (endereço desconhecido). 10/01/1891.

 

 

                                                           Sul do Brasil, Cidade de Desterro, Estado de

                                                   Santa Catarina.

 

                                                           Dia 10 de fevereiro de 1891.

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

 

            Queridíssima esposa minha e meus caríssimos filhos. Apresso-me em noticiar e levar-lhes os meus planos e a última decisão de trazer-te e a vocês minhas crianças. Envolvi-me em muitos pensamentos, refletindo como fazer. Perdi mais de 100 mil-réis para encontrar vocês trabalho, querida esposa, bem como para o Pech. Queria fazer-lhe isto de alma e coração, trazê-lo juntamente com vocês. Ele seria o melhor protetor, querida esposa, tanto teu, quanto das minhas crianças. Aguardava e buscava de diversas formas achar alguma ocupação para o Pech. Esperei pelas promessas do povo, mas até o momento não tenho nenhuma posição certa para o Pech. Por isso finalmente escrevo-lhes que não prometo ao Pech que o possa trazer. Uma coisa apenas: não há para que chegar, porque há excesso de tecelães e os ganhos na tecelagem estagnam-se de tal forma que não tem para que vir. Quanto a sua fixação em colônia não lhe desejo, a não ser que tenha uma economia de uns mil rublos então poderia adquirir algum terreno perto da cidade. Em segundo lugar a passagem gratuita terminou com o Ano Novo.Somente viajarão (gratuitamente) aqueles que tiverem bilhetes expedidos antes do Ano Novo. Depois do Ano Novo o Sr. José dos Santos de Lisboa não enviará a ninguém mais a passagem, porque a emigração foi cancelada. Ninguém mais chegará ao Brasil por conta (do governo) brasileiro. Se alguém quizer (vir) pode faze-lo as suas expensas. Minha querida Catarina podes dizer a todos os conhecidos que tudo foi água abaixo para aqueles que se preparavam para (viajar na) primavera. Ouvimos que metade da população desejava partir para o Brasil e, no entanto tudo falhou, a não ser que queiram partir por conta própria. Por isso se o Pech chegasse, deveria ter pelo menos 500 rublos para a manutenção de sua família. Mas quem tem 500 rublos, também na Polônia estará bem e não necessita buscar o Brasil.

            Agora escrevo o que diz respeito a você, querida esposa e estimadas crianças. Para aqueles que estão no Brasil, a situação apresenta-se da seguinte maneira: quando o marido está aqui e tem esposa e filhos na Europa ou quando o filho está no Brasil e deseja trazer o pai ou a mãe, a Emigração ajuda, mesmo que se trate de irmão ou irmã. Para eles também conseguirá passagem de graça, mas deve escrever (solicitando os bilhetes) não para Lisboa, mas para Rio de Janeiro, cidade Capital, para a administração Central só do Rio de Janeiro enviarão as passagens, todavia somente para aqueles que tem no Brasil a mulher, o marido, os pais, o filho ou a irmã ou o irmão.

            Portanto eu, querida esposa, digo-te categoricamente e escrevo-te a carta que desejo trazer com certeza, bem como as minhas crianças, o mais tardas até abril se Deus todo Poderoso me der saúde. No que respeita à marcenaria, esta vai muito bem, no Brasil. Especialmente um bom marceneiro de móveis é valorizado e por sua capacidade e trabalho pagam bem. O nosso Szulc desde que retornei pressiona-me, não me deixa em paz para que te traga e suas crianças. Quando te trouxer, disse-me que vai aumentar a minha remuneração. Pede-se que não o abandone. Disse-me que estava satisfeito e em verdade não possui nenhum outro melhor do que eu, porque quando aparece um serviço melhor não tem quem o faça e eu tenho que executa-lo. Disse-me para aprender o português então me entregará a chefia e haverá uma nova marcenaria para 130 pessoas e precisará de um chefe. Eu me decidi (aceitar) e disse-lhe que está bem, mas afirmei-lhe que não possuía dinheiro para trazer a minha esposa em breve tempo. Ele me falou de emprestar uns 100 mil-réis, para que junto com o meu (dinheiro) pudesse trazer a esposa. Só então estará certo de que não o abandonarei, pois se estiver com minha esposa, estarei obrigado a permanecer fixo. Ele mesmo encarregou-se de providenciar a passagem. Foi comigo ao Cônsul prusso, Sr. Epkie, e o próprio cônsul escreveu ao Rio de Janeiro, solicitando a passagem para você, queridíssima esposa e para os meus filhos. O cônsul Epkie afirmou-me que receberei a passagem o mais tardar em três semanas e que podia escrever a esposa para que se prepare devagar, porque três meses passam depressa. Tão logo que me enviarem a passagem do Rio de Janeiro, no mesmo dia enviar-te-ei, juntamente com o dinheiro.

            Por ora te aconselharei como deves portar-te e preparar para a viagem. Não escute ninguém e não deixe que perturbem a tua cabeça. Quando receberes a passagem e o dinheiro não tema nada, mas venha, porque o marceneiro o Brasil pode viver muito melhor do que n Polônia. Agora escrevo-te, querida Catarina para que não compres nada de vestidos, no Brasil pode-se obter de muito melhor qualidade, pois só existe material francês e inglês. Os preços são quase iguais aos da Polônia. Em segundo lugar não se usa as mesmas roupas (que lá), mas leves e finas. Os maiores magnatas não usam roupas de lã, mas vestem-se de “zagnatowe” e percaline.Só estes estão em moda. Venha com aquilo que você e as crianças possuem. Se não tens vestido ou a Clara ou a Ladislava, então compre apenas um, mas “zagnatowe” e de cor escura. Se Joãozinho e Romeuzinho não têm ternos pode lhes comprar de “cajga” e leves. Se comprou ao Joãozinho um paletó de inverno e um capuz para a Ladislava, como te escrevi, pedindo que comprasses roupas quentes, não as desperdices, mas sim leve consigo porque às vezes há dias frios no navio e roupas quentes servem. Permanece-se aproximadamente 4 semanas sobre as águas. Você se tiver alguma coisa mais quente leve consigo, porque durante a viagem tudo o que existe, serve. Quanto à roupa de cama, venda os dois cobertores de pena e em seu lugar compre uns dois acolchoados. Não compre aqueles de algodão, mas de lã. Podes adquirir em Bremen, onde é mais barato do que na Polônia. Leve-os consigo conservando perto de si porque servirá para se cobrir no navio.

            Em Zyrardów no máximo podes comprar três cortes de fazenda para camisas, um par de toalhas de rosto, umas duas ou três toalhas de mesa e uns dois cobertores. Para mim não compre nada, porque essa graça também consigo no Brasil. Leve consigo o relógio, pois estes são caros no Brasil, bem como os quadros de Nossa Senhora de Czestochowa e Santo Antônio e coloque-os no meio dos pertences para não se quebrarem. Leve consigo os travesseiros que tens e coloque-os nos colchões da mesma forma como vistes que fizeram na casa de Lazarek. Leve também os lençóis, o mais que tiveres. Escrevo-te mais uma: não venda os travesseiros, mas traga consigo e o resto venda tudo. Venha imediatamente, após receber a passagem e o dinheiro. Quanto às roupas e objetos vá a Varsóvia e compre um baú e acondicione tudo nele. É a melhor forma. Não carregue consigo o cofre, porque é muito pesado. Sobre o baú e sobre os colchões onde acondicionarás os travesseiros, escreva com letras grandes, tinta preta para que não se apague, escreve assim: Catarina Bakalarska, Nº 1; sobre o baú, e sobre o colchão Nº 2. Ainda tens que levar mais uma cesta porque não podes empacotar todas as coisas.É preciso deixar algumas roupas para trocar, tanto para você, quanto para as crianças, pois não se pode viver quatro semanas com uma camisa só.

            Quando te enviar a passagem e o dinheiro, escreverei mais. Só eco-te querida Catarina, não receie nada. Vão à confissão antes da partida e levem consigo para ajuda Deus e Mãe Divina e ela não abandona a ninguém que a Ela recorre. Peça a Bakiewicz e diga que eu peço se ele não poderia fazer junto com o comissário Kowalski para ajudar-te na passagem pela fronteira. Talvez de alguma forma pudesse emitir-te o passaporte, porque viajar até Kalisz a despesa é muito grande. Se o Sr. Kowalski negar, experimente em Grodzisk com o Sr. Pieczewicz e peça-lhe o favor, porque não deixam sair sem o passaporte, nem a você, nem as crianças. Faça constar no passaporte todas as crianças. Se não conseguir desta forma, talvez te posso oferecer outro conselho. Quiçá eu possa fazer alguma coisa junto ao Sr. Epkie. Pode ser que mande a passagem e o dinheiro antes da Páscoa. Na outra carta vou-te escrever mais como deves proceder, o que deves comprar, como te deves comportar no navio e quando devem partir da casa. Abraço-te e bejo, juntamente com as crianças. Responda-me o mais depressa possível. Enviarei o dinheiro ao Pech, junto com a tua passagem.

 

                                                           A. Bakalarski.

 

 

 

25. A . Bakalarski de Florianópolis, Santa Catarina à esposa e filhos, (endereço desconhecido). 2/02/1891.

 

 

                                                           Desterro no dia 1º de março de 1891

                                                           Província de Santa Catarina.

 

 

            Minha estimadíssima esposa e queridas crianças!

 

            Escrevo-te pesaroso profundamente esta carta, caríssima esposa e caros filhos. Desejava mandar, como auxílio dinheiro, 50 mil-réis no momento, para as festas para que minhas crianças não sentissem desejo ao olhar outras crianças, porque na Polônia existe esse costume. Quer dizer que pretendia enviar-te 100 marcos, mas você, esposa querida não vai acreditar quanto me magoou o que fui saber somente agora. No dia em que te desejava mandar o dinheiro, isto é no dia 2 de março, primeiramente falei com o Sr. Szulc que pensava em mandar-te dinheiro, cujo montante no momento seria de 100 marcos. Sei que você não tem com que viver juntamente com meus filhos. No mês de abril pretendo enviar mais para a viagem ao Brasil, isto é para que venhas para junto de mim. Narrei-lhe o problema que tiveste com aquela letra de câmbio que te mandei no valor de 200 marcos. Disse-lhe que desta feita pretendia resolver de outra maneira, com estes 100 marcos. (Falei-lhe), porque Szulc é meu mestre e foi ele que me acompanhou até o cônsul prussiano, Sr. Epkie. Explicou-lhe a minha intenção de enviar 100 marcos a minha esposa, narrou-lhe os problemas que tiveste com as letras de câmbio, solicitando outra solução. Entretanto Epkie respondeu-lhe que agora não quer incomodar-se por preço nenhum, em mandar dinheiro para a Polônia, isto é, para um Estado Russo. Aquelas letras de câmbio que mandei no valor de 200 marcos, ele teve que pagar 20mil marcos e disse: que boba foi essa mulher desse operário ao vender as letras a um judeu, em vez de vende-lo num banco que mantenha intercâmbio com banco de Berlim ou Hamburgo. Ela vendeu a um judeu e este falsificou a letra para 20 mil marcos. Foi a Berlim e lá o banco pagou-lhe a quantia.

 

 

26. A . Bakalarski de Florianópolis, Santa Catarina à esposa, (endereço desconhecido). Falta a data.

 

 

                                                           Sul do Brasil, Cidade de Desterro,

                                                           Província de Santa Catarina.

 

 

            Queridíssima esposa e caras crianças.

 

            Minha querida esposa trago-te notícias sobre a tua viagem. Tudo aconteceu diferente do que te escrevi naquela carta. Não serei eu a mandar-te a passagem. Mandaram-me de volta do Rio de Janeiro para o Escritório da Administração da Emigração em Desterro e convocaram-me para (falar com) o Diretor. Comigo foi o tradutor e anotaram o teu nome, minha esposa. Escreveram o teu nome e sobrenome e igualmente das crianças e remeteram para Portugal, Lisboa e de lá enviarão as passagens. Assim me falaram. O Diretor de lá tem autorização para tanto. Pelo fato de me encontrar no Brasil inscreveram-me junto ao Diretor da Emigração. Do contrário não conseguiria as passagens para vocês. Mandaram imediatamente para que não houvesse uma delonga maior. Lembre-se de mandar alguém ler, logo após receber a passagem porque lá está determinada a data que deves te apresentar. Pedi para que enviassem para abril ou maio, mas não sei se fizeram como eu pedi. Se receberes para março ou abril, poderás partir em abril, todavia não existe problema em atrasar até maio. Se partires no mês seguinte procure acertar para a mesma data que consta na passagem, porque os navios partem mensalmente. Lembra-te, minha esposa, reflita bem se irás expor-te a tamanhos sacrifícios, com tantas crianças para uma viagem tão longa. Não quero fazer imposições. Você tem juízo, por isso medite bem porque com as crianças vai ficar bastante penoso. Pondero da minha parte que as crianças já não são tão pequenas. Ladislava e Janka podem ajudar-te. Peço-te querida esposa, sacrifiquem-se um pouco, peça ajuda a Deus e Sua Santíssima Mãe e não te perderás com minhas crianças. A vida que agora levamos não serve para nada. No Brasil um marceneiro pode viver bem melhor do que na Polônia. Minhas (crianças) Ladislava e Janka, vocês já estão com uso da razão. Já não são crianças cuidem do Romeuzinho e do pequeno Alexandre durante a viagem porque a mãe terá que se preocupar com os pertences e outras coisas. Lembrem-se de que devem ser auxílio para a mãe.

            Tudo está muito bem, minha esposa e queridas crianças, mas fiquei muito triste em saber que vão viajar para Antuérpia e não (via) Bremen. Isto deve-se ao fato de que não se pode embarcar para o Brasil em Bremen, mas só em Antuérpia, no mesmo lugar onde Kaleja embarcou para a Argentina. Isto porque a emigração foi suspensa ou cassada, mas aqueles que tem familiares no Brasil vão receber passagens, porém via Antuérpia e não via Bremen. De Bremen não te levarão, assim me disseram no Brasil, no Gabinete do Diretor da Emigração. Não podes ir para Bremen. Deus te livre, porque lá não te deixam embarcar. Escrevo-te mais uma vez de que de Bremen não partem navios, conforme me informaram. Isto me entristece e preocupa muito, porque o caminho para Antuérpia é mais longo e não o conheceis. Para Bremen o caminho é direto e conheço-a bem e poderia descrever-te para Antuérpia, porém, como sabes desconheço o caminho. Perguntei a muitos se o conheciam. Desejava descrever-te pelo menos pela descrição, pelo menos aproximadamente. Ninguém conhece aquela rota e não poude saber nada por isso não te descrevo a viagem que deves fazer. Peço-te com certeza sabe, uma vez que seu filho viajou via Antuérpia. Ele tem que saber. Peço-o em meu nome, diga que o imploro por tudo para que te explique como deves te portar em Berlim, quando lá chegares. Quando comprares a passagem na fronteira, compre somente até Berlim e em Berlim deves comprar bilhete para Antuérpia. Minha querida esposa, em que estação deves desembarcar em Berlim, não te vou escrever porque lá existem cinco estações por isso pergunte aos condutores do trem. Diga-lhes que deseja viajar para Antuérpia. Ele é o mais indicado para te explicar em que estação deves desembarcar em Berlim e onde deves comprar a passagem para Antuérpia.

            Querida esposa, você sabe que será bastante difícil chegar até aqui. Se fosse via Bremen seria melhor, mas agora que mandam viajar par Antuérpia, isto me aborrece. Como você vai chegar até lá com as crianças e pertences? Oh, isso me preocupa, toda vez que penso em tua viagem. Se tivesse boa saúde e alguma família junto como era nossa intenção, pois o Pech deveria ter vindo junto. Agora, porém não adianta esquentar a cabeça porque Pech não ganhará a passagem e, em verdade, não tem para que vir para cá. Isto já lhe descrevi em mais de uma carta, sobre a situação no Brasil. Por isso pense bem, minha esposa, se deves ou não arriscar. Pondere bem se tens saúde e força então não preste atenção para nada, mas venha. Mas se refletires que não darás conta sozinha e que poderias perder as crianças então melhor desistir. Eu assim mesmo não vos esquecerei, e daqui a alguns anos poderei voltar. Somente te falo que no Brasil os negócios par marceneiro são bons. Pode-se viver melhor do que na Polônia. Por isso escrevo-te mais uma vez, se julgas que darás conta com as crianças então não ligue para nada, para o medo de que falam, somente leve para auxílio a Deus e venhão tão logo receber a passagem. Mandarei dinheiro em fins de março, quanto puder. Esforço-me, quanto as forças me permitem para vir em vosso auxílio. Se julgam que poderão dar conta venham para fins de abril ou no final de maio. Quando chegar a Antuérpia exija sua bagagem. Na estação haverá agentes. Mostre-lhes a passagem. Eles te levarão sob sua proteção. Lembre-se minha esposa, principalmente em Berlim, porque em Berlim é como no inferno. Tão logo você desembarca do trem, peça imediatamente sua bagagem. De preferência compre um baú grande em Varsóvia e coloque nele seus pertences, o resto em colchões. Peça ao Lipinski que faça a inscrição com letras grandes, tinta a óleo e preta no baú: Catarina Bakalarska Nº 1. No colchão da mesma forma: Catarina Bakalarska Nº 2 e o resto das coisas para si e para as crianças leve consigo. Quanto aos negócios, não faça nenhum. É suficiente que possam com que viajar. E ainda te escrevo, querida esposa, compre para si uma cesta para que possas levar consigo. Compre para manutenção uns 15 limões, 10 libras de açúcar, meia libra de chá, porque serão úteis no navio. Quando estiverem com ânsia tomar um limão e espremer sobre o açúcar e dar às crianças. Podes fazer com freqüência chá. Você pode obter água pronta na cozinha do navio. Compre umas 2 ou 3 garrafas de vinho tinto, umas 3 libras de manteiga, queijo suíço igualmente algumas libras. Quando chegar a Antuérpia compre umas duas tigelas de latão. As facas e as colheres leve na cesta e mantenha consigo e uns dois canecos. Mande a um latoeiro que te faça uma chocolateira porque será útil para água e outras coisas. Adquira igualmente umas duas libras de sabão. Quanto para a viagem de trem até que cheguem ao navio prepara mantimentos para três ou quatro dias o que julgar melhor. Compre algumas libras de presunto e asse umas boas libras de carne. Lembre-se que serão cinco pessoas. Quando chegarem ao navio não passarão fome, porque ali dão comida à vontade para quem pode comer, e é relativamente boa. Recomendo-te querida esposa: cuide das crianças. Não permita que corram quando estiverem no navio, pelo menos sem o teu cuidado. Quando o navio navega calmamente podem subir ao convés, porque lá é mais saudável e agradável. Quando o navio balouça é melhor que fiquem deitadas na cama, porque há casos em que passageiros caem e quebram ou machucam a cabeça. Quanto ao andar pelas escadas para subir ao convés, deve-se ter muito cuidado, porque muitos descem de fundilhos, quando o navio balouça. Fui testemunha da queda de uma senhora da escada. Machucou-se tanto, quebrou uma perna e morreu em três dias. Ela estava naquele navio que eu viajei.

            Lembre-se, minha esposa escolha as camas superiores. Escolha uma para si e para as crianças. Não escolha as de baixo, porque quando os de cima começam a vomitar, vomitam diretamente sobre as cabeças daqueles que estão em baixo. Isto não é agradável, por isso mantenham-se nas camas de cima. E escrevo-te querida esposa, compre um urinol de latão, pois tens crianças e constantemente vão querer satisfazer suas necessidades. Creio que não seria fácil buscar cada vez o banheiro. Leve uns dois cobertores e travesseiros, conserve consigo, porque no navio não há nada para se cobrir, nem para por sob a cabeça. Cada um tem que ter os seus. Naquela carta escrevi-te que vendesses os cobertores de pena e em seu lugar compre 2 acolchoados de lã e os travesseiros melhores leve e empacote nos colchões. Leve os piores e mantenha-os consigo para que tenham sobre o que repousar a cabeça. Os acolchoados podem ser comprados em Antuérpia, ou se preferes, podes comprar em Varsóvia, porque lá também podes obter desse tipo, por quatro rublos e são belos. Leve-os consigo para se cobrir, não guarde no baú. Compre um pouco de fazenda e um par de toalhas, umas duas ou três toalhas de mesa e não compre nada mais porque no Brasil pode-se conseguir o mesmo. Agora no que diz respeito à travessia pela fronteira. Se o comissário não fornecer nenhuma instrução, peça-a a Janowski para que tome certidão em nome de sua esposa. Vocês inscrevam-se como Janowski e não com Bakalarski. Peço ao Jankowski que ele te faça isto. Se ele não puder fazer, então peça Bakiewicz. Diga-lhe que eu o peço por todos os meios, para que te possa de alguma forma transpor pela fronteira. Não arrisque sem o passaporte porque não permitem ultrapassar a fronteira. Se não houver outro jeito então tens que viajar até Strzemieszyce. Fica na fronteira com a Prússia, última estação antes da fronteira. Aqui vai receber orientação para o prosseguimento da viagem de Romão Grabinski. Ele é irmão de um colega meu, com quem moro junto e trabalho na firma do Szulc. Quando chegares a Strzemieszyce tome uma charrete e chegue a Grabocin na residência do marceneiro Romão Grabinski.A bagagem pode deixar na Estação, porque a sua residência dista apenas 3 léguas da estação. Esse Grabocin é uma grande fábrica, uma mina de carvão. Isto quer dizer Alemanha, chama-se da mesma forma que entre nós Ruda Guzowska e a fábrica Zyrardów (?). Peça ao tal Romão Grabinski e ele te fará os bilhetes de travessia. Meu colega escreveu-lhe e é seu irmão. Ele pediu-lhe que fizesse para você e ele responde que se a esposa do colega chegasse, ele faria o documento. Ele vai-te esclarecer como deves portar-se e onde comprar as passagens para a continuação da viagem. Você também lhe peça para que ensine os caminhos certos. Esse documento de travessia é a mesma coisa que passaporte. Basta que te faça e ele com certeza fará. Podes ir porque ele é conhecido dos funcionários muito bem e já fez para muitos. Além do mais trata-se de uma pessoa muito boa, mande-lhe os meus respeitos e diga que eu peço por amor para que te informe e faça atravessar a fronteira. Esse será o meio mais fácil de ultrapassar a fronteira. Não é necessário pedir favor a Jankowski ou a Bakowicz. Em caso de ser interrogado pelos gendarmes, durante a viagem de trem, na estação de Ruda, diga-lhes que estás viajando para Czestochowa, par a casa da irmã. A estação de Strzemieszyce é terceira ou quarta depois de Czestochowa. Romão Grabinski ocupar-se á contigo como se eu próprio estivesse contigo. Ele me conhece pois estivemos juntos em Lódz, na firma de Kamer. Lembre-lhe a meu respeito e sobre Pyrka. Quando Pyrka saiu da firma de Kamer pela primeira vez então eu trabalhei em ladrilhos.

            Minha esposa siga as instruções, como te escrevo e tudo sairá bem. Mandamos uma outra carta para Romão Grabinski que já te mandamos a passagem e que certamente irás procura-lo em abril ou maio. Pedimos mais uma vez para que te faça com toda certeza e exponha a despesas.  Minha querida esposa, se julgas que darás conta durante a viagem, então venha. O pior será chegar até Antuérpia. No instante em que estiveres no navio, metade das dificuldades estarão superadas.

            Não vou te escrever mais nada porque não disponho de tempo. Acabei a carta durante o café. Noutra carta direi mais detalhes. Peço-te que não tenhas medo de nada, somente se julgas que vencerás as dificuldades, venha.

            Você já está com o endereço para o irmão do meu colega. Recomendo-te ir até lá porque assim será melhor. Ele te fornecerá as informações e ajudará a transpor a fronteira. Pergunte direito onde deves apanhar os bilhetes para Berlim. Ao receberes esta carta, responda-me no mesmo instante, para que eu saiba como devo esperar tua chegada.

            Peço-te ainda uma vez. Medite bem se deves ou não vir e responda-me a verdade. O dinheiro vou mandar-te de outra maneira. Enviarei em marcos prussianos que serão mandados de Berlim ou Hamburgo. No fim do mês de março receberás 300 marcos e quando os receber não troque em dinheiro russo. Se vieres para isto não é necessário. Use estes marcos para a tua manutenção. Abraço a todos e peço resposta.

            O endereço do trem que vai para a casa do irmão do meu colega é este:

            Romão Grabinski, marceneiro/Grabocin ou Alemanha, aldeia Bedzin/última estação de estrada de ferro, Szamieszyce.

 

            Recomendo-te ir para lá. Será o melhor.

 

                                                           A. Bakalarski.

 

                                                          

 

 

 

 

27. Antônio Bartnicki de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul ao filho Adão. Ciechanów (?).  224/03/1891.

 

 

            Louvado seja Jesus Cristo!

            Querido filho Adão.

 

            Não te preocupe o fato de não ter-te escrito carta porque até hoje ainda não estamos em lugar definitivo, o que deve acontecer pela festa do Divino Espírito Santo, quando estaremos em nossa propriedade prometida. Por ora permanecemos por conta do governo, isto é ganhamos para a manutenção e moramos em barracos.

            Por graças de Deus Supremo estamos todos com saúde o que também desejo a você meu filho e a tua esposa de todo o coração. Depois da partida da Pátria em pouco tempo chegamos de trem prussiano para a cidade de Bremen. Após alguns dias novamente viajamos de trem expresso para a cidade portuária Bremerhaven. Diante de nossos olhos surgiu o navio, recém construído, enorme, de dois mastros de ferro de nome Darmstadt. Aqui é o último adeus com a Europa. Começou o embarque. Embarcaram 500 famílias, isto é 2.600 almas e ao mesmo tempo uns 180 serventes do navio, isto é marujos. Darmstadt partiu no dia 23 de novembro de 1890, navegou pelo mar alemão. Em 24 horas aportamos em Antuérpia, cidade marítima na Bélgica. Aqui o vapor carregou durante 48 horas, pois levou muita mercadoria para a América. No dia 27 de novembro partimos de Antuérpia para o Oceano. Após 21 dias de viagem vimos a costa do Brasil, isto é América do Sul. Durante todo o percurso vimos apenas duas ilhas, uma delas na Espanha, Las Palmas e outra pertencente à África, São Vicente. Desembarcamos somente no dia 15 de dezembro de 1890 numa ilha próxima a cidade Capital do Brasil, Rio de Janeiro. Aqui nos perguntaram para onde desejamos ir, para que região do país e deram-nos 8 dias para decidir. Escolhemos o sul, porque lá é mais ameno o clima, portanto para Porto Alegre. Novamente embarcamos em navio grande e viajamos durante 6 dias e desembarcamos exatamente na cidade de Porto Alegre. Aqui novamente nos perguntaram para onde queremos ficar na província. Aqui durante algumas semanas ganhamos a manutenção do governo e depois instalaram-nos em carroções tirados por 12 bois. Os carroções eram de duas rodas. Em cinco dias alcançamos as serras, onde instalamo-nos em enorme barraco e permanecemos até hoje. Aqui ganhamos 500 réis para a comida para cada pessoa adulta. Aqui entra em conta também uma criança de 12 anos. Portanto eu recebo diariamente para alimentação 2 mil reis. Por 100 réis pode se comprar por exemplo: meia libra de açúcar escuro, 1/3 de libra de carne de gado, quase uma quarta de cachaça que aqui é a mais barata, uma libra de feijão, mais de meia libra de farinha de trigo, uma grande abóbora, como um balde, que na Rússia custa 15 kop. 100 réis é a mesma coisa que lá 12 centavos, ou 6 kop.

            Quanto à produção, basta perguntar aqueles que conhecem a Geografia Universal e eles te dirão que a América Latina é a mais rica em todo o mundo. Aqui até sobre pedras crescem enormes cactus e ao longo dos caminhos medram enormes árvores de “oleander”, e laranjeiras. Sobre jardins, nem fale pois neles crescem frutas e flores que entre nós não crescem nem em vasos e aqui medram em qualquer canto.

            O que diz respeito ao plantio aqui começam apenas no mês de agosto, agora aqui é época de chuvas fortes. Chove cada semana porque aqui o calor é de 30 graus, enquanto as noites são frescas e com bastante orvalho. Planta-se aqui trigo e o centeio é vigoroso, o milho e o arroz aqui são mais procurados, cevada, feijão preto, batatinha branca e americana (provavelmente batata doce) crescem muito bem, repolho, pepinos, cenoura, abóbora, tomates, bulbos, e tudo aqui cresce muito bem porque a terra é boa. Ganhará aquele que levar consigo da Polônia sementes. Também deve-se levar roupas de corpo e cama, porque aqui são muito caras. Igualmente deve-se trazer ferramentas e objetos de metal porque aqui são importados da Inglaterra e Alemanha. Faz bem aquele que se cuida com o dinheiro. Por exemplo, deve-se chegar para Bremen ou no dia 8 ou 18 de cada mês, porque se vier antes deverá comprar a alimentação por sua conta. Aqui é necessário cuidar-se porque exploram nos hotéis. Quando se chega ao Brasil, cada um que se dirija para aquela região, onde tem família, porque aqui contratam para serviços. Não se deve dar ouvidos a ninguém a não ser ao governo que dá terra de graça e ajuda no valor de 50 mil-réis e 120 morgas de terra.

            Rogo-te filho, venha e traga junto consigo Marciana Jaworski. Leve consigo roupas de corpo e cama, quanto mais.Não dê atenção para a língua do povo. Deve-se levar consigo algumas ervas medicinais polonesas para o navio, porque aqui é difícil adquirir e até não existem. Peço-te Adão, quando estiveres em Bremen compre para mim um fuzil, porque na Prússia é barato e aqui muito caro. Eu tenho um mais ou menos, mas servirá para você. Se for possível, traga quadros (de santos) e miudezas porque aqui são muito caros. Um vidro pequeno de 14 polegadas quadradas custa 1 mil reis, pois são importados os vidros da Bélgica.

            Não tenho nada mais a escrever a não ser permaneça com Deus e mande meus cumprimentos primeiramente a Antônio Bartnicki, Júlio Puchalski e esposa, Antônio Puchalski e esposa e finalmente a todos os companheiros de Ciechanów e a todos os cidadãos. Se alguém deseja pode chegar porque para mim até o presente, Graças a Deus, vai muito bem. Todos estamos com saúde, isto é a esposa e minhas duas filhas estão com boa saúde. O trem, através da Prússia custa 18 marcos e nós vendemos cada rublo russo por 2 marcos e 40 fennigs na Prússia. Assim pagavam naquela época e depois mais caro. A partir de Bremen é grátis e graças a Deus a alimentação é boa durante toda a viagem. De manhã dão café e um pão, para o almoço arroz, feijão, carne, às vezes batatinha ou repolho e para o jantar café e pão ou alguma coisa cozida. Nunca tivemos fome, até agora.

            Agora tens o meu endereço em português, bem no final desta carta e escreva-o no envelope, em caso de me endereçar uma carta. Sigam-nos da seguinte forma: quando chegarem ao Rio de Janeiro, para a primeira ilha, peçam que os mandem para Porto Alegre e aqui solicitem novamente para que vos mandem para a colônia Santo Antônio da Patrulha e aqui nos achareis a todos.

            Escrevi esta carta na Nova Colônia de Santo Antônio da Patrulha, na província de Porto Alegre, no dia 24 de março de 1891.

 

                                                           Despedimo-nos de vós

                                                           Antônio Bartnicki

                                                           Beijamos cordialmente

 

            Se alguém não tiver dinheiro que empreste de outro e aqui terá a restituição porque é possível ganhar.

 

            Unidas Estados Republika Brazil

            Estado do Rio Grande do Sul,

            Colônia Villa Novo Santo Antônio da Patrulha

            Antônio Bartnicki.

 

 

 

28. Inácio e Mariana Binkowski de Silveira Martins, Rio Grande do Sul para sua esposa e família, (endereço desconhecido).

 

 

                                                           Dia 15 de março de 1891.

 

 

            Nas primeiras palavras de minha carta, louvado seja Jesus Cristo. Por

          todos os séculos dos séculos, amém.

 

 

            Querida esposa prepara-te o mais depressa possível para chegar ao Brasil para junto de mim, pois aguardo-te impaciente em Silvério Martins. E você, irmão Francisco Hojnacki com sua esposa, deixe tudo para a avó (...) e siga os meus passos, trazendo consigo minha mulher o mais depressa possível. Leve em dinheiro o mais que tiver, pelo menos uns 60 rublos. Também você, tio Mateus Jaworski e esposa tragam os bens que possuís e sereis grande senhor no Brasil. Ao chegar a Bremen sereis levados para um hotel para ficar por alguns dias até a chegada do navio. Vão ter alguns dias de folga. Comprem umas três espingardas de cano duplo, uns três revolveres, mas bons e munição para os mesmos: umas 30 libras de pólvora e cartuchos, chumbo, porque no Brasil são necessários contra os pássaros que são abundantes e no Brasil é difícil conseguir (armas). Atracareis na primeira ilha brasileira, Rio de Janeiro. Lá inscrevam-se para Porto Alegre e de Porto Alegre para Silvério Martins. Ali eu vos aguardarei com impaciência. Reúnam-se em maior número possível. O irmão Dymkoski e Dziwunkoski e todos os conhecidos que estão com vontade de vir para o Brasil que não tenham medo de nada e não prestem atenção para a fala do povo.

            Quando estiverem para atravessar a fronteira, dirijam-se para Osiek. Fiquem em algum lugar, procurem junto à fronteira algum sitiante para que ele vos apresente a um russo. Acertem com ele (a importância) e ele vos fará atravessar a fronteira, sem qualquer problema. Igualmente suplico-vos, caio de joelhos perante você, querida esposa para que encomendem uma Santa Missa em minha intenção e roguem a Deus e sua Mãe, querida família. Suplico-vos querida família para que respondam quanto antes porque aguardo impaciente e derramo lágrimas, lastimando minha sorte porque é penoso para mim ficar solitário.

            Agora mando lembranças para toda a família: a ti querido vovô e avó, a ti esposa e mãe, caio de joelhos diante de vós, a vós viúva Wieniecki com tuas filhas apresento a minha reverência, venham igualmente para o Brasil. Agora não tenho nada mais a escrever, somente a vós querida família e a todos os conhecidos mando lembranças e ainda mais uma vez peço urgente resposta a respeito de como andam as coisas. Não tenho mais nada a comunicar e que Deus nos ajude, amém.

            Inácio Kalinowski igualmente manda a sua esposa Miguelina os mais profundos respeitos, para os pais e para toda a família da mesma forma e pede que venham ao Brasil. Envia igualmente os mais respeitosos cumprimentos aos Zieminski e pede que mandem resposta urgente. Peço resposta sobre a situação (reinante) lá. Agora o nosso endereço é: Brasil, Estado, Che, (sic).Rio Grande do Sul.

            (Segue escrito com outra mão):

            Prezado e querido cunhado, Inácio Gromceski.

           

Graças a Deus Poderoso estamos com saúde o que também vos desejamos, bem como tudo aquilo que pedia\s a Deus. Estimado cunhado apresente minhas saudações a Kcinski e sua esposa e a seus filhos. Querido cunhado se tens vontade e intenção venha com Kucenski para cá porque é melhor do que na Polônia, para vocês também vai ficar melhor que na Polônia. Quando estiverem em viagem, façam como nós e nos veremos. Permaneçam em Deus.

 

 

                                                           Inácio Binkoski e sua mulher

                                                           Mariana Binkoski.

 

 

 

29. André Borkowski de Tomás Coelho, Paraná para a família, (endereço desconhecido).  10/3/1891.

 

 

                                                           Brasil dia 10 de março de 1891.

 

 

            Queridos Pais.

 

            Estou com saúde graça a Deus todo Poderoso o que também vos desejo. Quanto à situação não vou escrever, porque a situação não está definida. Tenho fé em Deus, que as coisas vão melhorar porque aqui já há colonos com 15 a 20 anos e estão bem, embora fossem emigrantes, como eu. Lá na Polônia propalavam que iríamos viver sem religião. Isso é mentira, porque temos sacerdotes e bispos e quem quer, pode crismar-se. Tudo é da mesma forma como na Polônia. Aqueles que estão com famílias, isto é, casados ou pais com filhos podem receber propriedades nas colônias. Eu, embora a lei me faculte receber terra como aos outros, não quero. O que faria com ela sozinho, uma pessoa. Aqui dão propriedades relativamente grandes, segundo nossa medida trinta morgas e só com matas. Como eu procederia com isto? As terras são muito boas, produzem de tudo, da mesma forma que na Europa. Não há necessidade de prepara-las tanto. O clima é mais ou menos ameno, de forma que no verão, ou seja em dezembro o calor vai 28 ou 30 graus, o que é igual ao da Polônia. Durante o inverno, segundo dizem, as geadas são de três graus durante a noite e durante o dia faz calor que se pode andar de camisa.

            E vós queridos pais, se estão gozando de boa saúde e se puderem, venham para cá. Sempre será melhor do que na Polônia em trabalhos assalariados. Receberíamos uma colônia e labutaríamos em nosso pedaço de chão (no original: em nosso pedaço de pão) e viveríamos à vontade, sem problemas. O governo brasileiro cuida bem do povo a tal ponto que aqueles que vivem aqui, há vinte anos, não pagaram ainda três réis de imposto. Portanto se decidir partir, não disperdicem os pertences, nem roupa de cama. O mesmo digo com relação às roupas, porque aqui são demais caras. Aquilo que lá custa um rublo, aqui sobe para 4 rublos. Podem levar todas as sacolas tanto de trem, quanto de navio. Não se deixem ludibriar com o dinheiro. O dinheiro russo circula bem em toda a parte, até no Brasil. Recomendo-vos queridos pais se tiverdes intenção de partir em viagem para encontrar uma pessoa decente que conheça bem os meandros da fronteira. Peçam que informe adequadamente a passagem pela mesma. Nisto concluo a minha carta porque tenho dificuldade em descrever mais amplamente. Nem sequer mesa apropriada possuo. Encontro-me como em viagem. Envio-vos os mais profundos respeitos, abraços e beijos, milhões de vezes a todos. Com amor André Borkowski.

            Querido tio quando receber esta carta então envie-a com a maior urgência ao pai.

            Meu endereço: quando chegarem ao Rio de Janeiro alistem-se para o Paraná, Província e me achareis na Colônia Tomás Coelho, nos barracos dos emigrantes, mesmo que eu não esteja, lá informarão porque me acho inscrito.

 

 

 

 

30. Ana e Jacó Bufalt de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul aos pais (Zyrardów). 2/04/1891.

Veja local desta carta: Zirardów

 

 

                                                           Brasil, dia 2 de abril de 1891

 

            Noticiamo-vos que estamos com saúde o que também vos desejamos. Depois que partimos de Zyrardów, em 16 de outubro, 10 semanas depois chegamos ao nosso destino, isto é para a colônia. Ganhei 4 wlócas por terra, só mato, bem como 80 mil-réis para a construção de casa própria, 32 libras de pregos, uma fechadura, quatro dobradiças e ganhamos também implementos para a lavoura. Recebemos igualmente um machado, duas enxadas, uma picareta, uma pá cortadeira, um facão, uma foice para desbastes de galhos e uma serra que deverá servir para 7 famílias. Por tudo isso pagar-se-á apenas 200 mil-réis no prazo de 10 anos. Se alguém não tiver recursos ficará pagando até a morte. As árvores são de diferentes espécies. Sua grossura varia de um, 2, 3 e 4 metros e a altura de 20 ou 30 metros . Nós não as conhecemos, a não ser uma, “manhon”. Os pinheiros são mais ou menos grossos e altos, mas são diferentes do que na Polônia porque não possuem nós na parte baixa, somente em cima. Fornecem muita madeira.Nós não os serramos, porém, partimos com cunhas de ferro, lascando tabuinhas e taboas de diversos tipos são rachadas, como cartas de baralho. Os pinheiros não são tão densos. Um dista do outro de 30 a 40 braças e entre eles vegetam pequenos arbustos e vegetação. Em duas semanas pode-se cortar lenha suficiente para o ano inteiro. Para semear, corta-se, deixa-se alguns dias e quando seca ateia-se fogo. Após a queimada não se vira a terra, não se ara, mas lança-se a semente à terra, entre tocos e troncos. Tudo cresce: centeio, trigo, cevada, aveia, trigo preto, batata, ervilha, linho, sorgo, beterraba, cenoura, abóbora, abobrinha, pepinos, alface, cebola, alho. Nós chegamos para uma época ruim. Ainda não semeamos nada. Somente em maio vamos plantar e semear, porque agora é tarde demais. Já tenho duas morgas desbastadas. Vamos ganhar semente do governo de centeio, trigo, feijão, batata e milho. A minha casa já esta pronta. Agora construímos casas para os outros. Pagam-nos 80 mil-réis por casa o que equivalerá dois mil-réis por dia para mim. A minha chácara constitui-se de 2 cabras, 5 galinhas e já ajeitei todos os utensílios domésticos que são idênticos aos da Polônia, somente custam muito mais.

            Tenho duas residências. Uma em cima e outra em baixo. A minha casa tem 8 metros de comprimento, o quatro de largura e três de altura. Eu mesma fabriquei os moveis com machado, porque aqui não há outro costume. Cada um tem que fazer sozinho. O toucinho custa 500 mil-réis o quilo, a carne de gado 200 reis, salame 600 reis, a farinha de trigo 200 reis, a de centeio 150 reis, a batata 200 réis e o arroz 320 reis. O quilo de feijão espada custa 120 reis, o açúcar 500 reis, mas não é igual ao da Polônia. É pó. O quilo de café custa 1 mil reis, a dúzia de ovos 200 reis, uma quarta de leite 200 reis, uma quarta de cerveja 240 reis, uma quarta de cachaça 400 reis, uma quarta de vinho 200 reis, um quilo de fumo 1 mil reis, uma quarta de querozene 300 reis, um quilo de queijo 1 mil reis, um quilo de manteiga 1 mil e 200 reis. Nós mesmos assamos a broa como na Polônia. A galinha custa 400 reis, uma vaca custa 40 mil reis, um cavalo 25 mil-réis e com 30 mil-réis pode-se conseguir um bom animal.

            Nós já tivemos um cavalo e pagamos por ele 15 mil reis. Compramo-lo em sociedade de 4: Czerwinski, Brozoski, José Sobieswik e eu. Lastimavelmente adoeceu e morreu e agora estamos sem cavalo. Em nosso mato não há muitos animais, encontram-se tigres, veados e porcos do mato. Há muitos macacos, cobras, gado selvagem, crocodilos, lagartas grandes como gatos, insetos das mais diversas espécies e jamais imagináveis. Existem “moscas” tais que à noite tem os olhos como eletricidade, tal á a luz que emitem.

            Existem pássaros diversos, alguns são muito bonitos. Há grandes e pequenos e semelhantes a perus. Alguns não voam de forma alguma e somente se escondem quando enxergam a gente. Não causam nenhum prejuízo, porque fogem da gente por causa que desconhecem. O clima é muito saudável. Temos água muito boa, porque vem diretamente da fonte. Aqui não existe inverno como na Polônia. Aqui o inverno começará em abril e a mais forte geada atinge 4 graus e a neve derrete imediatamente. As chuvas são fortes e com trovoadas. Quando troveja tem-se a impressão de ser perto. São raros os raios. O dia apresenta uma diferença de 7 horas. Quando no Brasil são 12 horas, almoço; na Polônia são 7 horas da noite. Ainda não temos nenhuma igreja. Em cada “brigada” estão construindo uma igreja polonesa, isto quer dizer em cada aldeia e deverá vir um padre polonês. Já existe um padre alemão. Em Porto Alegre existem dois tipos de igrejas e há 12 (sic) igrejas polonesas. A distância para essa cidade é de 20 milhas . Aqui também teremos igreja somente mais tarde. No Brasil vai bem, mas somente para aqueles que tem saúde força para o trabalho. Os artífices também estão bem em geral, exceto os carpinteiros porque aqui não existem carroças e também são desconhecidos os ofícios de barriqueiro. Essa mercadoria teria procura. Ainda quero explicar o dinheiro. O mil-réis corresponde a 1 marco prussiano. Divide-se em reis. Não tenho nada a escrever mais porque não tenho papel. Mando aos meus pais profundos respeitos, o mesmo a mulher do irmão, aos irmãos e a sogra. Venham quanto antes para chegarem para o batizado. Quem vier que traga bastantes sementes. Entreguem essa carta a sogra, para que leia. Quando estiverem para viajar comprem para mim um relógio e uma pistola, municiada com pólvora, de cano duplo, porque aqui são caras. Ela deve ter ½ braça de comprimento e que não seja para cartuchos. Vou devolver o dinheiro. Crianças que vos amam.

 

                                                           Ana e Jacó Bufalt

 

 

31. Antônio Czerwinski de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul para a família. (Zyrardów). 3/03/1891.
Veja local desta carta: Zirardów

 

                                                           Dia 3 de março de 1891.

 

 

            Louvado seja Jesus Cristo.

 

            Com estas primeiras palavras de nossa carta estamos levando ao vosso conhecimento que estamos com saúde por graça de Deus Todo Poderoso, o que também lhe desejamos. Agora escrevemos a respeito de nossa partida de Bremen, no dia 7 de outubro. Viajei de trem durante quatro horas até Bremerhaven e lá embarcamos no navio. Ficamos ancorados por três dias e só partimos no dia 10 de outubro. Viajamos de navio, durante 19 dias, até Rio de Janeiro e lá desembarcamos numa ilha. Ali permanecemos um dia. De lá levaram-nos para navios menores e viajamos durante uma semana até Porto Alegre, desembarcamos e descansamos 3 dias. De lá partimos em barcos e com estes viajamos por água, durante 4 horas. Descemos na primeira parada e levaram-nos em carroções. Os pertences e as mulheres viajaram de carroça, enquanto os homens andaram, a seu lado, a pé. Viajamos 4 dias de carroça e chegamos cidade de Izabel e ali nos deixaram. Levaram as mulheres e os pertences, enquanto os homens tinham que prosseguir a pé até a cidade de Alfredo Chaves. A travessia não foi longa, pois durou apenas 2 dias, mas os estragos foram grandes porque os animais não andaram direito. As bestas andaram por tigüeras e em meio a arbustos espinhentos. Chegamos no dia 23 de novembro. Eu ganhei 100 morgas de mato e na capoeira não se pode semear. É necessário cortar, o que é difícil porque o mato é denso e impenetrável.Graças a Deus já limpei mais ou menos 1 morga, mas isso não adianta nada porque agora não se pode semear porque os meses são frios e é necessário esperar uns três meses. Tenho que trabalhar fora. Ganho 1.200 réis diários, o que em dinheiro russo equivale a 1 rublo. Leon deixou-nos, porque não há serviço para ele. Ficamos somente nós e temos muitos aborrecimentos.

            Ainda não vimos nata, nem broa, a não ser no navio. A nossa situação é triste porque ficamos sem um vintém, o que nunca imaginava em Zyrardów. Agora novamente tenho que voltar a trabalhar porque não teremos o que comer. O Natal aqui é muito triste porque não vimos nem sequer um pedaço de carne, mas apenas um pouco de farinha escura de segunda categoria. Ambos choramos nesta Vigília a tal ponto que o coração quase partiu-se de dor. Em verdade o Brasil é um país católico, mas o que adianta se a gente não entende nada? Além disto à distância para a igreja é grande e é difícil ir até a cidade. A minha casa já está construída. Trabalho na construção de casas com os colegas de Zyrardów: Sobiesiak, José Bzowski, José e Jacó Bufalt são exatamente meus vizinhos. Se tiverem planos para chegar, não esbanjem dinheiro como eu fiz, isto eu vos alerto. Se estiverem para chegar para junto de nós quando estiverem no Rio de Janeiro, alistem-se para o Rio Grande do Sul. Serão levados a Porto Alegre. Ali inscrevam-se para Alfredo Chaves. Por favos não se alistem para outras partes. Ficaria imensamente satisfeito se nos pudéssemos encontrar. Acredito que todos poderíamos sustentar-nos nessa enorme área de terra, porque aqui é possível fazer a colheita 2 vezes ao ano. Podem trazer consigo sementes: centeio, trigo, feijão da roça e da horta, trigo preto, alface, pepinos, salsinha, batata salsa, alho, maçã, pêras, ameixas, toda espécie de ervas que se encontram na Polônia.

            Não temos nada mais a escrever a não ser enviar nossos profundos respeitos aos pais, aos dois Migrowski, José e sua mulher Ana, ao Palubicki com sua Constância, aos Kwistkowski com Sofia, ao Michalski com Mariana Leonora Czerwinski, ao Janicki com esposa, ao José Jezierski, ao Jedwabny com esposa e a todos conhecidos, aos vizinhos e também a Margarida Jezursmi (?) e ao Teófilo Sowinski com sua esposa Sofia.

            Abraço e beijo a todos os amigos e parentes e aos meus conhecidos. Com isto vai o meu pedido de resposta para esta carta. Enderecem em alemão. Fim e mandem notícias, como vai a Francisca e se ela andou doente por muito tempo, porque nós dois tivemos freqüentes sonhos.

 

                                                           Antônio Ludovica Czerwinki. Amém.

 

            Meu endereço: Brasil, Porto Alegre, Colônia Alfredo Chaves.

            Antônio Czerwinski.

 

 

 

32. A . Fruscinska de São Paulo para um tal Sr. Slojewski (endereço desconhecido). 27/03/1891.

 

 

 

 

            Prezado Senhor Slojewski!

 

 

 

            Prosto-me profundamente diante de V.S. e comunico que estou bem de saúde, saúde essa que desejo a V.S. de todo coração. Agora levo ao seu conhecimento que viuvei. O marido faleceu no dia 2 de março do corrente ano e fiquei sozinha com a criança. Foi penoso, mas o que se pode fazer. Agora vou casar com um viúvo, cuja mulher e filhos também morreram no Brasil. Trata-se de um tal de Urbanski, natural de Lódz. Ele é marceneiro, uma pessoa muito distinta e um ano mais velho do que eu. O casamento será no domingo depois da Páscoa. Mando cordiais saudações ao Sr. Slojewski, à irmã Wesimieski, juntamente com seu marido, ao Sr. Kubiak, ao Sr. Sitko e a todos os conhecidos.

            A. Fruscinska. O Sr. tenha a bondade de dar esta carta aos Sitko para lerem. Até logo. Gasiorowski igualmente manda lembranças a todos os conhecidos. São Paulo, dia 27 de março de 1891.

 

 

33. Leon Galbierczyk de Santo Antônio da Patrulha Rio Grande do Sul para J. Kaminski e sua esposa (endereço desconhecido). 28/12/1890.

 

 

                                                           Santo Antônio 21 de dezembro de 1890.

 

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Com estas palavras saúdo-vos queridos irmãos (ordem Terceira de São Francisco. Parece que o autor da carta e os destinatários fazem parte da Ordem. (Nota do autor do livro)).

            Queridos irmãos comunico-vos que por graça de Deus estamos com saúde agora, isto vos desejamos também de todo coração. Não lhes desejo Boas Festas de Natal, porque já as comemorastes, mas em compensação faço votos de Bom Ano Novo e os votos de encontrar-me convosco, mas nem na Polônia, nem na Prússia, mas aqui no Brasil.

            Estimados irmãos da Ordem de São Francisco agora pretendo escrever-lhes sobre a minha viagem. Quando saímos de casa em 18 de outubro, pela manhã, como é do vosso conhecimento, no domingo às 6 horas encontrava-me em Berlim, na estação central. Ali fiquei até 1 hora da tarde, quando embarcamos para Bremen, onde chegamos às 11 da noite daquele domingo. Fomos levados ao Hotel de nome Lampa, nº3 que não dista muito da estação férrea.Ali explorou-me. Pelo pouso pagamos 40 marcos, sem nenhuma necessidade. Quanto ao navio lá tudo é gratuitamente. Passamos assim: sopa de ervilhas para o almoço ou de arroz, comemos carne diariamente com algumas batatas para o almoço.Para o desjejum recebemos café preto e o mesmo para o jantar. O café era acompanhado de pão com manteiga e à noite torradas.

            Agora quanto a viagem. Embarcamos no navio (da Companhia) Lloyd denominado Rachen no dia 25 de outubro, as duas da tarde. Era um sábado e levantamos âncoras no domingo as duas da tarde, isto é, no dia 15 de outubro, porque o navio ainda não estava carregado. Quando o navio iniciou a viagem, somente tivemos uma noite de forte balanço do navio, ainda que a nossa viagem durasse 19 dias. Paramos apenas no porto Espanhol “Stat Paulus” (não foi definido, segundo o autor este porto), durante 24 horas. Não paramos em nenhum outro lugar a não ser no entreposto do Rio de Janeiro. Ali tivemos um descanso de 6 dias, isto é até o dia 21 ao dia 26, quando seguimos para Porto Alegre, porque para lá nos havíamos inscrito. Chegamos a Porto Alegre em 29 de novembro. Lá apenas existem duas fábricas, uma de papel e outra de vidro. Neste mesmo dia alistamo-nos para Santo Antônio e prosseguimos imediatamente, no mesmo dia 29. Viajamos de carroças de Porto Alegre a Santo Antônio. Temos comida própria porque recebemos cartões e cada um retira o que deseja e prepara em casa.Cada casal recebe 1 mil reis, ou seja, o equivalente a 2 marcos, a criança de 3 a 15 anos tem 300 réis e aquelas com mais de 15 anos calculam na base de 500 reis, ou seja correspondente a 1 marco. Isto eles dão até que se receba a colônia. Cada colônia mede 1.000 metros de comprimento por 500 de largura.Aqui a terra não é trabalhada da mesma forma como na Europa. Lá é necessário fazer muito esforço. Aqui faz-se com jeito, ou seja (--). Quanto a terra em si, ela é mais fértil nos morros. Nestes encontram-se as maiores árvores e produz em qualquer parte. Durante 7 anos não se paga nenhum imposto. Existe uma ajuda para a terra, durante cinco meses, no valor de 35 mil-réis mensais. Durante esse tempo deve-se construir a casa que apresenta as seguintes características: por uma casa de 8 x 6 o governo paga 150 mil-réis ou seja 300 marcos. Depois dos cinco meses é obrigatório ajudar a construir outras casas. Esse trabalho é recompensado pelo governo com 2 mil-réis diários. O serviço das 8 da manhã às 6 da tarde. Queridos irmãos, escrevo-vos a verdade, tão clara como na palma da mão.

            Agora, queridos irmãos, se alguém de vocês quizer chegar que me escreva o mais depressa possível. Eu enviarei a passagem de navio. Pensei em mandar agora, mas não sei se vocês não mudaram de idéia. Tão logo receba vossa carta, mandarei e podem embarcar em abril. Aqueles que não querem aguardar a passagem, escrevam-me. No Rio de Janeiro alistem-se para Santo Antônio, considerando que poderemos estabelecer-nos juntos e um será auxílio para o outro, mas sempre comigo.

            Querido irmão João Kaminski e tua estimada esposa, não me levem a mal porque não escrevi por tão longo.Em verdade, parcialmente foi preguiça e por outra parte somente desejava escrever quando já estivesse em minha colônia. Durante o Natal tive dois sonhos, um repetiu o outro. Tive problemas (durante o sonho) com tua mulher a respeito daquele dinheiro. Queridos irmão e irmã da Ordem Terceira de São Francisco, digo-lhes que restituirei tudo. Se chegarem, pagarei aqui, senão, escrevam-me onde vão ficar. Se Deus se dignar em me conceder saúde, farei tudo para pagar tudo no decurso de um ano, não só a vós mas a todos que tem direito. Agora queridos Kaminski, se quizerem chegar com os pais e irmãos, com a mesma passagem, saibam que cada casado que trouxer a esposa, receberá uma colônia inteira, enquanto o solteiro metade da colônia. Esquecia-me que no nosso navio vieram 1313 pessoas. Durante a viagem morreu apenas uma criança e nasceu uma. Aquela criança que era amamentada, faleceu-nos. Aguardo a vossa carta, enquanto isso vou par a minha colônia. Enderecem certo as cartas conforme a seguinte instrução:

 

            Na Den

            Leon Galbierczyk

            Brasilien Profins

            Rio Grande do Sul

            Santo Antônio da Patrulha.

 

 

 

34. J. Gasiorowski de São Paulo para um tal Sr. Javorsk (endereço desconhecido). 27/03/1891

 

 

                                                           São Paulo, dia 27 de março de 1891

 

 

            Prezado Sr. Jaworski.

 

            Recebi a sua carta e a dos pais no dia 20 de março do corrente e imensa foi a minha alegria. Admiramo-nos muito que seu filho não vive mais.Infelizmente é difícil, mas a todos nós aguarda isso. Agora desejaria dizer ao preclaro senhor alguma coisa sobre o Brasil. Para nós, por exemplo, é bom no Brasil, mas não o é para todos. Para o carpinteiro, para o marceneiro, para o celeiro está bem e podem ganhar bastante dinheiro. Os simples trabalhadores, aqueles que vieram para se estabelecer em propriedades rurais no Brasil, para alguns a miséria é extrema. Quase morrem de fome. Aqueles que faziam serviços corriqueiros na Polônia e querem trabalhar pesado, saem da Emigração e alistam-se para propriedades. O governo manda que escolham as colônias onde querem e os envia para lá. É verdade que o clima não é salubre em toda à parte. Desde que alguém quer trabalhar vai para as obras do governo. Trabalha na construção de estradas para viajar, pois todas as regiões estão cobertas de matas enormes. Recebem pelo trabalho 1 e meio mil reis, por dia. Se alguém leva uma vida modesta, economiza alguma coisa ou se tem dinheiro de casa ou alguma ajuda, então aceita uma colônia de 40 morgas de mata enorme. Pela colônia deverá pagar 75 mil-réis mas quando? Ninguém sabe. Limpa a terra aos poucos, semeia milho, planta parreira, trigo preto, batata, e toda sorte de verduras, pepinos, repolho, etc. Compra uma carroça e um burro. Leva lenha para a cidade ou serra taboas e vende. Em pouco tempo poderá conseguir um belo dinheiro e uma bela propriedade. Só o vinho dá bom dinheiro. Se alguém não está acostumado a trabalhar ou não quer, passa enorme fome. Muitos poloneses e outros vivem na “Emigração” às custas do governo. Não querem saber de trabalho. Querem retornar a Polônia por conta do Governo. O governo não manda ninguém de volta por isso curtem miséria. Cada um deles queria açambarcar tudo. Pretendia encher os bolsos com ouro e retornar, entretanto aqui recebem ordem para trabalhar. Por exemplo o açougueiro Ochman de Wolka e seu genro Guilherme, parece que o senhor os conhecia e muitos outros, num total de 500 famílias alistaram-se para colônias. O governo enviou-as para lá, onde vicejam enormes florestas. Isso não lhes agradou porque o trabalho seria ingente transformar aquelas matas em terra cultivável. Não começaram nenhum serviço e queriam que o governo os mandasse de volta para a Polônia. O governo, todavia, manteve-os lá durante alguns meses, pretendendo vence-los dessa forma. Metade deles morreu e o restante retornou a São Paulo. Continuam (residindo) até hoja na “Emigração” às expensas do governo. O que vai acontecer com eles, não sei. Outros que deixaram antes a “emigração” e foram para a cidade, sem qualquer profissão, alguns começaram a trabalhar como pedreiros, marceneiros e em outros serviços. Ganham 2 mil diários o que lhes dá para a vida, para a moradia e ainda economizar algum dinheiro, porque não são esbanjadores. Os que não trabalham passam fome e andam maltrapilhos. Outros venderam suas esposas aos pretos, obtiveram grande lucro e se retiraram. Ninguém sabe para onde foram. Outros maridos deixaram as mulheres com crianças e fugiram para outras regiões. As mães e as crianças andam pelas ruas, esmolando um pedaço de pão ou ingressam na vida fácil. Outros ainda transformaram suas casas, em públicas, onde trabalham as mulheres e filhas. Várias coisas acontecem que é difícil de descrever. Permaneço a sua disposição. Boa saúde e boa sorte.

 

                                                                       J. Gasiorowski

 

 

 

 

35. Gasiorowski de São Paulo aos pais (endereço desconhecido). 27/03/1891.

 

                                                           São Paulo 27 de março de 1891.

 

 

            Queridos Pais, Gasiorowski.

 

 

            Comunico-vos sobre a nossa saúde. Todos estamos bem o que também vos desejamos de todo coração. Recebi todas as vossas cartas que já se elevam a cinco e também a registrada na qual se achava a carta de Jaworski. Agora quanto às minhas cartas, já lhes mandei algumas com descrições sobre o Brasil. Primeiramente mandei duas e recebi resposta, depois mandei mais três juntas; uma para vós, outra para os Racki e a terceira para o Sr. Rutkowski. Destas cartas recebi a vossa resposta e deduzi que (os Rutkowski) foram para “aluguel” (provavelmente perderam a propriedade e arrendaram outra). O endereço que me destes foi para Ileowa por isso mandei três cartas, em nome de Gustavo Berner, para vocês e uma para F. Racki. Estanislau enviou uma para vocês e recebi a resposta de que apenas chegaram duas. Não sei o que isto significa: ou o endereço para Ilowa estava errado, ou não entendo mais nada. Quanto a minha situação, repito-a em cada carta que vou bem de saúde, trabalho numa fábrica de móveis isto é faço serviços de marcenaria de móveis, recebo por peça fabricada, cento e poucos mil-réis mensais. Traduzido para o dinheiro russo, o rublo, representa muito. A manutenção custa-me 40 e poucos mil-réis mensais.

            Levamos uma vida boa, melhor do que na Polônia. Que Deus nos conceda saúde e em breve chegarei a ter bom dinheiro. No início foi um tanto difícil com a língua, bem como no trabalho porque no Brasil a marcenaria é diferente. Agora já me orientei no serviço.Falo a língua alemã razoavelmente. Compreendo um pouco o português e o italiano, por isso estou bem. Estanislava domina razoavelmente o português. Agora quanto a Estanislau a situação não é das melhores. Trabalha em obras públicas. Pagam-lhe 1.500 mil-réis diários e a vida é cara. Além disso, como lhes escrevi, estiveram muito doentes. Ele ficou de cama durante quatro semanas e ela durante seis. Deu à luz uma criança morta, antes do tempo. Se não lhes tivesse ajudado, ser-lhes-ia muito difícil. Já gastei com ele bastante dinheiro. Agora comprei-lhe uma serra de ferro. Preparava-se para ingressar em serviço particular e poderia ganhar bom dinheiro com a serra, mas soube que quem abandona o serviço público o governo também o abandona. Não pode receber mais colônia e ele esteve inscrito para uma delas. Se ele receber a colônia, ajudá-lo-ei em dinheiro e ele poderia ficar bem. Eu igualmente aproveitaria com isso porque teria taboas de madeira à vontade. O próprio diretor lhe disse que tão logo terminem a construção das estradas, receberão colônias e o governo construirá casa para cada um. No início, durante alguns anos não pagarão nada ao governo, sob forma de imposto. Por estas razões Estanislau vai esperar e continuar a trabalhar nas obras públicas até alcançar algum resultado. Eu e Estanislava na Páscoa vamos visitá-los, porque Estanislava passou com eles quando estavam doentes. Eu ainda não lhe fiz visita, embora Estanislava faça-o freqüentemente. Toda vez que vem dou-lhe alguma coisa. Agora no que respeita ao Francisco, ele que fique nas minas de carvão, porque ainda tem tempo. Depois eu lhes escrevo como deve proceder com ele. Envio cordiais reverências e beijo-vos milhões de vezes, queridos pais. Cumprimentamos também o Chiquinho, Catarina, ao cunhado e a toda a família, bem como a todos os conhecidos. Reverenciamos profundamente e desejamos saúde e sucesso.

            O calor aqui é de 25 graus, o dia é de 12 horas e 45 minutos.

 

 

                                                           J. Gasiorowski

 

 

 

36. Gasiorowski de São Paulo aos pais (endereço desconhecido). 28/3/1981

 

 

                                                           São Paulo, dia 28 de março de 1891

 

 

            Queridos Pais (...). Comunicam-vos que estamos bem de saúde o mesmo desejamos a vós de todo o coração. Quanto à situação, vamos bem, graças a Deus. Agora levo ao vosso conhecimento que faz bastante tempo que não recebemos vossa correspondência.A última foi aquela que trazia a vossa carta e do Pomorski e mais uma. Portanto não sei se o endereço que colocastes estava errado ou se já totalmente nos esquecestes. Os pais de Júlio mandam muitas cartas e de vossa parte não vem nada. Toda vez que vem uma carta aos Gasiorowski, corro com satisfação, pensando que também veio a minha. Mas as vossas não aparecem e não aparecem. Por isso peço-vos que escrevam com mais freqüência.Não tenham pena de alguns vinténs para selos, porque isso não vai aliviar o peso que levo no coração. Toda vez que recebo vossa carta e leio, tenho a impressão de estar vos vendo e falando convosco. Por isso peço que não me esqueçam, porque eu sempre me lembro de vós. Estais em meus pensamentos dia e noite. Não se preocupem comigo. Faço votos para encontrar-vos com saúde, quando retornar.

            Preocupa-nos a falta de padre que fale polonês. Todos falam em português e nós ainda não falamos bem e, por conseguinte não nos podemos confessar. Trago-vos notícias sobre a festa do Padroeiro. Nunca vi uma semelhante festa. Só a decoração das ruas de São Paulo custou mais de 150 mil reis, despendidos pela cidade. Durante a quaresma ninguém jejuou. Eles confessam-se católicos e nas igrejas portam-se como nós, mas não observam a religião com tanto rigor como nós. Não festejam quase nenhum dia santificado. Guardam somente o Natal, Sexta Feira Santa e os domingos. Este é o costume durante a Semana Santa: Na quinta Feira Santa depositam Cristo no Tabernáculo, na Sexta Feira no túmulo e à noite, às 10 horas, saia a procissão pelas ruas. Vão de uma igreja para outra. Os padres levam a Cristo na urna, com luzes e estandartes. Os que acompanham a procissão riem, falam, alguns assobiam. Não é como entre nós em que cada um anda em silêncio e reza. Para a Páscoa não preparam nada, nem a “swienconka”. Os padres não benzem os alimentos. Nós só jejuamos três dias durante a quaresma e alguns poloneses comeram carne até na Sexta Feira Santa. Em verdade os alimentos de abstinência são mais caros do que a carne, mas os poloneses estragam-se no Brasil.

            Comunicamos que Fruscinski morreu; as crianças pequenas dos Witkowski também faleceram, bem como as do Guilherme. Fruscinska está para casar-se com outro marceneiro do Lódz, um tal Urbanski.

            Nas colônias pereceram muitos poloneses (           ). Nada mais temos a escrever. Enviamo-lhes uma saudação profunda, queridos pais e também ao irmão Francisco e sua esposa. Desejamo-lhe sucesso, em sua nova propriedade, sorte e saúde e o mesmo às irmãs, ao cunhado Ftorkowski e a toda a família almejamos saúde e boa sorte.

 

 

                                                           Júlio, Estanislava e Ladislau Gasiorowski

 

            Mandamos profundos cumprimentos ao Andrzejewski, ao Sr. Malewski, ao Sr. Pryborowski e a todos os conhecidos.

            O endereço é o mesmo que antes.

 

 

 

 

37. Ludovico Gier do Rio de Janeiro para uma destinatária desconhecida.

 

 

                                                           Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1891.

 

            Queridíssima e única no mundo Maria!

 

            Certamente vais-te admirar que ouso escrever-te e por isso peço escusas. Estas poucas palavras que rascunho para você, saiba que para mim são muito agradáveis, a ponto de ter a impressão que estou falando com você, mas basta que olhe pela janela e contemple a imensidão que nos separa (moro perto do mar), tenho a impressão de que você não quer mais saber de mim, que já me esqueceste, afinal mereci isto. É verdade fui um tresloucado, mas o que se há de fazer. Certamente sou e serei forçado a peregrinar pelo mundo e pensar em você dia e noite. Ainda não estou desesperançado, algum dia, mesmo que seja uma hora antes da morte tenho que te ver. Hoje sinto o que você significava para mim, querida Maria!!! Confesso sinceramente que escrevo esta carta com verdadeira dor de coração que quer arrebatar-se para a Europa para te ver e pedir perdão de joelhos. Não estou em condições de externar o que se passa comigo. Mas queridíssima Maria, esqueça tudo o que te fiz de mal, perdoe-me tudo e diga somente esta palavra que me amas, como me amavas antes e que serás minha até a morte. Como fui bem sucedido e ganho muito bem, estou disposto a abandonar tudo e voltar para junto de ti. Se a tua resposta for ao contrário então peço-te que me lembres se tens falta de alguma coisa e estarei pronto a fazer tudo por você. Sei que a tua resposta será esta: Perguntas se preciso de alguma coisa? Você sabe como me deixou, então logicamente não deveria perguntar-me. Se aceitas que te mande alguma coisa então aceito o meu, talvez já não seja meu, Figurski. Responda-me pelo menos algumas palavras que me serão mais caras do que tudo, mas o mais depressa possível. A viagem não vou descrever, porque não há nada de interessante, menciono apenas que aqui temos um calor excessivo. Estamos em pleno verão.

            Querida Maria! Só isto quero escrever-te e esperar o que você vai responder. Ganho aqui muito bem, pelo menos uns 12 rublos mensais e depois poderei ganhar até mais. Eis a razão de minha pergunta, se me é permitido interrogar, minha Maria: você não quer vir? Pelo menos ficarás 100 vezes melhor do que na Europa. Imediatamente alugarei uma casa bonita e jamais te abandonarei até a morte. Isto jurarei na Igreja. Aguardo ansioso a tua resposta.

Se porventura me negares tudo, então a partir desse instante vou perambular pelo mundo e você querida serás a minha companheira dessa viagem e até a morte ser-me-ás anjo para quem vivi e morro.

 

                                                           Teu até a morte Ludovico Gier.

 

 

            Meu endereço: Luiz Gier, Rio de Janeiro / Rua Ourives, Casa Oriental,

            Nº 49, Brasil.      

 

 

 

 

38. Luiz Gmuchowski de São Mateus do Sul, Paraná, para a Sra. Maria Zóltkowski (endereço desconhecido; província de Lomza). A carta está endereçada para o padre de Bremen. 1/01/1891.

 

 

                                                                       São Mateus, em 1º de janeiro de 1891.

 

            Que esta carta não ultrapasse os umbrais da casa, sem antes louvar a

           Deus:

 

            Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

 

            Tomo a caneta em minhas mãos e vos cumprimento: sento-me á mesa para conversas convosco. Querida e amada mãe, queridos irmãos e irmãs, nestas poucas palavras levamos ao vosso conhecimento a nossa situação. Por graças de Deus supremo estamos com saúde, o que também por graças de Deus vos desejamos a melhor saúde. Amada mãe, irmãos e irmãs, agora descrevemos a nossa viagem, através do mar. Nos primeiros dias estivemos doentes a ponto de não poder levantar a cabeça, durante três dias. Depois que nos acostumamos, passamos bem, com saúde, apesar de termos muito enjôo. Viajamos durante quatro domingos, parando algum dia, às vezes, em algum lugar, junto a alguma ilha, onde carregavam carvão. Era enjoado, pois não víamos nada além da água e do céu.

            A comida que ganhamos era boa, durante toda a viagem: carne e pão à vontade, bem como outros pratos. Todavia essa vida enjoou-nos bastante, porque não havia nada de azedo, mas tudo doce.

            Amada e querida Mãe e queridos irmãos e irmãs se vocês tem meios e desejo de vir, venham, porque aqui é melhor. Ganhamos nossas propriedades, separadas. Possuo mais de quatro eitos (wlóki) poloneses de belo mato que limpamos e plantamos.

            Querida Mãezinha, se decidirdes partir, tragam consigo toda sorte de cereais e outras sementes, tudo aquilo que cresce na Polônia, porque nós teremos nesta propriedade boa manutenção para todos. Se Jesus ajudar-vos a transpor com felicidade a fronteira porque esta é a pior parte de toda a viagem, porque nós fomos apanhados na fronteira e tivemos que entregar o último travesseiro, então querida mãezinha, queridos irmãos e irmãs levem tudo o que puderem consigo: roupa de cama, somente muito cuidado na fronteira para que não lhes tirem tudo.Não escutem ninguém porque por mais coisas que levardes não vai-lhes custar nada em Bremen. Mesmo que queiram pagamento não lhes daí nada, mesmo que tenhais consigo.Digam-lhes que não tendes nada. Se estiverem para viajar levem consigo 10 rublos para o bilhete de trem por pessoa. Amada e querida Mãezinha, queridos irmãos e irmãs procurem e peçam a Deus que nos possamos ver em breve, porque estou com muita saudade e desejaria vê-los todos dentro de uma hora. Quando receberem esta carta, que Deus ajude, respondam imediatamente.

            Agora concluímos esta carta e nos despedimos de vós, amada Mãe e queridos irmãos e irmãs e igualmente com a irmã Antonina e todos os conhecidos.

            Nosso endereço:

            Luiz Gmuchowski, Colônia São Mateus, Prov. Paraná.

            Este é o endereço de minha irmã: Mrs.Mariana Zóltkowska, Província Lomzynska, Município Karniewo, Distrito Maków Mas, aldeia Kronczwa (não está definido).

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo:

            Pai espiritual pedimos perdão pelos aborrecimentos em ousar enviar esta carta ao pai espiritual, porque nós não sabemos para onde enviar esta carta. Pai espiritual, gratos ficaremos se os pais receberem esta carta. Do Brasil nós não a podemos enviar, porque vão devolver da fronteira polonesa, por isso entramos com o presente pedido, pai espiritual, para enviar esta carta. Pedimos cordialmente, porque estaríamos satisfeitos se ela chegasse ao destino, tendo em vista que a mãe vive abandonada e espera a correspondência dia a dia.

 

 

                                                           “Absender von Bremen: Pfarrer Peter

                                                             Schlosser, Linden Strasse 6 – Bremen”.

 

 

 

 

 

39. Estanislau Jablonski de Rio Carolina, Santa Catarina, para seus pais (endereço desconhecido).    5/02/1891.

 

 

                                                           Ano de 1891, 5 de fevereiro.

                                                           Colônia Carolina.

 

 

            Queridíssimos e caríssimos pais meus escrevi-lhes uma carta, mas não posso esperar mais pela resposta e por isso estou escrevendo a segunda. Peço-vos queridos pais se estiverem com a intenção de chegar, tragam consigo tudo que puderem. A ti mãe, peço que leve roupas o mais possível. Ainda peço que tragam por minha conta um par de sapatos para mil e chinelos para minha esposa. Peço ainda que tragam uma espingarda de 2 canos, mas que seja boa.

            Amado pai e querida mãe cumprimento e inclino-me diante de vós, desejando saúde e boa sorte e todo o bem que esperais da parte de Deus. Mando ainda lembranças para o cunhado Zachoro (wski), Mezynski e sua esposa, bem como as crianças, inclino-me diante de vós e desejo todo o bem. Cumprimento ainda o tio José com meus respeitos e desejo saúde e toda a sorte de sucesso. Agora saúdo a toda a família e peço que não desprezem o meu pedido. Peço a vocês todos que venham para cá, porque sinto-me triste sem vocês. Não me falta nada a não ser que no início foi um tanto difícil, mas espero que em breve estarei bem. Ainda informo-vos que se estiverem para chegar então vocês devem viajar de Vístula para Konopka e é necessário perguntar por Niedmelski que vos ajudará a atravessar a fronteira e tudo estará bem. Ainda aviso que quando estiverem partindo levem toda sorte de sementes, um pouco de beterraba, cenoura, repolho e tudo o que existe por lá.

            Comunico-vos, outrossim, que aqui faz bastante calor. Lá na Polônia existem enormes neves, aqui existe o calor, caem chuvas, há trovoadas, a ponto de tremer a terra. Informo que aqui pode-se viver um pouco melhor do que na Europa, porque aqui não é necessário pagar nenhum imposto. Posso criar gado, galinhas, gansos, marrecos, porcos e tudo o mais. Agora quando construirmos nossas casas vamos receber 50 mil réis de ajuda, mas cada um deve estar em sua propriedade. Depois que receberem minha carta, peço que enviem resposta o mais depressa possível e escrevam tudo, se vão ou não chegar, para que eu saiba.

            Anexo segue um cartão. O meu endereço escrevam:

            Hern Estanislau Jablonski / Provinz Santa Catarina / Posst Blumenau / Colônia Rio Carolina, nº 2 / Brasilien / na América (Isto escrito em russo).

 

 

 

 

40. José Jaczynski de São Mateus do Sul, Paraná, aos pais (endereço desconhecido). 22/02/1891.

 

 

                                                           São Mateus 22 de fevereiro de 1891.

 

            Caríssimos pais!

 

            Peço profundamente perdão por ter abandonado os pais, sem me despedir. Aliás, minha sina parece ser essa. Beijo os pais, o pai, a mãe, a Francisca, a Catarina, a Mariana, seu marido e filhos. Avisem o meu irmão que o beijo, bem como a Rozinha e o José, seu irmão.Beijo e abraço o prezado Sr. Binder M. e ao mesmo tempo saúdo os tios por parte do pai e da mãe e a todos os conhecidos.

            Minha viagem: primeiramente é conhecida aos pais a nossa despedida no dia 20 de outubro; no dia 28 de outubro parti, entre lágrimas do irmão e outros parentes, de barco através do Vístula; no dia 1º de novembro acho-me entre grades na Província de Pook e no dia três realizo fuga, no dia 4, em Torun, 7 em Bremen na costa do mar, 15 no Oceano, 17 na Bélgica, na cidade de Antuérpia, 22 na Espanha, na cidade de La Coruña , 25 em Portugal, na cidade de Lisboa, no dia 27 no alto mar Atlântico, 10 de dezembro Brasil, isto é América do Sul, no dia 12 de dezembro desembarcamos em nova terra Polonesa, na cidade portuária do Rio de Janeiro, no dia 24 de janeiro em lugar do nosso destino, na Província Paraná, na colônia São Mateus.

            O governo Brasileiro professa a Religião Católica, a língua é portuguesa que tenho esperança de aprender depressa. Viemos três mil emigrantes. Decidimos o destino por sorteio. A minha “sorte” (propriedade) recaiu perto da cidade recém-fundada. Ganhei 84 morgas de mato, segundo a nossa medida.

            As árvores que crescem são as seguintes: palmeiras, pinheiro, imbuia, cedros, erva-mate – esta deixo-a – o resto corto tudo e queimo.Espero que dentro de 1 ano terei quatro morgas de terra limpa.O que cresce aqui? Milho, feijão de horta, batata, centeiode primavera, uva e certamente tudo o que for europeu, pois não se acha terra mais fértil e clima tão ameno, como naquela província, mesmo que seja maio ou junho. O inverno chega a 4 graus e o calor não ultrapassa 26º. No Rio de Janeiro o pedreiro ganha 8 a 10 isto é... (falta o correspondente polonês) russos, mas em contrapartida o calor atinge a 50º, porque fica perto do Equador. Eu, enquanto começam a construir a cidade, prepararei um bom pedaço de terra, pois a casa será construída pelo governo. Para o dia 10 de março vão buscar um padre para batizados e casamentos. O Brasil é um país vasto que pode abrigar a todos os poloneses e ainda sobrará lugar, ao mesmo tempo é um país onde corre leite e mel e de liberdade excepcional. Portanto o ladrão e o assassino é melhor que apodreça nas masmorras russas antes que veja o Brasil! Há perfume o ano inteiro. Sobre os pássaros: faisões, galinhas do mato, pombos, galinhas de angola, e mais outras 50 variedades de outros que não conheço abundam. Não existem aves de rapina. Tenho terra à vontade, basta que Deus dê saúde.

            Queridíssimos pais! Se receberdes esta carta respondam imediatamente. Enviem notícias sobre o que o moscovita está a inventar com nossa religião, bem como sobre tudo o que está ocorrendo no país e ao mesmo tempo mandem-me a benção paternal, se a mereço, porque pode ser que não verei ninguém.Vou-me casar com a senhorita Rosália Rydlewska, com 18 anos, natural da Província de Plock. Já podeis cumprimenta-la como nora e cunhada. Ela merece isto. Quando for construída a cidade vou mandar fotografias, talvez daqui a alguns anos. Espero que nos veremos. Se alguém conhecido estiver para vir ao Brasil que envie carta do Rio de Janeiro par a Província do Paraná, Colônia São Mateus e eu o informarei para onde e de que forma deve se comportar e dirigir. Peço que dêem notícia a meu respeito ao meu irmão, ele também que acrescente sua opinião. Em breve posso ajuda-los, todavia se o moscovita pressiona, escrevam imediatamente.

            Existem enormes plantações de laranjeiras, citrus, figos, uva, café e castanhas, o que também nos vamos implantar em nosso pomar com o tempo.

            Graças te sejam dadas, ó Deus, que conduzistes os meus passos para esta região. Peço-te somente saúde, pois com a ajuda divina, serei com o correr do tempo, um colono próximo da cidade.

            Não tenho nada a escrever, senão beijar a todos milhões de vezes e amando-vos a todos até o túmulo, filho e irmão.

 

                                                           José Jaczynski

 

P.S. Se o moscovita permitir a passagem da carta de ida e volta, então na

        próxima apresentarei o meu projeto. Aguardo resposta com impaciência.

        J.J.

 

Endereço: São Mateus, Brasil, Paraná, José Jaczyinski.

 

 

 

 

 

41. Adalberto Jakukowski de Jaguari, Rio Grande do Sul, para a irmã (endereço desconhecido). 15/02/1891.

 

 

                                                           Brasil 15 de março de 1891

 

            Antes de tudo comunico que, por graças de Deus, estamos com saúde o que também desejo a você de todo o coração.

 

            No dia 22 de novembro saímos de Bremen no navio denominado Darmstad e no dia 15 de dezembro chegamos ao Brasil, à cidade do Rio de Janeiro. Lá descansamos durante duas semanas. De lá partimos de navio brasileiro de nome Estrela e chegamos a cidade de Porto Alegre. Viajamos de navio durante sete dias.

            No navio prussiano não estava mal e viajamos ao todo 2.600 pessoas. No Brasileiro viajaram 600, mas a comida era péssima.

            De Porto Alegre levaram-nos de trem até a cidade de Jaguari e dali não viajamos mais. Distribuíram-nos pelas colônias. Cada um escolheu a sua e depois fomos levados para as mesmas. Nós estamos a 4 léguas da cidade.

            Recebemos duas colônias, o pai uma e o Romão a outra. O tamanho de uma colônia corresponde a 100 morgas, mas é só mato.É necessário cortar, queimar, para depois poder semear. Cada colônia recebe como auxílio 25 mil réis mensais o que é correspondente a 4 zlotes poloneses. Nós, pelo fato de possuirmos duas, recebemos 50 mil reis. Recebemos ainda 2 machados, duas foices para cortar lenha miúda, 2 enxadas, 8 libras de pregos. Para dar uma idéia do mato, nós em dois cortamos uma morga por semana.

            Estimadíssimo irmão podes chegar. Lembro-me de você várias vezes ao dia e ainda mais seguidamente da Ladislava que muitas vezes é absorvida em meditação. Nós perguntamos sobre o que ela pensa e ela nos responde que sobre a tia.

            A capela fica na cidade e existe padre católico. Reza missa diariamente e aos domingos a Missa Solene, como acontece em cada igreja. Peço-te que venha porque ficará bem melhor do que na fábrica.

            Peço-te querida irmã que me traga o Quadro de Nossa Senhora e o Escapulário do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora. Já tenho duas morgas de terra preparadas; a casa já esta construída; 18 pés de uva, no ano que vem já se poderá tomar vinho; cinco pés de marmelo e do terreno já colhemos 4 quartas de feijão, 12 sacos de milho do que dou ao colono uma quarta mensalmente, durante quatro meses. É pesado porque tenho que me manter com o cartão.

            Mando cumprimentos ao Lourenço Niczepka, a sua esposa e filhos. Estimado cunhado podes chegar. Estarás bem, mas leve tudo o que puder. Tragam o que puderem porque eu me arrependo de ter tudo esbanjado. Se não venderem esses dois ferros de engomar tragam consigo. Tudo servirá.

            Estimadíssimo compadre Valentim Matuszewski cumprimentamo-vos com a esposa e crianças.

            Todo dia contemplo-te diante dos meus olhos, mas é difícil encontrar-me com você, pois mesmo que escrevesse para chegar, não sei se gostarias de trabalhar assim. Podes chegar, pois se eu trabalhar durante três ou quatro anos estarei bem melhor do que na fábrica. Se tivesse 100 rublos tudo seria mais fácil. Preciso de um cavalo, uma cava e todos os implementos para a lavoura, mas não tenho com que comprar. Com a ajuda de Deus pode-se chegar a ter tudo. Cumprimentos a Francisco Matuszewski, sua mulher e filhos! Querido compadre se estiver disposto a trabalhar como eu trabalho, com certeza deixarias para os filhos uma herança maior do que em Zyrardów.

            Cumprimento a todos os compadres e aos conhecidos. Inclinamo-nos profundamente a toda a família do Sr. Lasocki. E, como é que está a situação com o Sr. Estanislau? Levaram-no, ou não para o serviço militar?

            Encontramo-nos com Bunilowski, com Cahjdul e com o Filipak. Até logo.

 

                                                           Adalberto Jakubowski

 

            Nosso endereço:

            Brazil / Estado Rio Grande do Sul / Vila de São Vicente / Colônia Jaguary.

 

            Querida irmã, se você não chegar escreva carta urgentemente e pedimos-te muito que nos envie dinheiro, quanto puder, em um ano te devolverei.

            O mais cordial cumprimento para José Tomaszewski. Em outra carta vou-te escrever mais, pois não disponho de tanto tempo para escrever tudo.Não se preocupe comigo pois estou bem.

            Se o Nieczepka estiver para chegar que se encarregue de minha irmã.

 

 

                                                           Adalberto Jakubowski

 

 

 

 

42. João Jaras de São Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa (Zyrardow). 29/02/1891.
Veja local desta carta: Zirardów

 

 

                                                           Vinte, 29, de fevereiro, envio esta carta.

           

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Amada esposa antes de tudo saúdo-te com minha e tua filha. Abraço de todo o coração e beijo milhares de vezes nas mãos e nos pés, querida esposa. Agora informo-te que estou com saúde e a ti desejo o mesmo com a ajuda de Deus Supremo. Peço-te que não esqueças seu querido Joãozinho, como eu não esqueço de você, querida esposa J.J.K. (?). Agora imploro-te a fim de te prepares para chegar o mais depressa ao Brasil. Querida esposa informo que ganhei muita terra que nem sei quantos eitos podem ser e ainda existem algumas tiras de mato, para completar. Quanto às plantações, crescem duas vezes ao ano e tudo produz da mesma forma como na Polônia, apenas o calor é um pouco mais forte, mas não é muito maior do que na Polônia. É quase a mesma coisa. Agora vou falar sobre a nossa viagem ao Brasil. Depois que embarcamos no navio, viajamos durante 18 dias por maiores águas. A viagem fizemos bem como deve ser. Informo-vos que ao chegar no Brasil para a primeira ilha, Rio de Janeiro, lá (...) e depois partimos novamente de navio para o interior do Brasil. Viajamos dois dias de navio e então paramos 15 dias sobre águas, encalhados. Sofremos de tudo, quase morremos de fome. Depois veio um outro navio par junto de nós e nos levou. Partimos para Porto Alegre e lá desembarcamos, onde nos deram comida e bebida a ponto de termos tudo à vontade. Lá nos recuperamos, passeando pela cidade. Permanecemos durante duas semanas. Depois viajamos para outra ilha na qual ficamos quatro semanas e só então partimos para a colônia Feliciano. Viajamos durante seis dias, mas não de navio, e sim em confortáveis carretas. Ficamos ali por três meses e depois recebemos colônias e viveres para três ou seis meses e toda sorte de sementes para plantar. Ganhamos as menores coisas e de tudo a começar pelo fumo.

            Quanto à propriedade, tudo nos dão de graça; quanto às construções, cada um faz a sua em seu “número” (os lotes eram numerados) e a casa não pode ter menos do que dois quartos pois esta é a determinação da parte do governo e todo aquele que constrói a sua casa ganha do governo, como pagamento, cento e cincoenta, 100 50 mil-réis (sic). Nós estamos para construir no decurso de três meses. A casa deve ser levantada na propriedade, porque um comissário deverá visitar cada número e vai pagar pela construção da casa no terreno, cento e cincoenta, 100 550 (sic) mil-réis para cada propriedade. Virá uma comissão e ele será confirmado no número da propriedade. Nós não teremos que fazer nenhum pagamento por essa propriedade nem a sua visita, porque veio por conta deles, por isso não se despende um vintém. Por nada se paga porque somente aquele que ficou sob as ordens do senhor vai pagar, mas quem vem por conta do governo este está muito bem e não terá nada a pagar. Para nós europeus o interesse está só na terra, porque na cidade não há o que fazer, embora nos mandem primeiramente para a cidade.

            Eu e Kozlejaly estamos juntos, mas cada um em sua propriedade e cada um possui seu número. Essa Província (sic) chama-se Feliciano. Existem várias espécies de árvores laranjeiras, citrus, café, figos, castanhas, numa palavra tudo cresce. Até que tenhamos produção própria estão nos dando dinheiro somente para a manutenção, vinte e cinco mil reis, 205, mil-réis mensais. Esse dinheiro representa vinte e cinco, 205 (?) rublos em dinheiro polonês. Quem quer trabalhar pode ganhar 2 mil-réis diários, desde que tenha tempo para ganhar.

            Agora queremos informar sobre tudo, como se pode viver no Brasil. Se tens vontade de vir, mas se não agradar então me mandem minha amada esposa e filha. Peço-vos mui cordialmente, queridos pais. Beijo-vos as mãos e os pés mil vezes. Querido peço-vos mais uma vez se ninguém de vocês vier, mandem minha querida mulher, porque eu não lhe posso mandar dinheiro, porque sozinho não tenho. Peço-vos que lhe dêem dinheiro para a viagem a fim de chegar o mais depressa possível, pois tenho muitas saudades da minha querida esposa e filha.

            Amada esposa abraço-te e beijo, bem como a minha e tua filha e peço-te por todas as palavras santas, lembre-se de seu querido Joãozinho, lembre-se, amada esposa, eram palavras sagradas, amor jurado e medite isto bem querida esposa porque eu não te esqueço em nenhum passo, estás (...), como sabes bem e conheces a minha natureza como a ti mesma.Amada esposa, se não chagares dentro de três meses, podes saber que não me acharás mais. Verás querida esposa, juro-te, peço-te por Deus para que venhas. Querida esposa (...) agora te instruo o modo de viajar. Procure sozinha transpor a fronteira. Peça a teu pai e eu peço junto com você e à mãe que arrumem um passaporte prussiano, isto seria muito bom, porque poderias viajar tranqüilamente pela fronteira, porque do contrário ser-te-á difícil passar de contrabando sozinha. Procure, então encontrar uma pessoa que aceita levar em seu passaporte e transponha a fronteira, ainda que seja necessário dar-lhe alguns rublos, mas estará segura e poderás levar consigo todas as coisas.

            Amada esposa, não venda as roupas de cama, pois aqui é muito difícil conseguir. Somente isto (     )  podes vender, outras coisas lembre-se não venda porque, porque aqui se vestem da mesma forma como entre nós. Ainda compre tudo o que puder, especialmente roupas brancas. Lembre-se bem disto que estou ensinando, querida esposa. Agora te mando instruções que antes de partir compre diversos remédios porque são muito necessários no mar. Agora não tenho nada mais a escrever a não ser, pedir-te querida esposa que venha o mais depressa possível. Não tenho nada mais a escrever a não ser abraçar-te cordialmente e beijar mil vezes as mãos e os pés, querida esposa e filha. Lembre-se querida das implorações de seu amado Joãozinho, porque não me verias para todo o sempre. Amada esposa se não chegar para junto de mim, então é-me permitido contrair matrimônio no Brasil. Eis que te escrevo a última carta, porque mandei tantas, querida esposa e não recebi nenhuma notícia tua. Isto me enerva querida esposa. Será que me esqueceu, mas eu não esqueci de você, querida Maria e você não esqueça de mim e Deus não se esquecerá de nós no céu, na terra e em cada lugar.

            Agora não há mais nada a escrever a não ser enviar os mais respeitosos cumprimentos a toda a família, encontre-se ele em situação que estiver, a todos os conhecidos, porque nos de Zyrardów, estamos todos na mesma província. Os Krauze mandam cumprimentos para o irmão e a todos os conhecidos. Agora algumas palavras ainda para a minha mãe. Se a mãe tem vontade e desejo que venha, juntamente com minha mulher, porque pode-se fazer bom negócio quem tem dinheiro. Quem tem dinheiro é bom negócio, porque eu tão logo consiga um pouco, vou montar imediatamente um botequim, porque aqui não existe nenhum.

 

Meu endereço: Brasil, Província Rio Grande, Porto Alegre, Colônia Feliciano.

 

                                                           Amado,

                                                           João Jarás e Miguel Kozla.

 

                                                           (Kozla escreveu a carta-Autor).

 

 

 

43. Martim Kalinowski de Ijuí, Rio Grande do Sul para Fernando Schultz, (endereço indefinido). 6/03/1891.

 

                                                           Brasil, América, dia 6 de março de 1891.

 

 

            Nas minhas primeiras palavras louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

 

            Queridos pais adentramos vossa casa e cumprimentamo-vos, beijando as mãos e os pés. Queridos pais, comunicamos que estamos com saúde, graças a Deus e a Maria Santíssima, também vos desejamos saúde e boa sorte de sucesso e tudo aquilo que pedis a Deus e a Mãe Santíssima. Agora vou escrever as seguintes palavras, queridos pais, que de Bremen até o Brasil, viajamos 25 dias. A primeira ilha Rio de Janeiro já está na América e lá, no Rio de Janeiro estivemos quatorze, 14 dias na ilha. De lá viajamos para outro entreposto, Porto Alegre. Mal chegamos e a irmã adoeceu de parto e Deus lhe deu uma filha que batizaram com o nome de Bronislava. Os seus padrinhos são originários de Varsóvia. Foi batizada em Porto Alegre na igreja polonesa.Agora digo-vos que o Brasil não é tão ruim quanto falam, como que faz muito calor. Nisto não acreditem que aqui seja tão mau, como propalam. Realmente faz calor, mas onde nós estamos o calor não é febril, apenas faz calor razoável de dia, mas à noite e de manhã é necessário andar de casaco. Para a noite não fariam mal cobertores ou acolchoados de penas. Não acreditem que no mar tiram tudo o que alguém estiver trazendo consigo. Agora se os pais ainda não partiram e também o Estanislau Szulc, então querido Estanislau peço-te que traga todas as ferramentas que tens: machado, cepilho, turquesa, veruma, martelo, porque aqui há machados, mas para que servem se não são iguais aos da Polônia? São de “olho” quadrado, como enxadas. Agora querido pai, leve também o seu machado. Queridos pais, estivemos para mandar-lhes dinheiro, mas é coisa muito difícil. Não temos. Se tivéssemos mandaríamos de alma e coração, mas não possuímos. Não acreditem no que vão falar, cuspam-lhes nos olhos se disserem que dão dinheiro ou roupa. É verdade que dão, mas quando se ganha, porque para nós dão até agora. Ganhamos uma alimentação mais ou menos boa, a ponto de nenhum senhorio de castelo não come isto e não vê igual na Polônia. Temos vinho e cachaça como se fosse água. A wódka aqui chama-se cachaça. Aqui transportam a uva como se transporta batata lá, de carroça. Queridos pais, se ainda não saístes e também o Estanislau, peço-vos a todos, com toda a família, que ao sair levem igualmente o Wisniewski consigo aquele que nos acompanhou na saída, porque ele nos ajudou. Agora queridos pais aviso que levem para a viagem, pelo menos 10 rublos por pessoa. Até aos 15 anos paga-se metade da passagem, depois dos 15 o preço é igual como para o adulto. Quando estiverem viajando perguntem pelo endereço. No cantão brasileiro, Rio de Janeiro, na primeira ilha digam-lhes que nós viajamos com o navio Ochijo, de Bremen para o Rio de Janeiro primeira parada, Inácio Kalinowski.

            Agora queridos pais e toda família e conhecidos no que diz respeito a terra oferecem quanto alguém quer, até 5 “wlócas”. Pode ser mais ou menos, depende da família. Quando for maior, recebe mais terra e para esta terra dão sementes, desde que se adaptem à terra, batata, feijão e assim por diante. Não tenho mais nada a escrever, graças a Deus. Amém.

            O nosso endereço é este: América, Brasil, Silvério Martinho, Inácio Kalinowski.        

            Peço a mais urgente resposta e escrevam para que as despesas sejam pagas por quem recebe, pelo destinatário.

            Portanto, agora queridos pais, se a coisa é assim e isto os pais e todos... (frase incompreensível). Cumprimentamo-vos a todos e mandamos respeitosas lembranças. Não temos mais nada a escrever, graças a Deus. Amém.

            Agora queridos pais, informo-vos que já escrevi para Mokowo, afim de que venham para junto de nós. Se estiverem com intenções de viajar, então comuniquem a Mokowo, a minha esposa para que todos viajem juntos, bem assim para que tenham certeza se vai ou não viajar. Depois disto escrevam-me para que eu saiba o que devo fazer, o mesmo com relação a vocês se vem ou não, por isso peço resposta urgente. Querido pai, peço que entregue esta carta a meus pais, onde eles moram, Ferdinando Szulc. Peço entregar aos pais e peço resposta urgentemente.

            Queridos pais comunico-vos que todos os conhecidos estamos juntos. Desta feita encontramos os Buraczynski e Skunieczny de Sulkowo, bem como o Hanoski que esteve em Zóltowo e Zaleski de Obreb e Wichronki. Compadre Galasieski possuo 4 cavalos, melhores do que aqueles que o compadre dirige do senhorio. Compadre se tem vontade, venha o mais depressa possível.

            Francisco Kaszupski peço-te que dê ciência a Zoltowo, à esposa do irmão que os pais, os Domaradzki e todos estão com saúde. José Buraczynski envia os mais profundos cumprimentos ao Sr. Galasiewski, relativos à Angélica. Queridos pais comunico-vos que reunimos a todos os conhecidos do castelo de Dyblin e de toda a região.

            E agora queridos pais, mandam lembranças os Buraczynski, os Skunieszni, todos em conjunto mandam os mais profundos respeitos (   ) a todos os conhecidos (    ). Venham para cá o mais depressa possível, pois é aqui e não lá o lugar para viver. Não temos mais nada a escrever a não ser que Deus nos ajude, Amém.

            Inácio Kalinowski escreveu no dia 6 de março de 1891. No envelope: Ferdinando Schultz / Powiat Cieptski / Coloni Machowo / Gminy Lessowo / Bubernia Plocka / Upolonia (!).

            Carimbo brasileiro ilegível; carimbo russo “Doplatnik” 20 kopiikas.

            No verso do envelope: Ignatz Klonowski / Braszil / Rio Grande do Sul / Colônia Ijuhi / Cruz Alta.

            Carimbos: Porto Alegre de 11-III-1891, russo da região de Varsóvia de 11 de abril e Rio de Janeiro de 18-III-1891.

            Um manuscrito do censor “zadzierzat” e um resumo da carta do censor.

 

 

 

44. Martim Knaczynski de Silveira Martins, Rio Grande do Sul a um destinatário desconhecido. 6/04/1891.

 

                                                          

                                                           Cidade Silveira Martins, 6 de abril de 1891.

 

 

            Adentrando vossa casa, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Cumprimento-vos querida família e comunico-vos que todos estamos com saúde pelo que rendemos graças a Deus e à Mãe Santíssima, o que também vos desejamos, saúde e todo o bem que almejais, sucesso que pedis a Deus, isso nós também vos desejamos.

            Querido irmão comunico-te que no Brasil é bom e ficaria satisfeito se você viesse para junto de nós no Brasil, porque aqui nós não temos miséria. Venda sua propriedade e traga consigo o dinheiro porque no Brasil é bom. Querido irmão não te decepcionarei porque no Brasil é bom. Ganharás uma colônia gratuitamente, não pagarás nada por ela e no que respeita a sementes, ganharás cereais e tudo é assim como entre vocês na Polônia. Os cavalos são baratos de forma que o preço que vocês pagam por um na Polônia, aqui se pode comprar cinco. Os porcos e o gado são baratos sobremaneira. Quanto à propriedade, existem galinhas, marrecos, gansos e toda espécie de criação. Não tenham nada porque não passareis miséria, porque eu não a experimento. E vocês sabem que miséria eu tinha e eu sei qual é a vossa fartura na Polônia. Vão ter produtos melhores do que na Polônia.

            Querido irmão João Gawrysiak e igualmente estimada esposa do irmão, não contrariem seu irmão em viajar para o Brasil, mas venham juntamente com seu marido e suas crianças porque eu não vos quero levar para a perdição, mas somente desejo-vos como a mim mesmo e creiam-me que é bom, acreditem, mesmo que alguém lhes diga que vai mal. Cuspam-lhe nos olhos porque o pessoal não lhes está dizendo a verdade. Quanto à roupa, levem tudo o que puderem, especialmente roupas de verão, porque faz calor. Não levem em consideração porque o calor não é excessivo, é regular.Calores demasiados como diziam, não existem. O calor é semelhante ao de julho existente entre vós. Portanto agora aqui é outono, entre vós é primavera. Dizem os que aqui moram que mesmo que caia neve (provavelmente geada) durante a noite, ela desaparece durante o dia.

            Querida mãe, creia-me.

            Querido cunhado Burkowski, se tens desejo e vontade e querer, venha para junto de mim no Brasil porque você vai ficar bem. Receberás uma colônia, à vossa moda uma propriedade. No que diz respeito ao tamanho, no mínimo será de 100 morgas.

            Agora você querido cunhado Tomás Dalak, peço-te que venha com sua esposa e crianças, porque está bem. Eu vivo como um senhor na Polônia que possue algumas fazendas.

            Agora vou descrever-vos, querida família, a minha viagem e como vocês devem comportar-se durante a mesma. Chegarão a Bremen. Tenham a mão este endereço que vos envio, porque serão abordados pelos agentes que vos levarão para o hotel e lá oferecerão pouso e comida gratuitamente. De Bremen ireis para Bremerhaven às costas do mar e viajareis de navio durante vinte, 20, dias até o Brasil, Rio de Janeiro, que está no Brasil. De lá ireis até Porto Alegre e de Porto Alegre para Silvério Martins, onde nós estamos. Portanto agora querida família, peço a vossa resposta, o mais depressa possível, se virão ou não. Respondam-me urgentemente. Não tenho nada mais a escrever a não ser que Deus nos ajude. Amém. O meu endereço é assim: Brasil, Rio Grande do Sul, Colônia Ijuhy, Cruz Alta, Martim Knaczynski.

            Querida Mãe, mando os mais profundos respeitos a Madalena Jarczylowa.

            Querida família mando-vos os mais respeitosos cumprimentos, bem como aos compadres e a todos os conhecidos e a todos peço que venham porque no Brasil é bom. Eu estou melhor do que um patrão na Polônia que possui dez propriedades.                                                 

 

 

 

 

45. Martim Knaczynski de Silveira Martins, Rio Grande do Sul. (o destinatário é desconhecido). 6/04/1891.

 

 

                                                           Cidade Silveira Martins, 6 de abril de 1891

 

 

 

            Adentro os degraus e louvo a Jesus Cristo. Saúdo-vos compadre comadre, junto com vossas crianças, com Pedro Wozniak, com o compadre Radumski, sua esposa e filhos, também a Paulo Raczkowski e sua mulher e filhos, também a você compadre André Pace, junto com tua esposa e afilhado, também a você Przybysz com tua família, também a você João Przybysz com família e a ti Martim Przybysz com toda a família, a você José Dziegenski com família, e ao Zaremba e Osmul, também mando cumprimentos ao que entrou no meu lugar, Wieczkowski com sua mulher, compadres e comadres e a todos os conhecidos, mando lembranças a todos os amigos e inimigos e comunico-vos que vivo como Pankossky e não sei o que é miséria, levo uma vida de rei. Tenho tanto vinho quanta água na Polônia, aguardente e outras bebidas. Peço-vos, aqueles que tem vontade, que venham para junto de mim no Brasil.Levo ao vosso conhecimento o que como no Brasil: Vocês não viram desde o nascimento, morrereis na Polônia e não vereis. Quanto à terra, tenho-a quanto quero e na distribuição ganhei tanto quanto precisava para meu uso. Venham, não temam nada, porque aqui os aguarda uma grande felicidade no Brasil. Como propalastes que aqui o calor é excessivo, é uma inverdade, como estou vivo.É a mesma coisa que na Polônia, o calor é comedido.

            Agora vou descrever a viagem e como devem portar-se durante a mesma. Quando chegarem a Bremen, cada um compre os implementos como puder. Compre as ferramentas que precisa, porque aqui são caros. E o endereço que lhes envio, quando chegarem a Bremen, tenham à mão. Lá chegarão os agentes e os levarão para o hotel. Lá tereis alimento e cama e depois sereis transportados para  Bremerhaven na costa para embarque no navio. Viajarão durante vinte dias de navio até o Rio de Janeiro que se encontra no Brasil. Do Rio de Janeiro irão para Porto Alegre e de Porto Alegre para Silvério Martinho, lá para onde eu viajei.Não tenho nada mais a escrever a não ser pedir que Deus nos ajude. Amém. O endereço meu é este “Brasil, Rio Grande do Sul, colônia Ijuí, Cruz Alta, Martim Knaczynski”.

            Querida família, peço-vos que entreguem esta carta para Lulumina, em mãos de Pedro Wozniak.

            Peço resposta urgentemente.

 

 

 

46. Alexandre Kucinski de São Feliciano, Rio Grande do Sul à família. (endereço desconhecido). 23/12/1890.

 

                                                           Feliciano, dia 23 de dezembro de 1891

 

            Nas minhas primeiras palavras, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Queridos pais, irmãos, irmã, cunhado, por graças de Deus estou com saúde e desejo-vos felicidade e saúde e tudo o que pedis a Deus, nosso Senhor. Agora vou descrever-vos a minha viagem: estive em Opaleniec no dia 23 de agosto, de Szcytno chegamos a Berlim no dia 28 de agosto e de Berlim partimos para Bremen. Ali ficamos durante 6 dias no cantão governamental, onde ganhamos gratuitamente a manutenção que era da seguinte maneira: broa de trigo com manteiga e café, para o almoço carne e para a merenda a mesma coisa. O jantar era igual ao café da manhã. O pernoite era excelente. A viagem prosseguiu para Bremerhven. Essa cidade encontra-se às margens das águas, onde chegam navios. Lá embarcamos no dia 9 de outubro, daí viajamos durante uma semana de dia e de noite. Tivemos uma parada na Espanha, na cidade de Las Palmas. Lá carregaram carvão durante um dia inteiro. Zarpamos de noite e viajamos durante 14 dias e noites e chegamos a cidade brasileira de Rio de Janeiro. Todos lá tem que ficar pro 12 dias. Nós, porém não ficamos muito tempo, pois apenas três dias e novamente embarcamos em navio e navegamos durante quatro dias e quatro noites.O navio levou-nos para um mar suave e encalhamos durante 10 dias e 10 noites e não tivemos socorro de nenhuma parte. Vários navios aproximaram-se e não puderam retirar o nosso. Passamos para um navio a vapor e viajamos durante um dia até a cidade de Porto Alegre, onde desembarcamos. Nesta cidade permanecemos durante seis horas por águas até a ilha que está mais próxima de Feliciano.Nesta ilha permanecemos durante meio mês e desta ilha enviaram as famílias para a viagem às colônias e tem que se permanecer na viagem durante seis dias. A viagem é assim: Levam as pessoas para carroças de duas rodas e atrelam quatro parelhas de bois para cada carroça “descalça” (as rodas não são dotadas de chapas de ferro – tradutor). As montanhas são assustadoras, bem como as estradas. A viagem para essas colônias é muito complicada.

            Agora querido pai e família vou descrever o país, chamado Brasil, como ele é. Primeiramente vou dizer como são as matas. Não são como entre nós. Somente existem árvores como pinhos, loureiros, palmeiras brasileiras e outras diversas que só existem nos jardins da Polônia. As flores e folhagens de janelas (só existentes em vasos na Polônia – tradutor) no Brasil crescem no mato. A terra é produtiva porque os cereais tais como trigo e centeio e todos aqueles existentes na Polônia, encontram-se aqui. Quanto à produtividade são muito maiores do que a Polônia, pois as espigas chegam a ter 7 polegadas . Há muito deserto e em conseqüência não existe muita terra arável.

            Agora vou descrever clima: O calor brasileiro é como da Polônia durante a colheita do trigo. O dia é longo da mesma forma, pois podeis saber que chegamos debaixo de sol como se chega debaixo de uma viga de paiol e sempre viajamos em direção sul. Isto pode dar a imagem como fica longe. Só nos causa tristeza que a terra é tão plana como na Polônia, mas montanhas grandes, mas nos morros cresce melhor do que na Polônia em terra plana.Podeis saber que nestes outeiros o capim é tão grande quanto nos matos da Polônia.

            Agora quero descrever o tipo de gente que existe aqui: Há negros e brancos, como nós. Os credos são cristãos e vários outros.O serviço é assim: abrimos caminho para a cidade e construímos barracos para a gente. Ganhamos por dia quatro marcos e mais a manutenção. Não somos dependentes como falavam na Polônia que seriamos escravos. Estamos em liberdade, mas quem quer comer tem que trabalhar e quem não quer trabalhar já está viajando de volta.

            Não tenho mais nada a escrever, em tão breve espaço de tempo, mas em outra carta descreverei melhor. Ao receberem esta escrita, respondam imediatamente escrevam o que há de novo na Polônia.

            Agora, inclino-me, querido pai e diante de vós queridos irmãos e diante de ti Estanislau e José, e Ludovico e diante do cunhado e irmã, juntamente com vossos filhos.

            Termino a carta, Amém.

 

                                                           Alexandre Kucinski

 

            Meu endereço é este:

            Brasil, Estado Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Município Encruzilhada, Colônia Glicério, Zeller Io (Não é possível identificar – autor).

 

 

 

 

47. Mariana e Casemiro Kurków de Indaial, Santa Catarina ao irmão (endereço desconhecido).  28/12/1890.

 

                                              

 

                                                           Colônia Warnów 28 de dezembro de 1890

 

            Querido irmão!

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Por graça de Deus estamos com saúde, o que também vos desejamos. A viagem para o Brasil foi um tanto longa e cansativa. Felizmente chegamos ao lugar de onde escrevo no dia 1º de novembro. Os irmãos Francisco e Antônio e a mãe que venham. O irmão Antônio que traga sua herança e a minha parte que retire do irmão Marcelo. Mariana e Marcelo que fiquem porque aqui não estarão melhor, a não ser quando nos organizarmos.Então comunicar-lhe-emos como devem proceder quanto à partida. Francisco que leve consigo todas as ferramentas porque aqui serão de grande utilidade para seu ofício, roupa de cama e mais possível, utensílios de cozinha desde que sejam de ferro, roupas, numa palavra tudo, desde que consiga passar a fronteira, porque depois não haverá problema durante a viagem inteira. Cuidado para não emprestar dinheiro a ninguém durante a viagem, porque nunca receberá de volta, pois assim aconteceu comigo. Levem ao conhecimento da irmã Inês que venha, juntamente com seu marido Felix, porque se tiver que passar mal no trabalho para os fazendeiros então aqui é muito melhor. No início é um pouco difícil, mas depois de 2 anos já será bem melhor, mas que leve consigo roupa de cama e branca o mais que puder. Leve consigo semente de linho, porque aqui será de grande utilidade.

            Querido irmão Marcelo, rogo por todas as obrigações, entregue ao irmão Francisco a herança, para que me traga, porque agora no início necessito muito dela. Recebemos colônias cobertas de mato, morros enormes, a lenha aqui não vale nada, porque cada um dispõe a vontade, por isso é necessário cortar e queimar. O pão nosso, como existia na Polônia, aqui não vemos, mas comemos feijão preto, farinha de “madeira” (deve ser de mandioca) e carne seca. Durante quinze dias construímos as nossas estradas e pagam-nos 5 zlotes diários. Durante quinze dias trabalhamos em casa. Não esperem a mesma alegria existente na Polônia que encontrareis nas colônias. Para a igreja temos 5 milhas , a cachaça é barata, uma garrafa custa 2 zlotes e o fumo cresce em toda a parte. Chegamos para cá no início da primavera, mas aqui as árvores são verdes durante o ano inteiro e não são iguais como entre vós. O calor é excessivo, agora aqui é verão e quando lá é meio dia, aqui são 5 horas de manhã. Quando o irmão vier para cá que traga para mim e para si duas espingardas de dois canos, mas deve compra-las perto da fronteira porque é mais barato e só antes de embarcar no navio. Em Bremen devem comprar açúcar, chá, bitter (conhaque), álcool, limão, fumo e devem fazer cálculos que tudo chegue para 40 dias, mas que não distribuíam a ninguém essas coisas, porque no caminho isso é necessário e no navio custa muito caro.Venham ou não, mas respondam-me quanto antes e digam o que acontece por lá. Todos estão vivos? Com saúde? Reverencio-vos, a todos os conhecidos com esposas e filhos e mando lembranças a Mãe.

            Meu endereço:

            Nach Brasilien, Prowinz Santa Catarina, Posto Indaial, Kasmirus Kurek.

            O bilhete em anexo é para quando chegares ao Rio de Janeiro e segundo as indicações chegarás até onde eu estou. Traga dois pares de sapatos somente use-os um pouco porque novos jogariam fora na fronteira brasileira. Compre dois cobertores de algodão e traga uma quarta de sementes de alfafa branca e vermelha e pedra clara. Navegamos por estas águas grandes durante 21 dias até o Brasil e depois ainda cinco dias com navio e mais um dia e meio de carroção.A minha colônia é de morros e barracas e tudo consta de aproximadamente 60 morgas polonesas. O trabalho é um tanto pesado e até agora moramos em barracos para 40 famílias cada um. Para a colônia talvez vamos para a festa do Divino Espírito Santo, pois primeiro teremos que ganhar para a manutenção.

            Aqui não temos rei, mas República. Os antigos moradores eram selvagens e até o presente bandos deles perambulam aos quais tememos, porque se atacarem e se por acaso seu número for maior do que o nosso, exterminar-nos-iam como ratos. O povo daqui são estrangeiros que chegaram não antes que vinte anos atrás. Antigamente aqui era um grande deserto, com montanhas cobertas de matas que agora temos que transformar em terra de cultura.

            Peço-vos que não esqueçam trazer consigo quadros de santos, podem ser sem moldura, escapulários e abecedários poloneses, porque estes não se conseguem aqui. Esta carta é enviada somente no dia 1º de fevereiro, porque nestes três meses aqui me encontro não sabia em que fundamento escrever-vos. Saudamos, juntamente com a esposa e as crianças a Mãe, os irmãos, as irmãs, os conhecidos e os amigos.

 

                                                           Mariana e Casemiro Kurek

 

(No bilhete anexo):

 

Marsruta: Para Bremen, no Brasil, no Rio de Janeiro, inscrever-se para Província de Santa Catarina, para Blumenau, para o Grande Warnów, para o irmão Casemiro Kurek.

 

 

 

 

48. Adão Labuda de São Mateus do Sul para seu cunhado (endereço desconhecido). São Mateus, 14 de fevereiro de 1891

 

 

            Estimado cunhado.

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Comunico-vos que fizemos feliz viagem até o Brasil, graças a Deus e estamos com saúde o que também vos desejamos. Chegamos felizmente à colônia e desde a cidade de Bremen ganhamos comida e o governo nos sustenta durante 6 meses, até eu tenhamos a nossa colheita.Ganhamos aproximadamente 3 “wlocas” de terra de mata virgem com casa na propriedade. Esperamos que estaremos bem, porque a terra é fértil e tudo cresce. Por isso querido cunhado venha para junto de nós e se a mãe está com saúde, levem consigo. Peço-vos juntamente com minha irmã e as despesas pagarei todas. Se por acaso minha mãe não estiver viva, levem todavia minha irmã Margarida. Não esbanjem o dinheiro que tiverem, não emprestem a ninguém, porque aqui o povo está espalhado e ninguém vai devolver. Levem consigo as roupas que puderem, bem como ferramentas e utensílios de cozinha, como potes, porque aqui são muito caros. Quem tiver dinheiro desde o início poderá estabelecer-se muito bem. Tragam consigo alguns quadros de santos e livros oração.        

            Como escrevi anteriormente, tragam-me consigo a Mãe, se estiver com saúde. É engano que ela não suportará a viagem. Se portanto a mãe estiver com saúde, peço ajuda-la; se por acaso estiver falecida então tragam minha irmã. Podem trazer alguns pares de botas de cano longo porque aqui custam duas ou três vezes mais do que na Europa.

            Aguardo-vos com impaciência. Venham quanto antes. Cumprimento-vos cordialmente que Deus vos ajude para chegarem quanto antes para junto de nós.

 

                                                                       Vosso cunhado

                                                                       Adão Labuda.

 

Endereço, ou para onde deveis chegar:

São Mateus/ Paraná / Brasil / Curitiba /

No verso a complementação:

Em todo o caso respondam-me imediatamente.

 

 

 

 

 

49. Mateus lesinski de São Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa (endereço desconhecido). Falta data.

 

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

 

            Queridíssima esposa. Depois da partida, quando viajei par o Brasil não tive nenhuma oportunidade para te escrever carta, porque as constantes viagens não permitiam escrever cartas, mas estou muito aborrecido porque não sei o que acontece em casa se todos estão com saúde, como estás vivendo com as crianças na Polônia. Onde quer que me encontre você e as crianças estais diante dos meus olhos. Queridíssima esposa peço-te encarecidamente que me escrevas, dizendo o que aconteceu em casa, se todos estão com saúde porque eu, graça a Deus Altíssimo estou com saúde o que também te desejo, somente estou em trabalhos pesados e não tenho nenhum descanso. Durante o dia trabalho e à noite dormimos em barracos e eu não tenho nenhuma coberta e no Brasil as chuvas são freqüentes, as noites frias por isso a minha vida é difícil. No instante em que te escrevo esta carta deixamos de viajar. Eu sozinho não sei como vai ficar daqui para a frente porque em breves dias devemos receber propriedades com matas. Queridíssima esposa escrevo-te a verdade sagrada. Em Porto Alegre os padres católicos juntamente com o bispo arrumaram de tal forma que os poloneses, mais de mil famílias, estaremos numa mesma localidade, só católicos. No mês de abril deveremos ter na localidade, primeiramente uma capela, sacerdote que nos ensinará em língua polonesa.

            Os lotes já foram demarcados para nós e o lugar para a igreja já foi escolhido. Oxalá Deus nos dê forças para suportar tudo com paciência porque trabalhamos pesado. Derrubamos mato para abrir estradas, por isso querida esposa sinto muito que não estejas junto. Eu desejaria quando um dia chegares feliz para junto de mim que eu já estivesse na minha propriedade porque até o presente não temos sossego. Peço resposta urgente, como vão as coisas para vocês e como estão as crianças. Se por acaso estiver com muita dificuldade então deixa a Polônia e venha atrás de mim, mas se estiver passando bem então fique por lá até que te mande outra carta, porque eu já não volto mais para a Polônia, se por acaso decidir vir mesmo, então escreva-me que virás. Se vier, peço-te que leves consigo roupa, também de cama, sapatos, panelas de ferro, as melhores, sementes de tudo o que puder, beterraba, salsa, alface, pepino, ervilha, cebola para semear, porque a terra que estamos para receber é muito produtiva em que tudo cresce. É muito difícil conseguir sementes porque estamos longe da cidade, por isso peço-te encarecidamente que traga tudo o que puder e julgar necessário para a lavoura e também verduras. Escrevo para ti, mas se o irmão quiser vir que venha. Antes de tudo cuide-se na viagem para que não te roubem colheres, ferro de passar roupa, livros de oração e cancioneiros com “kolendas” (Cânticos natalinos).

            Viaje até Nieszawa de trem e vá até a fronteira. Quando chegar na estação de Waganiec desembarque e vá pela estrada até a cidade de Nieszawa e  ali pergunte por José Carnecki. Ele te fará atravessar a fronteira. É um homem alto e robusto. Leve consigo essências para animar, aniz, chá, flores, açúcar. Isto será muito útil no navio e durante a viagem. Siga  para este endereço que te mando e as cartas enderece segundo o endereço que escrevi. Leve tudo isto consigo porque aqui tudo é difícil. Crianças mais velhas, como as nossas, já ganham bem aqui.

 

            Endereço:

            Brasil / cidade F.F. (sic) / Estado Rio Grande do Sul / Município de Encruzilhada, Colônia São Feliciano.

            Escrevam bem este endereço e se por acaso estiveres viajando leve consigo. Quando chegar ao Rio de Janeiro, na ilha, entregue este endereço chegarás direitinho atrás de mim. Agora queridíssima esposa, mando-te as mais cordiais lembranças, juntamente com as crianças, com os pais, com toda a família e com todos os conhecidos.

 

                                                           O teu mais fiel amigo

                                                           Mateus Lesinski

 

            Antonio Saniewski, Skowronski, Pedro Lasek e Krause e muitos outros conhecidos, todos estamos na mesma colônia. Catarina Tomszewska somente mais tarde vai escrever carta a seu respeito para a família.

 

 

50. Josefa e Antônio Lewinski de indaial, Santa Catarina o cunhado (endereço desconhecido). 22/03/1891.

 

 

 

            Meu querido cunhado e irmão!

 

            Somente hoje, isto no dia 23 de março de 1891, consegui acalmar-me um pouco e escrevo-vos e mediante esta levo ao vosso conhecimento que por Graças de Deus estamos com saúde. Chegamos bem ao Brasil, bem como as crianças. Quando embarcamos no navio, isto é no dia de São Miguel, somente desembarcamos no Brasil, quase no dia de Todos os Santos. Habitamos entre gente polonesa que mora aqui, há 17 anos. Podem imaginar, quando embarcamos éramos mais de 1.800 pessoas, desta morreram quatro crianças de colo e nasceram sete, por isso não houve grande diferença.

            Querido cunhado Woltanski passe esta carta às mãos a Adalberto Hamermanowicz, pois nos pediu que lhe déssemos notícias sobre Spanierski que partiu para o Brasil com toda a família. Encontramo-nos com ele no navio, por acaso. A conversa de que no navio a vida é ruim é falsa, é um grande engano, pois nós diariamente recebemos carne, café, doces, broa com manteiga. A quantidade é tanta que sempre sobra. Quando desembarcamos ainda  tínhamos mais de duas quartas de manteiga e broa, de modo que pudemos viver com isto durante uma semana com toda a família.

            Chegamos ao Brasil na cidade do Rio de Janeiro. Lá encontramos emigrantes. Eram uns 10.000 de várias nacionalidades. Imediatamente nos perguntaram para onde e em que direção alguém desejava ir. Nós nos inscrevemos para a Província de Santa Catarina, distrito de Blumenau. De lá seguimos para as propriedades que eram de 155 morgas. Eram nas matas, e que matas! Imaginem que terra, que dá frutos até duas vezes por ano. Aqui não há inverno, o clima é agradável, o verde é contínuo, aqui crescem flores, as mais caras, à beiras de estradas e na Europa custam caro. Existem laranjas, limões, uva, café, açúcar, batatinha, arroz, pepinos, trigo, vacas, porcos, burros, galinhas, marrecos, gansos maiores do que na Europa.Uma libra de açúcar custa 9 vinténs, usa-se mais do que broa, uma quarta de cachaça custa 10 vinténs e é excelente. Cada proprietário possue cachaça própria, cada um queima (fermenta) e não há nenhum imposto.

            Não vos escrevi porque não tinha certeza. Agora retirei os meus papeis do tabelião da propriedade que me foi escriturada para a vida inteira. Que matas existem aqui! Que árvores  preciosas que vocês nem podem fazer idéia! Mandei cortar seis “morgas” de terra, depois queimar, semear, plantar para que tenha para o sustento. Quanto a cidade, dista uma milha polonesa da minha colônia. As igrejas são católicas. Temos também sacerdotes e nas cidades existem até conventos. No que diz respeito à minha chácara, devo mencionar que o governo construiu-me uma casa com 3 dependências e uma cozinha.

            Querido cunhado, devo escrever-te que todos aqueles que vem ao Brasil ganham a mesma coisa que eu. Não há distinção. Pessoas desde 18 até 70 anos recebem a mesma coisa que eu e podem fazer a escolha da propriedade até três vezes.

            Agora vou te informar sobre os ganhos. Não é assim como falava na Polônia a respeito dos salários do Brasil. Não são tão grandes, pois segundo a nossa moeda somente pode receber seis rublos por semana. Se lhes apraz e quereis vir para cá, isto é, para o Brasil, peço-vos que me escrevam quem quer vir e eu providenciarei a passagem para toda a família imediatamente e de graça, porque será por conta do Governo Brasileiro. Somente peço a mais urgente resposta e a lista dos nomes e sobrenomes e os anos de cada um que virá para o Brasil. Informo-vos que o casamento da minha filha está se acertando com um polonês que tem propriedade em frente a minha.É solteiro, portanto o casamento deve realizar-se depois da Páscoa. Ele tem 22 anos. Agora peço, faça a  gentileza de aconselhar a todos para que não se inscrevam para São Paulo mas para Santa Catarina, porque lá todos caem debaixo da chibata, aqui todos são livres. Aqui entre nós há gente com mais de 17 anos e tem propriedades, como entre nós, a nobreza polonesa. Nós aqui não precisamos arar a terra, porque  as enxadas são largas e pode-se fazer tudo com elas.Basta abrir um buraco e no verão tudo crescerá. Não esbanjem roupas, camisas e roupa de cama. Fazer pacotes, empacotar bem e trazer consigo, porque não atiram ao mar. Eu me arrependo bastante

 

 

 

 

 

51. Valentim Miecikiewicz  e sua  mulher de Nunes  (Massaranduba),  aos pais. Santa Catarina (endereço desconhecido). 2/01/1891.

 

Eluzalba, Colônia Nunes 23, Cidade de Blumenau, dia  2  de janeiro de 1891.

 

 

            Louvado seja N.S.Jesus Cristo.

 

 

            Estimadíssimos pais. Em primeiro lugar abraçamo-vos milhões de vezes e beijamos como crianças extremosas. Agora desejamos informar-vos sobre a nossa saúde, sobre a situação e sobre toda a viagem que fizemos ao Brasil.

            Queridos pais, a nossa viagem foi muito ruim, porque durante vinte e três dias não vimos nada a não ser o céu e a água. Viajamos com o navio Ochila. Felizmente chegamos ao Brasil.Comunicamos que o nosso filhinho morreu, não durante a viagem, mas já aqui no Brasil. Minha mulher de pena enfraqueceu e foi hospitalizada, mas graças a Deus está melhor.

            Queridos pais levamos ao vosso conhecimento todos os acontecimentos. Informamos que já recebemos a nossa colônia, quatro “vlocas” de terra com mato. Digo-vos que não vistes e ninguém viu na Europa, tamanhas árvores como nós temos em nossa colônia. É pena corta-las pois são árvores tão lindas. Quem tivesse uma dessas árvores na Polônia, vangloriar-se-ia e nós as cortamos e queimamos.

            Queridos pais, em vista disso, pedimos, se for esta a vossa vontade, venham para cá porque também vós recebeis semelhante propriedade. Não pensem que isto se paga. Não. Tudo é de graça. Somente aquilo que propalaram de que devolvem as despesas de passagem, não acreditem. Não devolvem a ninguém. Somente no navio tanto a manutenção quanto o navio são “frai” (de graça). Também em Bremen tivemos pouso e comida “frai” até embarcarmos. Portanto levamos ao vosso conhecimento para que não esbanjem dinheiro em Bremen, ainda que exijam de vocês, digam que não possuem dinheiro. Comunicamo-vos que levem consigo tudo o que puderem: roupas brancas, de cama e sapatos porque estão caros, pois não existem sapateiros, embora o couro seja barato. Também se puderem comprem sapatos para mim.

            Agora levo ao vosso conhecimento que tragam sementes, todas que puderem: trigo, alfafa, capim, porque aqui não existem. Tudo crescerá porque a terra é apropriada, e sorgo? (o autor da coleção coloca interrogação pois duvida da palavra).

            O que diz respeito á casa, já me construíram, e vão construir para cada um. Estas foram montadas pelo Governo, mas quando nos estabelecermos bem, cada um poderá construir a casa que lhe aprouver, porque há madeira à vontade

            Agora acabo a minha carta. Cumprimento, juntamente com toda a família ao compadre Poplawski e ele se quiser que venha. Não acreditem porque tanto faz solteiro ou casado, pois aqui poderá conseguir esposa, mesmo que não tenha documentos comprobatórios, será aceito pela certidão de nascimento. O pior é a fronteira. Se por acaso não vierem, escrevam, enviando-nos notícias, em resposta, tudo o que acontece por lá. Aos meus pais igualmente abraçamos cordialmente, beijamos e pedimos, se não for incomodo para avisar aos conhecidos e amigos sobre a nossa situação. Se resolverdes viajar, sereis levados primeiramente para o entreposto do Rio de Janeiro. Lá farão inscrições para onde alguém deseja seguir. Então digam que a vossa família acha-se na Província de Santa Catarina, Distrito de Blumenau Colônia Eluzalna Nunes, 23, linha Massaranduba. Exijam que vos enviem para lá.

 

 

                                                           Despedimo-nos de Vós,

 

                                                           Valentim Mieciekowicz com esposa

                                                           Margarida.

 

 

(Aditamento no verso):

Aqui os ganhos são os seguintes: Construímos estrada para a nossa colônia das 6 horas da manhã até as 6 horas da tarde. O governo paga a importância

De 8 “zlotes” tanto para os adultos, quanto para os menores.

 

 

 

52 Martim Miler e  esposa de  São Mateus,  Paraná (destinatário desconhecido). em Ostrowy, mun. de Kutno. 20/11/1891.

 

 

                                                           Dia 20 de fevereiro.

 

            Primeiramente comunico-vos que todos estamos com saúde e desejamo-vos o mesmo de todo o coração. Chegamos ao destino exatamente no Ano Novo. A viagem foi muito ruim, porque é muito longe.Nós que saímos da fábrica, chegamos todos juntos: Lindry, Szczesny, Ofman, Skowronski, Jaruszefski, Zielinski, nós todos até este momento, todos aqueles que vieram depois de nós no dia de três Reis. Meu filho Alexandre morreu, mas não foi no mar, mas em terra firme. Paulo igualmente passou mal, agora, porém está bem. Não cansa de perguntar pela avó. Se a mãe quiser chegar para junto de nós que leve roupa de cama e tudo o que puder trazer consigo, porque é permitido. Aqui a roupa de cama também é necessária e nós não temos nada. Joãozinho trabalha com o pai nas obras do governo. O clima é igual ao nosso na Europa, o inverno porém não é tão rigoroso como na Polônia.

            Agora vou descrever-vos o que ganhamos no Brasil. Recebemos duas “wlocas” de terra, segundo a medida polonesa. Desde que partimos de Bremen, estamos por conta do governo e  permaneceremos assim até semearmos e colhermos. Agora não podemos plantar, nem semear. Chegamos numa época ruim, pois aqui passou a fase da colheita. Somente vamos semear no mês de junho.Por conseguinte, o governo vai ter que nos sustentar por tão longo tempo, até que tenhamos o nosso pão.Aqueles que trabalham nos serviços do /governo, como Martim, recebe um rublo por dia e Joãozinho meio rublo.

            Recebemos duas “vlócas” de terra, mas é necessário cortar o mato, queimar e só depois semear e plantar. Laranjas, limões e frutos não existem porque nós não queríamos ir para lá onde crescem, porque o clima lá é quente e nós queríamos ficar onde o clima é ameno. Aqui somente cresce erva-mate, mas de tal qualidade que na Polônia o quilo custa 7 rublos.

            Agora peço a Mãe, ao irmão, a esposa do irmão, a irmã e ao cunhado que tirem fotografias e nos mandem. Entre nós ainda não há nenhuma fábrica, mas estão para instalar. Existem fábricas no Brasil, mas lá o clima é quente. Aqui onde nós estamos vão instalar, porque eram regiões desabitadas. Nós vamos fundar as cidades, porque já existe aqui um grande contingente de gente.

            Agora mando lembranças para todos: Jasterski, Rasuif, Augustos, a toda a família dos Frydrich, dos Golc, a toda a família (--), ao afilhado beijos as mãozinhas, a toda a família dos Lindry e a toda a família dos Domek. Os Ofman mandam cumprimentos a toda a família. Ela teve uma filhinha no dia dos Três Reis. Cumprimentamos também a família dos Ossowski, também aos Andrzejewski e finalmente apresentem os meus respeitos a todos os meus conhecidos.

            Finalmente despeço-me de todos, da Mãe, irmão, cunhada, irmã, cunhado com suas crianças. Abraço-vos cordialmente e peço que respondam o mais depressa possível, como passam e se todos estão com saúde. Mandamos lembranças ao Cyndrel e pedimos que mandem a carta á Mãe, em Lódz. Sejam tão bondosos de ler e enviar para a mãe.Não nos podemos queixar do Brasil, porque aqui não existe tanta miséria.

            O endereço pode ser em Alemão.

            Zitz (Süd) Amerika, (Ryjo Zenero – Rio de Janeiro) Brazilje, Paraná Gola (Paranaguá).

            São Mateus, Colônia Kaszfero (Cachoeira).

 

                                                           Os Martim Miler

 

            Estamos na mesma colônia que os Miler. Gozamos de saúde e mandamos lembranças para os August, Linder, Roberto Golc. A minha Vanda não vive mais. Faleceu no dia 8 de janeiro. Cumprimentamos a toda família de Eduardo Pufald e comunicamos que Eduardo faleceu, mas não foi durante a viagem, mas sim já no lugar, no dia 7 de janeiro. Enterramos as duas crianças no mesmo dia. Pedimos resposta, queridos compadres. O endereço é o mesmo dos Miler, somente o número é 30.

 

                                                           Os Zamelow Linder.

 

(Juntamente) com Wansok enviamos os nossos respeitos e pedimos a todos resposta para que saibamos o que acontece por lá na Polônia e se estão passando bem. Não nos esqueçam e escrevam.

 

                                                           Os Martim Miler.

 

            O envelope está danificado, subscrito por outra mão, a mesma grafia da carta nº 76.

            Ostrów (Zücker Fabrik/Prov.Warschau.

            No verso do envelope a notação do Censor: “Zadzierzat” (censurado) e um resumo do censor do conteúdo da carta.

 

 

 

53. Casemiro Monatowski de Blumenau, Santa Catarina ao cunhado Antônio Bronski (endereço desconhecido). 1890.

 

 

                                                           Ano de 1890, Rio Ada.

 

            Amadíssimo e queridíssimo cunhado Antônio Bronzek. Respeitosamente desejo-te saúde e toda sorte de bem. Cumprimento-vos, com esposa e crianças, como cunhado amoroso e como vossa irmã. Domingo saímos de casa e na terça feira estivemos em Bremen. Lá ficamos parados 6 dias e depois embarcamos no navio, no dia 25 de agosto. Viajamos durante dois dias e chegamos a cidade de Antuérpia, sob domínio Belga.No decurso de dois dias havia tempestade marítima, o navio balançava horrivelmente, de forma que ninguém podia ficar de pé e posteriormente navegou vagarosamente até a chegada sob um calor insuportável. Ao todo viajamos sobre águas durante 32 dias até o entreposto, denominado Rio de Janeiro. Lá permanecemos durante 5 dias e depois viajamos 4 dias com navio pequeno, chegando a Desterro onde detivemo-nos quatro dias e depois, ainda em navio pequeno, singramos mais um dia para chegar aos cais onde ficamos mais dois dias. Novamente dirigimo-nos de pequeno barco pelo leito do rio até Blumenau. Lá permanecemos dois dias. Recebemos machados, cortadeiras, facões e enxadas, que seriam necessários para o trabalho. Chegamos ao destino no dia 10 de novembro.Agora já estamos no lugar que nos foi destinado. Trabalhamos na construção da estrada e recebemos como pagamento 1 mil-réis e 15 vinténs, ou seja “1rs e 90 kop”.

            Todos recebemos igual quantidade de terra, isto é 125 morgas. A terra é excelente, embora em alguns lugares seja montanhosa, mas é fértil. Crescem: café, fumo, arroz, milho, citus, laranjas, cana de açúcar de que se fabrica açúcar e cachaça. A cachaça é bastante barata, uma quarta chega a custar “6 kop”.

            A vida não é cara, embora a distância para apanhar os mantimentos seja grande, uma vez que a cidade fica distante. A mais próxima é Blumenau e dista 12 milhas . O difícil aqui é o primeiro ano, época em que a gente consegue o seu próprio mantimento. Depois tudo será diferente e aqui para o trabalhador não é difícil. Quem tiver vontade pode vir. Peço-vos, porém, uma coisa: ao receberdes esta carta, respondam-na. Se estiverem para chegar escrevam-me e eu direi o que vocês devem trazer. Por esta razão eu vos mandarei registrada para que realmente tenha certeza de que chegará. Ainda quero comunicar-vos que a irmã casou com um viúvo italiano e está bem agora, porque o mesmo é um colono velho e tem de tudo. Além do mais adeus. Permanecemos com graça de Deus Supremo com saúde, o que também vos desejamos saúde e toda sorte.

                                              

                                                           Atencioso,

                                                           Cunhado Casemiro Monotowski

 

            Meu endereço: Hern Kazimir Monatowski, Provinc Sankt Catarina, Posst Blumenau, in Rio Ado N 65, Brasilien, Süd Rmérika (Escrito em russo).

 

            Querido cunhado, Antônio Brosek, ao lerdes esta carta, peço-vos que a mande ao meu cunhado, a minha irmã, Inácio Kobalczyk.

            Querido cunhado mando-vos lembranças, juntamente com a esposa e vossas crianças. Desejo-vos saúde e toda a sorte.

            Informo-vos que aqui o clima é o mesmo que na Europa, pois agora é muito quente e será ainda mais janeiro. Da mesma forma que na Europa existem geadas fortes, aqui no Brasil é só calor.

            Queridos cunhados meus, agora tudo está bem, somente é triste para mim que meu filho Casemiro morreu, quando estivemos em Desterro e foi enterrado no cemitério.

            Mando lembranças para toda a família e a todos os conhecidos, desejando saúde, sucesso total e toda sorte de bens.

 

                                                           Atencioso cunhado Casemiro Monatowski

 

            Constante Czebonek (?) (Está escrito com outra grafia. Talvez ajudou a escrever a carta?).

 

           

 

                                                          

54. Pedro Murlik de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul para a família (endereço desconhecido). 26/11/1891.

 

 

                                                           Dia 26 de fevereiro de 1891.

                                                           Cidade Santo Antônio.

 

 

            Louvado seja N.S.Jesus Cristo. Agora informo-vos sobre a vossa saúde e sobre a nossa situação. Graças ao Deus Supremo estamos com saúde, o que também desejamos: sorte, saúde e sucesso. Agora mandamos os nossos cumprimentos ao tio, à tia, a vos irmãos e irmãs e cunhada e meus respeitos ao compadre e comadre Wojciechjowski e a sua comadre, os Feliks. Meus cumprimentos também a Francisco Wojciecjhowski com sua mulher e filhas e a vós senhores Andrzejewski, com esposa e filhos. Minhas lembranças aos amigos e conhecidos.

            Peço outrossim, que enviem esta carta a Chruszczowo para Francisco Murlikowski. Minhas lembranças a vosso irmão e cunhada, senhores Lewicki. Peço-te irmão que apresente meus cumprimentos a Szelinski de Pilichowa (o lugar não está definido, segundo o autor).

            Levo ao vosso conhecimento que estamos com saúde, somente morreu Lucina, filha dos Zielinski, o que se deu em Porto Alegre. Estamos juntos com os Zielinski. Continuamos a caminho, sem nenhum aborrecimento e em breve estaremos na Colônia. Ouvimos de outros colonos que cada família receberá 5 “vlócas” de terra, enquanto o solteiro 2 e meia. O pai recebe utensílios de cozinha, 15 mil-réis e eu 10 para os implementos agrícolas. O pai recebeu 25 e 25 mil-réis – rublos (sic) e devo receber ajuda para montar uma casa comercial, pois pretendo organizar uma venda e bar, uma vez que aqui se pode fazer tudo sem patente. Não tenho mais nada a escrever agora, mas quando estivermos na colônia, vou escrever uma carta atrás da outra. Irmão se desejas, podes vir e traga-me uma boa menina.

            Quando chegarmos a colônia, vamos escrever se deves ou não vir. Não tenho mais nada a escrever. Peço que respondas e despeço-me. Desculpe.

 

                                                                       Pedro Murlik

 

            ALBERTO LASAKAZKI DE OSCIOWO.

 

            Estamos com saúde, por graça de Deus Supremo, o que também vos desejamos: saúde, felicidade e sucesso. Viajamos durante todo o percurso como os Nawrocki e com os Zawieruchowski, com saúde. Chegamos juntos em  Porto Alegre , onde eles ficaram e eu parti para Santo Antônio. Meus cumprimentos e abraços, crianças queridas, do pai extremoso. Meus cumprimentos e respeitos a Malagoski, a toda a família, parentes, conhecidos e amigos. Lembranças aos Bienkowski. Peço que entreguem esta carta aos Malagoski. Não tenho mais nada a escrever, porque o que está nesta cata é a mesma coisa.

                                                          

                                                                       Alberto Lskowski

 

OBS: Esta carta foi escrita por Pedro Murik.

 

 

 

 

 

  55. João Muszynski de São Feliciano, Rio Grande do Sul do Sul, á esposa, Regimin, município de Ciechanów. 1/04/1891.

 

Veja Mapa atual de Regimin - Ciechanow

 

                                                           São Feliciano 1º de abril de 1891.

 

 

            Querida esposa:

 

 

            Louvado seja N.S.Jesus Cristo. Comunico-te que estou com saúde, o que também te desejo de todo o coração. Vou descrever-te a minha viagem porque praticamente encontro-me no lugar destinado e daqui vão distribuir as colônias. Viajei durante 26 dias de navio e cheguei a cidade que se chama Rio de Janeiro, onde permaneci oito dias e inscrevi-me para a colônia de Porto Alegre. Viajei seis dias e a vida era um pouco pior do que antes. Cheguei a este  Porto Alegre, permanecendo por 6 dias e alistei-me para São Feliciano. Seguimos para lá de navio, viajando uma noite inteira, depois de trem e em barcos e nas tais chamadas carretas, tiradas, não por quatro cavalos, como acontece entre nós, mas por 10 bois e as carretas são de duas rodas. Viajamos nestas carretas durante seis dias e uma semana antes da Páscoa , pois exatamente no dia 23 de março, estivemos no lugar destinado. Aqui já não nos fornecem comida, mas cada um ganha 400 réis e prepara a própria alimentação, assim como fazem os ciganos. Você se inscreva da mesma forma.

            Querida esposa, se tens vontade, venha.Leve consigo: roupa de cama, vestidos, ferro de passar roupa, facas, garfos, colheres, porque aqui são necessários.Para mim compre uma calça.Você, Inácio, irmão querido venha igualmente com mulher e crianças, mas leve consigo todas as coisas que puder. Você, irmão Antônio, faça da mesma forma, leve o que puder, especialmente roupas e sapatos porque aqui são caros. Quando estiver em Bremen, compre uma espingarda de cano duplo com seu dinheiro e eu te devolverei. Você querida Mãe venha e desta forma estaremos todos juntos. Ao receber esta carta não a jogue fora, mas guarde consigo para não esquecer para onde deve ir e não vã para outro lugar. Não acreditem que a roupa de cama á atirada ao mar e o mesmo acontecendo com as caixas grandes. Tudo é mentira. Venham para o lugar que eu mandar. Irmão Sobolewski, você venha também. Vai receber 4 “wlócas” de terra, em largura, porque o comprimento somente Deus mede. Leve roupa de cama porque as noites aqui são frescas.

            Querida esposa compre toda sorte de sementes pois aqui tudo será útil: repolho, beterraba. Alface, cenoura, salsinha, alho poró, batata salsa e todas sementes de horta. Despeço, esperando todos com impaciência pois vocês não imaginam como foram tristes os dias santificados.

 

                                                           Teu esposo e irmão

                                                           João Muszynski

 

Querida esposa comunique a enteada de Robaczynski, em Regimin que venha para junto de João Robaczynski que se encontra na mesma localidade que eu.

 

                                                           Até à vista

                                                           João Muszynski

 

Envelope (danificado)

 

Província de Plock, Município de Ciechanów, Aldeia Regimin (--) , Antônio (--) Urzynski, em Przasniski Rogatki , mora na casa de Jaszczuw.

 

No verso: Um carimbo ilegível do correio Russo com aditamento do censor “Zat  (ierzat)”.

 

 

  56 Caetano Nowak de Rio Carolina, Santa catarina para a familia (endereço desconhecido) 25/01/1891

 

 

 

                                                           Rio Carolina, dia 25 de janeiro 91

 

            Escrevo a carta para toda a família, irmãos e a ti, irmã. Com as primeiras palavras que seja louvado N.S.Jesus Cristo.Inicialmente escrevo a você querido irmão João e para ti cunhado e compadre Pankowski. Escrevo sobre a minha viagem e sobre a minha saúde. Estamos bem, graças a Deus Supremo, o que também vos desejamos. Unicamente tivemos um aborrecimento porque faleceu o filhinho, Eduardinho. Querido irmão João e compadre Pankiwski viajamos de navio durante 18 dias, gozamos de saúde, juntamente com as crianças quando chegamos ao Brasil. Eduardinho estava bom no primeiro entreposto. Partimos em outro navio e singramos durante dois dias e duas noites. Neste navio  a criança adoeceu, apareceu nele uma espécie de varicela e ele teve sinais de pequena melhora. Fomos transladados do segundo para o terceiro navio, no qual viajamos mais uma semana. Depois transportaram-nos de carretas e viajamos durante dois dias. No primeiro dia o tempo estava bom, mas no segundo choveu durante o tempo todo. Não paramos até chegar ao lugar e a criança apanhou chuva. Ao chegarmos ao destino eu mudei a roupa, colocando seca, pois ela estava com frio e tremendo. Querido irmão eu penso e imagino que ele apanhou resfriado. Aqui na América o clima e o calor é como entre nós no mês de junho. Nos meses de julho e agosto chove com trovoadas. (Há) fertilidade e tudo cresce como entre nós.

            Portanto querido irmão João e compadre Pankoski desejo descrever-vos a minha propriedade. Ganhei uma colônia de 25 morgas de mato, árvores diversas e que árvores (--) e tudo é cortado, secado e queimado.No local planta-se tudo o que existe no mundo e não carece arar, nem gradear, somente se trabalha com enxada, como acontece entre nós no plantio da batatinha. É assim que se faz com os cereais. A mulher pode semear repolho e fumo. O povo possui arroz e hortaliças de todas as espécies que existem no mundo         

            Querido irmão João e compadre Pankoski, se entre vós existissem estas colônias, então tudo seria diferente e seria como  Masakoski ou Dzienkoski, pois com a posse de tais árvores seria milionário. Aqui tudo se perde porque não existe procura. Somente se corta, queima e estraga. Não faltam cobras, lagartos e bichos, mas depois da queima tudo desaparece. Querido irmão descrevo-te o lugar: Província de Santa Catarina é a mesma coisa que entre nós Província. O correio ali existe. A cidade de Blumenau é como entre nós município.O local onde eu me encontro é Rio Carolina, o número da colônia é 9. A situação está difícil. Procurarei semente para plantar e conseguirei a minha subsistência (A tradução das últimas frases é apenas interpretação, pois está incompreensível – nota do tradutor). Oxalá tivesse trazido consigo sementes de ervilha, “bóbr-Lubina?”! Os colonos velhos tem isso a vontade. Lamentavelmente é preciso comprar. Criam até 20 vacas, carneiros, até trezentos porcos, até 10 cavalos, marrecos, gansos, entre trezentas, quinhentas e até mil galinhas. Querido irmão a coisa não é fácil, tenho que trabalhar para organizar a minha propriedade devagar, desde que o Senhor Jesus me conceda saúde, teremos tudo.

            Trabalho no serviço do tesouro, (?) (deve ser público – trad.), na construção de estrada. Recebo o pagamento mensalmente, cujo valor diário corresponde a um mil-réis e quinze vinténs, o que equivale a oito “zlotes” na Europa. Dedico-me aos serviços de sapateiro esporadicamente, porque aqui os calçados são caros. A língua é portuguesa e quando nos falam não entendemos nada e quando nós lhe falamos eles também não entendem nada. O padre é português e reza a missa em latim, da mesma forma como na Polônia, mas não entendemos a sua língua e ele não entende a nossa. A igreja dista 12 milhas . A capela, porém fica perto e o local onde são enterrados os mortos dista duas milhas. É inverdade que não se pode ter outra fé a não ser a católica. Isto é mentira, porque aqui existem todos os credos que existem no mundo: judeus,  alemães, italianos e pagãos. A diversidade  é a mesma que se possa imaginar existir no mundo. As roupas são as mais caras. Os serviços de alfaiataria são caros, faltam alfaiates, são poucos.

            Querido irmão, nós os conhecidos somos: Pedro Wilczewski, Estanislau Jablonski,  Adão Gabowski de Stelmachów e Joãozinho que desistiu (--). Reverencio-vos irmão e cunhado e informo-te a respeito de teu filho João Tryskucz. Ele desistiu, embora eu quizesse que ele permanecesse comigo, mas ele ouviu os conselhos do pai da cidade e dos sogros de Kulinowski. Desaconselharam-no, argumentando que ele iria trabalhar para mim e resolveu ir embora para a casa de Benedyk. Querendo chegar até onde ele está, é necessário andar o dia inteiro. Querida irmã, ele é um canalha, nada de bom. Quanto eu não fiz para dissuadi-lo, mas ele não escutava. Tanto quanto ele, eu também ganho. É o mesmo dinheiro, porque aqui se paga o serviço por dia. Ainda que se trate do homem mais forte, o pagamento é o mesmo. Somente aquele que tem 12 ou 15 anos é que ganha a metade do dia, isto é, da importância que eu recebo. Se eu ganho 8 “zlotes” diários, ele ganha 4. Minha irmã, assim lhe falei: ficarás comigo, minha esposa vai cozinhar e lavar a roupa e a menina vai levar a comida até o local do nosso serviço, porque é necessário ir  com a caderneta para buscar os mantimentos, o que leva um dia. O solteiro que não seja casado ou que não esteja junto com os pais não ganha mantimentos e não lhe fornecem a caderneta, tem que caminhar o dia inteiro e adquirir os mantimentos mediante dinheiro, porque não acreditam em solteiro pois hoje ele está aqui e amanhã estará lá. Uma colônia é abastecida da seguinte forma: se o pai tem filhos maiores de 20 anos, ou 19, ele ganha 125 morgas de terra e os filhos ganham igualmente 125. Os menores de idade não ganham. Tanto faz solteiro ou casado, cada um ganha 125 morgas. Nas colônias não há trabalho, a não ser que vá para as fábricas na cidade. Mas como não se conhece a língua, não querem dar emprego (atribuir responsabilidade).

            Querida irmã, eu falei para o teu filho que receberá colônia junto da minha, ao lado, e ambos iremos para o trabalho e limparemos (cortemos o mato) a colônia. Eu contratei dois italianos e eles me cortaram quatro morgas e a restante vou cortar sozinho, aos poucos.

            Querida irmã e irmãos João e Vicente, se nós tivéssemos esta colônia em dois, teríamos   serviço à vontade e de que viver. Trata-se de 125 morgas, cada uma das colônias! Portanto, queridos irmãos eu só fiz um erro de ter esbanjado as coisas por quinquilharias porque devagar ou poderia ter vendido e viajado, em uma ou duas semanas. Por cima esbanjei dinheiro com registros a cargas. Tudo isto é mentira. Não é necessário nem certidão de nascimento, nem carta alguma. Falavam que vão devolver o dinheiro. Tudo é mentira. Até Bremen nós pagamento e até ali tive que pagar 22 marcos pelo pouso e comida. Depois ficamos por conta do tesouro do governo até o destino. O transporte é por conta do governo. O serviço público é o seguinte: trabalhamos, fazendo estradas para as colônias e o governo nos paga. Por isso peço-te, querido irmão João, mande-me notícias sobre Casemiro, esse cachorro, esse ladrão, se ele devolveu ou não os dois rublos. Se não devolveu que pese em sua consciência e assim terá que prestar contas diante de Deus, no juízo divino, porque ele já tem muitos pecados em relação a mim e para com o povo, pois algum dia Deus vai lhe chaqualhar os fundilhos. Querido irmão, mande-me notícias a respeito daqueles que partiram para o Brasil, se esse Martim Strysko partiu ou não e escreva-me sobre o que acontece por lá em vosso pais.

            Meus profundos cumprimentos à Mãe. Está com saúde? E ao Vicente, sua esposa, ao filho Albino e Stelwka. Estão com saúde? Querido irmão, não se zangue, juntamente com a esposa, por não ter ido para me despedir, pois não tinha tempo. Já era noite quando saí da chancelaria. Portanto, lembranças e todos, com esposa e filha Constância e Júlia e Francisco e Adélia, a toda a família e novamente para vossos filhos desejamos boa saúde, só sorte e Boas Festas de Páscoa. Deus nos ajude a alcançar outro ano e responder cartas com saúde. Meus respeitos a Paulo Dambrowski, com desejos de saúde e sucesso em todos os empreendimentos.

            Querido irmão, se alguém estiver para viajar ao Brasil, então que tenha dinheiro para a família, uns 130 rublos, para serem gastos com parcimônia, porque em toda a parte, sem dinheiro, passa-se mal. Enviem notícias sobre o inverno, porque na  América a camisa vive úmida de suor e a natureza é verde, como no mês de maio, as flores desabrocham, como entre vós nos vasos, aqui nos jardins.

            Querido irmão, peço-te resposta para a carta, quanto antes.

Mande a carta registrada para que chegue, pois do contrário não chegará. Daqui também cada um manda carta registrada. De todo coração, vosso sincero e amoroso irmão.

 

                                                           Caetano Nowak.

 

 

           

 

57. Caetano Nowak, Rio Carolina, Santa Catarina para o irmão (endereço desconhecido sem data e falta a introdução da carta)

 

 

Peço-te, irmão querido a resposta da carta, quanto antes, porque estou muito aborrecido e sonho toda a noite. O que está acontecendo em vosso país e o que se passa com aqueles que pertenciam ao exército e qual foi a colheita entre vós. Fique com saúde, juntamente com a mulher, até o agradável reencontro.

 

Meu endereço:

 

Herrn Kajeton Nowoz / Provinz Santa Catarina / Correio Blumenau / colônia nº 9, Brasilien, Süd América, na América (em russo).

 

 

           

 

 

 

58. André Palinski de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, à  esposa (endereço desconhecido). 29/01/1891

 

                                                           Alfredo Chaves, 29 de janeiro de 1891.

 

Querida esposa:

 

Primeiramente ao adentrar à porta da casa, louvo Nosso Senhor Jesus Cristo. Agora comunico-te que passo bem e com saúde no Brasil. No Ano Novo ganhei a terra, cerca de 6 “wlócas” com mata de 1 légua e meia de comprimento e 1/3 de légua de largura. Já estou trabalhando nesta terra, corto o mato e quando este seca, queimo para que se possa semear. Se esta lenha fosse na Polônia, valeria algumas dezenas de rublos. Nesta região não é quente demais e as noites são relativamente frescas. A tua passagem talvez chegue antes do que esta carta, ou talvez depois.Querida esposa, peço-te que não desperdice objetos de cozinha e traga consigo tudo o que puderes. Leve igualmente sementes de hortaliças, como: repolho, cebola, cenoura, beterraba, salsinha, etc. e ainda ervilha de roça e alfafa, pelo menos metade de uma quarta, bem como todos os feijões de horta. Agora previno-te que em Bremen não se paga nada pela manutenção e pelo pouso, porque tudo é pago pelo Brasil.Ao chegares a primeira ilha, inscreva-te para viajar até onde se encontra o marido, ou seja para Porto Alegre, isto é Brigada 7, número da colônia 47. Alem disso, se alguém dos conhecidos quiser, pode vir ao Brasil. Agora despeço-me de ti, querida esposa e beijo juntamente com as crianças.

 

           

                                                           Cordialmente marido extremoso

                                                           André Palinski

 

Julius Liedke (?)

Kapatas 7ª Lessiaã (?)

Alfredo Savesse.

(Segue bilhete anexo, escrito com outra mão, contendo a relação de quatro pessoas: Francisca Palinski, Estanislau Palinski, Josefa Palinski e Francisca Palinski).

 

 

 

59. José Rogowicz de Dona Joana, Santa Catarina para a filha Úrsula, em Dobrosolosovo, município de Konin. 5/03/1891.

 

 

                                                           Ano de 1891, dia 5 de março, Rio Joana.

 

            Em primeiro lugar digo estas palavras: Louvado seja N.S.Jesus Cristo. Querida filha, depois de uma longa e penosa viagem, cheguei ao destino em 5 de novembro e já se passou bom tempo e não tive oportunidade e disposição para escrever carta. Vou descrever a minha viagem.Partimos de Strzolkowo numa segunda feira e no terceiro dia chegamos a Bremen. O trem nos custou 15 dólares. Em Bremen permanecemos 3 dias e meio e paguei 27 marcos ao agente do hotel. De Bremen partimos de trem, viajando três horas e embarcamos no navio, denominado Weser. Depois que embarcamos, só desembarcamos 20 dias depois na cidade do Rio de Janeiro. Aqui ficamos dois dias e novamente partimos com navio brasileiro, viajando durante 4 dias até a cidade de Desterro. Lá detivemo-nos três dias e seguimos em barco pequeno, alcançando em dois dias a cidade de Blumenau. Permanecemos ali um dia e prosseguimos, em carroças, chegando a colônia Rio Ada, após dois dias de viagem. Locaram-nos num barraco do Governo, onde até agora nos encontramos. Levaram-nos para um destino, onde não há nem estradas, só florestas sem fim. Agora estamos construindo as estradas. Recebemos pelo trabalho um mil-réis e 15 vinténs diários, isto quer dizer dois marcos. (--). Informo que ganhamos 125 morgas de terra com mato. Quem construir sua casa receberá do governo 200 mil reis, ou seja 200 Rs russos e quem não quiser construir, o governo lhe fará.

            A terra é boa, mas o trabalho é muito e é em demasia pesado para nós. Como já sabem, quem quizer, poderá vir, mas depois de receber a minha carta. Por favor respondam, dizendo o que acontece na Nação Polonesa, porque estou muito curioso.

            Mando lembrança a Casemiro como meu filho, com sua esposa Bronislava. Desejo-te saúde, toda sorte de sucesso e tudo de bom que pedis a Deus. Ainda mando lembranças ao filho Antônio, com sua mulher Úrsula e seus filhos, desejando saúde e tudo de bom. Saúdo ainda, a Mariano Sporogonik e José Spogowski com seus filhos. Mando lembranças a toda da Casa, com parentes e conhecidos e comunico-vos que aqueles que tem vontade podem vir, mesmo que aqui não seja bom demais, mas também lá não tem nada de bom. Cumprimento ainda a filha Marciana, com seu marido André Glowoski e suas crianças, almejando saúde e boa sorte. Quanto ao irmão não informa nada, porque não sei por onde anda. Esteve aqui perto durante dois meses, mas viajou e não sei por onde anda agora pois não mais escreveu. Andrzejak também partiu junto e mais outros dois, portanto os quatro de Stanislawów. Andrzejak teve seu dinheiro roubado em Berlim, num total de 12 dólares, por isso passamos dificuldades porque nós o trouxemos por nossa conta e chegamos ao destino praticamente sem um vintém.

            Ainda saúdo ao sogro de Lourenço Plesma de Zbiezymek, juntamente com sua esposa e filhos.Desejo saúde e toda sorte e todo o bem o que desejais da parte de Deus. Cumprimento ainda Pedro Plesma com esposa e filhos, almejando saúde. Comunico e peço o que adiante segue.

            Se ela (a filha do autor da carta – segundo o compilador das cartas) não esteve convosco, se o irmão estiver fazendo mal, peço que se lembrem que Úrsula é minha filha. Se alguém, alguma pessoa boa, estiver para viajar que venha para junto de mim. Ainda cumprimento a Jacó Zieniak e imploro-te, pai querido, se ainda não partiu, após receber esta carta que venha e encareço que vá buscar a minha filha e venha diretamente para junto de mim, seguindo o endereço.

            Cumprimento ainda a Miguel Spozyrski e Martim Cieply com esposa e crianças, desejando saúde e pleno sucesso. Cumprimento igualmente a Liberowski e peço que o favor de ler e explicar para meus filhos. Ainda mando lembranças a Zielesinski, desejando saúde, sucesso e todo o bem.

            Meu filho Casemiro, escrevo-te que destinei a vaca preta para Úrsula, bem como a novilha preta, ágil e mocha. As novilhas restantes são para você, meu filho, enquanto a égua de cor zaina que fique também para Úrsula, ao passo que as cinco gansas e os gansos velhos também pertencem a Úrsula, pois eu assim destinei como pai. Os marrecos em número de 25 são da Úrsula, as 15 galinhas também e tudo o que há é dela. Os quadros de santos e semelhantes igualmente pertencem a ela. Para você, meu filho, destino o cavalo pequeno e a carroça. Os dois pares de grades destino um para você e o outro para Úrsula. Pague a Úrsula a máquina de cortar palha, o mesmo com relação ao machado. Metade da balança para cereais pertence a Úrsula, também metade do forno de ferro e também metade das carroças de transportar batatinhas.

            Tudo o que restar de miudezas é teu, meu filho. Agora (—) irmão mais velho de Antônio Rogowicz que mora em, (—) e o outro Sporogowski, se lhes agradar, quando quiserem chegar, peço que levem todo o capital da minha filha Úrsula que lhe destinei e venham juntamente com ela (—). Agora meu filho escreva-me como terminou o processo com o fazendeiro.

            Cumprimento a todos em geral e aos conhecidos. Vosso pai estremoso José Rogowicz. Estamos, graças a Deus, com saúde.

 

Meu endereço

Hern Jozef Rogowicz

Provinz Santa Catarina / Posst Blumenauin / Dona Johana nº 12 / Brasilien Süd Amerika / na América.

O envelope está endereçado em russo. Há um carimbo de Blumenau de 1-IV-1891.

No verso: Resumo da carta em russo, feito pelo censor e a decisão: “Zadierzat”. Carimbo do Correio Brasileiro do Rio de Janeiro de 9-IV-1891.

 

 

 

 

 

 

 

 

60. Estanislau Sabelski de Brusque, Santa Catarina para os pais (endereço desconhecido). 15.03.1891.

 

 

                                                                       Dia 15 de março de 1891.

 

 

            Ao adentrar a casa  dos queridos pais, louvado seja N.S.Jesus Cristo. Vosso Filho Estanislau Stabelski. Estou com boa saúde, graças a Deus, o que também vos desejo de todo o coração. Viemos ao Brasil com saúde, viajando por águas durante 22 dias até Rio de Janeiro, primeira cidade  brasileira. Ali paramos dois dias, descansando e depois 4 dias para chegar a Santa Catarina. Trabalhei durante 4 meses na construção de estradas, ganhando um mil e trezentos réis por dia. Recebi 120 morgas de terra, só mato, com árvores enormes. O trabalho é pesado. O trabalho é pesado. Aqui entre nós no Brasil, faz muito calor, assim como lá em plena colheita de trigo. É possível dormir, desde que a gente não se cubra com nada.

            Querido pai, não existe nenhuma escravidão. Cada pessoa é livre. O calor é permanente, querido pai. Estou com saudades de vocês. Se quereis podeis vir para cá. Querido pai, toda a família poderá viver bem na minha propriedade. Aqui cresce o arroz, o milho, a cevada, o trigo e o centeio são vigorosos, bem como toda sorte de verduras: cenoura, beterraba, nabo, salsinha, cebola, numa palavra tudo. Em nossa região ainda não há trigo vigoroso, nem centeio, nem batatinha européia. Crescem limoeiros, laranjeiras e café. Mas  tudo tem que ser plantado. Cresce cana-de-açúcar, de que se fabrica cachaça, vinagre e açúcar. As igrejas são poucas. Se alguém deseja fazer a confissão, despende  quatro dias de ida e volta. A capela acha-se distante quatro léguas. Há muitas capelas. Os ganhos parecem bons, mas a vida é cara. Se a família for grande, não se consegue manter, porque o custo de vida é alto.

            Se desejais vir, não desperdiceis ferramentas agrícolas, bem como cepilho, formão e veruma. Levem todas as ferramentas consigo. Levem tudo o que puderem de roupas de cama, camisas, roupas de verão, sapatos, o mais que for possível. Junto comigo estão Miguel Sabelski, Marusieski e Falkoski, bem como  o ferreiro Antônio Leszczyszyn.

            Despeço com minha mulher, querido pai (—). Cresce a parreira. Peço-vos, querido pai, que responda quanto antes, se virão ou não. Viajamos pelas águas muito bem. Da cidade de Brusque levaram-nos para uma grande selva. Tivemos que perambular muito até chegar a vida estável. Querido pai, para  quem vai bem na  Polônia, ficará bem no Brasil. Pode-se criar porcos, gado,

 

galinhas, marrecos á vontade. A batata de porco basta plantar uma vez e terá para sempre. No Brasil crescem cogumelos nas árvores, mas tais que é necessário cortar a machado. Quem mais partiu de Lesku a Zerardów para o Brasil?

            Despede-se vosso filho, com sua mulher Estanislava Sabelski. Despedem-se Miguel Sabelski e Falkoski com sua mulher, bem como Maruszewski com sua mulher.

            Fique com Deus, querido Pai. Não fornecem passagem de volta de forma alguma. Deveremos receber 200 mil-réis como ajuda para a propriedade. Um mil-réis equivale a 8 “zlotes” vossos. Despedem-se todos os que ficam no Brasil com suas famílias (—). A primeira semeadura faremos em nossa propriedade no mês de agosto. Quando estiverem embarcando em Bremen para o mar, levem também quatro broas de farinha preta, vinagre, duas garrafas de essência, 6 libras de açúcar, chá (—), levem gente boa que transportarão vossas bagagens pela fronteira até Dziadwa.

            Endereço: Brasil, Província de Santa Catarina, Brusque, S.S.M. dia 15 de março de 1891. (S.S.M, provavelmente significa Stanislaw Sabelski e H, primeira letra da esposa — anotação do autor).

            Adentro a casa dos queridos pais.

            Louvado seja N.S. Jesus Cristo.

            Queridos pais, por graça de Deus, estou com saúde, juntamente com minhas crianças. O filho que Deus me deu tive  que entregar para ser criado por outros. Envio-vos notícias tristes, queridos pais, Mariana, minha esposa querida e vossa filha, separou-se de nós. Tivemos ao todo nove dias de doença e faleceu no dia 9 de novembro. No final de sua vida pediu orações pelo descanso eterno e uma Ave Maria. Que o Pai e a Mãe não esqueçam sua alma. A vossa filha Ladislava permanece ao lado do cunhado, graças a Deus com saúde, o que também vos deseja de todo o coração. Ladislava beija os queridos pais, irmãs e irmãos queridíssimos. Marian pediu-vos, queridos pais e mãe Santa Missa e lembrança anual durante os três anos seguintes. Recebi 120 morgas de terra no Brasil. Miguel Sabelski, vosso genro Lourenço Lypka, mandam lembranças aos Czerwinski em Biegienice Górskie ; Josefa, mulher de Kucinski de Clanin manda lembranças para o tio. Mariazinha escreve para a vovozinha e vovozinho as primeiras palavras, beija vossas mãos e despede-se. Fiquem com Deus, Maria Sobelska. Despeço-me de Vós, queridos pais.

 

                                                                       Miguel Sabelski.

 

                                                                       Dara Sarnowo, dia 15 de março de 1891.

 

            Queridos pais, adentro vossa casa, louvando N.S.Jesus Cristo.

            José, vossa filha amadíssima e João Marusienski, genro. Comunico-vos que estamos com saúde, graças a Deus Supremo, o que também vos desejamos, segundo pedis a Deus. Queridos pais, comunico-vos que morreram Estanislava e Josefa, quatro dias depois que morreu a senhora Szebelski. Josefa faleceu há duas semanas e Estanislava há quatro dias.

            Queridos pais, mando-vos lembranças. Vicente e Francisco estão com saúde, graças a Deus. Querida mãe e querido pai, estamos bem de saúde o que também vos desejamos, por graças de Deus. Cumprimento a toda a família, esteja ela onde estiver. Peço-vos queridos pai e mãe, que entreguem esta carta ao meu irmão Adão Maukusiewski. Mando lembranças a Balduiva, minha irmã e peço-te, querido irmão, entregar a ela esta carta. Quanto a minha situação, não quero dizer nada, comunicarei mais tarde. Queridos pais não esperem de mim carta alguma, até que esteja em melhor situação, então escreverei.

 

                                                           João Streiesky e Mariana Strojiska

 

            Quando escreverem carta para mim, mandem-me toda sorte de sementes, todas que possuírem de primavera. Que toda a família fique com Deus. Queridos pais, fiquem com Deus. Ganhei tanta terra que durante toda a minha vida não terei condições de usar. Mando-te lembranças, Estanislau Sabelski e a Inácio Salezy seu irmão.

            Os nossos endereços são estes:

            Ao cidadão Estanislau Saberski, Estado de Santa Catarina, Itajaí, Colônia Brusque, Brasil.

            ( o endereço está escrito com outra tinta e grafia — anotação do autor).

 

61. Antônio Saniewski de São Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa. (endereço desconhecido). 2/02/1891.

 

 

 

                                                           Brasil, Colônia Feliciano, 2 de fevereiro de 1891.

 

            Louvado seja N.S.Jesus Cristo.

 

            Comunico-te queridíssima esposa, que por graça de Deus estou com saúde o que também te desejo de todo o coração. Amadíssima esposa, peço-te perdão por não ter escrito por tão longo tempo. As constantes viagens não me permitiram escrever. Somente agora o faço, por me achar em lugar definitivo. Permaneço na colônia, pois sem terra não havia lugar para mim. Nesta colônia somente poloneses católicos fixaram residência. Querida esposa, peço que venhas, com tempo livre, para cá e o mesmo peço a meu irmão, porque a situação aqui é boa. Consiga tudo o que te servir para a viagem, porque não tenho condições de te enviar dinheiro, porque não tenho e o que nos dão, gastamos para viver e comprar as coisas necessárias para organizar a propriedade.

            Querida esposa, não ligue para as conversas do povo, basta que tenhas o suficiente para chegar a Bremen e depois poderás chegar ao destino por conta do governo. Leve consigo talheres e utensílios domésticos, porque eu tive que compra-los em Bremen, uma vez que no navio não dão nenhum talher para comer. Se puderes leve consigo chá, açúcar e gotas de massanilha. Do mar desembarcarás no Rio de Janeiro, depois em Porto Alegre e dali para a colônia onde me encontro. No barraco obterás com o diretor a linha em que me encontro, pois algumas linhas foram colonizadas especialmente para nós e nem eu mesmo sei como se chama esta linha.

            Querida esposa, envio-te as mais cordiais lembranças. Cumprimento a você minha filha e a mãe, aos tios e a toda a família e a todos os conhecidos. Mando-te o meu endereço, querida esposa para, quando chegares ao Rio de Janeiro, inscrevas-te para Porto Alegre e depois para a colônia Feliciano. Ainda te escrevo mais uma vez, primeiramente para Porto Alegre e depois para a colônia Feliciano.

                       

 

                                                           Teu marido

                                                           Antônio Saniewski

 

 

 

62. João Sitniewski de Santa Cândida, Santa Tereza (?)   Rio Grande do Sul para Francisco Baginski, Stara Wiés, município Prasnysz. 13/03/1891.

 

                                                           Cândia, carta escrita em 13 de março de 1891.

 

            Louvado seja N.S.Jesus Cristo.

 

            Estimadíssimas crianças minhas, saúdo-vos, meu filho Francisco Sitniewski. Cumprimento a todos em conjunto, primeiramente os filhos, depois os parentes e conhecidos, enfim a todos, desejando sorte, saúde e tudo o que pedis a Deus Supremo.

            Agora informo-vos que durante a viagem tudo foi muito bem, somente faleceu a filha, mas já em terras brasileiras, na cidade de Porto Alegre. Cecília foi sepultada no cemitério polonês. Comunico-vos que tenho tanta madeira quanto o senhor Mostoski. Queridas crianças, peço-vos encarecidamente que venham. Aqui há de tudo: galinhas, porcos, gansos, gado com chifres e burros, tudo à vontade, como na Europa.

            Quero avisa-los de que, quando estiverem para viajar, não levem broa consigo porque pode-se comprar durante a viagem. Não é necessário pagar pelas certidões ou passaportes, porque são de graça.

            Ao viajar, levem consigo algumas sementes, especialmente aqueles que vierem por primeiro.

            Meu querido genro, mando-te lembranças e venha quanto antes e traga colheres o maior número de dúzias que puderes e aqui te pagarei.

            João Sitniewski, pai e mãe Francisca, nós os pais vos pedimos que venham  quanto antes, seguindo estes endereços: Para Porto Alegre e daí para Santa Tereza. Aguardo a mais urgente resposta para que saibamos quando e em que tempo temos que esperar.

            Desta forma nós também obteremos colônias para vocês.

            O meu endereço:

            Brasil, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Santa Cândida, Santa Tereza, linha “zuzerlulu” (?), João Sitniewski.

            No envelope:

            Rus Pols, Gubernia Plocka, Município Mlawa, Aldeia Mlostowo/Stara Wies/, em mãos de Francisco Bakenski.

            (Existem restos de selo brasileiro e carimbo do Rio de Janeiro).

            No verso:

            Carimbo do correio russo, datado de 9-IV-1891 (estilo antigo) e inscrição a lápis do censor: “Zadierzat”.

 

 

 

63. José Skowronski e esposa de São Mateus, Paraná, para os pais, Ostrowy, município Kutno. 19/03/1891.

 

                                                           Brasil, 19 de março de 1891.

 

 

            Sejam as primeiras palavras da minha escrita: Louvado seja N.S.Jesus Cristo.

           

            Queridíssimos pais, em primeiro lugar informamo-vos sobre a nossa saúde e situação que, por graça de Deus Supremo vamos bem, o que também vos desejamos de todo o coração. Agora vou descrever a nossa viagem. Atravessamos a Prússia, em Bremen embarcamos e viajamos durante 24 dias e não descemos do navio a não ser no Rio de Janeiro. Ali permanecemos 8 dias e depois seguimos para o Paraná. Do Paraná (provavelmente Paranaguá) fomos a Curitiba e dali para São Mateus. Aqui é o nosso destino e nossa vida. Recebemos terra, segundo a medida brasileira, 100 morgas e segundo a medida polonesa “2 wlocas” e 20 morgas. O terreno está coberto por enorme mata. É preciso ter saúde para trabalhar, porque é necessário cortar tudo. Esperamos ter um pedaço de pão daqui a alguns anos. Queridos pais, se vocês tem a mesma vontade que nós em relação a vocês, então venham para cá. Viveremos juntos, pois vocês lá não tem propriedade, o que trará dificuldades na velhice e aqui, com o tempo, não faltará pedaço de pão.

            Por isso, pedimos que venham quanto antes. Não tenham medo do clima, porque é igual ao polonês, somente com esta diferença de que aqui a colheita é na época do Natal. O inverno costuma acontecer em junho e julho e é fraco, de forma que mal consegue congelar a água. Agora escrevo a respeito do filho Venceslau. Ele faleceu já aqui no lugar. Peço que mandem lembranças ao tio Dzedzanowski e a Antônio Gapienski, a toda a família e a todos os conhecidos.

            Não tenho nada mais a escrever, somente envio os mais profundos cumprimentos, desejando a todos o bem e tudo aquilo que pedis a Deus. Escrevemos, pedindo que levem tudo o que puderem: roupa de cama, vestidos, calçados, sementes de toda espécie, principalmente hortaliças, porque o transporte é gratuito e a manutenção é por conta do governo, até o momento em que cada um conseguir a própria manutenção. Venham para o Paraná, São Mateus, onde nós nos encontramos. Fim.

 

                                                           José Skowronski e esposa.

                                                           Escreveu Alexandre Marciniak.

 

            Antes de partir, mandem resposta urgente.

            Envelope com o texto danificado:

            Na Herrn Antonio Wozm (—) Ferbwik (Fábrica?), Ostrowa.Prov.Warschau.

            No verso, consta a anotação do censor a lápis “Zadierzat’”.

            Segue anexo um bilhete do censor, dizendo e atestando que Skowwronski convida a família para o Brasil.

 

 

 

64. Francisco Skurczynski de Rio Negro, Paraná ao irmão (endereço desconhecido).  31/03/1891.     Não existe o original e o texto foi transcrito pelos assistentes da Universidade Polonesa Livre e Oculta de Varsóvia.

 

 

                                                           Cidade Rio Negro

                                                           Último dia de março de 1891.

 

 

            Segue, cartinha querida, não sejas em lugar algum retida e quando chegar ao destino, lembre-se de louvar a Deus. Louvado seja N.S.Jesus Cristo e Maria. Para sempre, Amém.

            Estimadíssimo e queridíssimo irmão e esposa e você meu Joãozinho, alma minha, queridíssima e estimada. Mando-vos os mais profundos cumprimentos e saudação. Talvez seja pela última vez e informo-vos sobre a minha saúde, que estou bem por graça de Deus, o que também vos desejo de todo o coração e mais aquilo que pedis a Deus.

            Agora vou descrever a minha viagem, o que passei e o que vi diante de mim. Querido irmão, primeiramente peço-te perdão por não me ter despedido de vocês. Como você já sabe, antes de partir entregamos carta com despedidas, nas mãos do querido tio e depois partimos para Bremen. Chegamos a Bremen e ali ficamos durante 7 dias, pagamento 5 marcos e recebemos uma folha de metal, em que se punha a comida. Mandaram-nos bilhetes para viajar de trem e passagens para o navio.Depois embarcamos no último dia de dezembro. Por isso escrevemos a carta de despedida e votos de Feliz Ano Novo.

            Ao chegarmos ao Rio de Janeiro, desembarcamos na ilha e encontramos uma carta de Czelinski. Alegramo-nos bastante, porque soubemos para onde ele se dirigiu. Nós também deixamos bilhetes para os nossos conhecidos. Alexandre e João Grzela e Martim viajaram para Porto Alegre e outros lugares, enquanto Cylinski e Luciano seguiram para o Paraná, que a província. Nesta ilha ficamos 8 dias, a fim de decidir para onde alguém queria inscrever-se. Nós, com Francisco Skurczynski e João Cylinski, fomos atrás de Cylinski e Luciano, para o Paraná. Na quinta estação, encontrei-me com Cylinski e Przybylski. Alegrei-me muito e juntos ficamos 7 semanas. Agora tivemos que nos separar porque os casados foram para uma colônia, enquanto os solteiros para outra. Cylinski foi para Ponta Grossa e eu, Suczynski, e Przybylski, para Rio Negro. Até a Páscoa permanecemos nesta cidade, no barraco. Recebemos a alimentação do governo e ganhávamos para as nossas despesas. A seguir fomos para nossas colônias, percebendo durante seis meses, até que tenhamos a nossa colheita. Se em outras províncias faz calor, aqui não. Agora é como lá na festa de São João e estamos logo depois do Ano Novo. Nos meses de maio e junho teremos inverno e este é fraco, de forma que se um marreco pisar , ele quebra. O clima é agradável e saudável, embora em outras regiões faça calor. Crescem todos os cereais, cevada, batata, centeio. O inverno dura três meses. Informo-vos, pois se falavam na Polônia que no Brasil não existem igrejas, nem padres, isto é mentira.Eu, Francisco e Luciano tomamos parte nos festejos, confessamo-nos e recebemos a Crisma. Aqui esteve não somente o bispo, mas o substituto do Santo Padre e as cerimônias foram lindas, acompanhadas de excelente música de instrumentos. Houve foguetes de maneira, que a gente ficava ensurdecida, dentro da igreja. O coral cantou a velha canção polonesa: Boze cos Polske” (Deus que a Polônia guardaste...) “por tão largos anos cobriste com esplendor de potência e Glória, os miseráveis privastes de vossa proteção. Diante de teus altares levamos a prece, para que guardeis a nossa Pátria, Senhor...” sentimo-nos tão alegres, como se estivéssemos no paraíso. Tudo é verde, alegre, agradável. Queridos pais, se estiverem dispostos a nos seguir, então preparem-se para partir de casa, se puderem com roupa de cama porque aqui não existe e não há de que fazer. Tudo é caro, roupa, sapatos, utensílios; dinheiro, quer russo ou  prussiano, pode ser trocado: os russos são trocados no consulado e os prussianos nas casas comerciais e valem como se fosse ouro e pode-se ganhar muito dinheiro com os comerciantes. Se tiverem condições, seria melhor resolver os problemas em Bremen. Tragam espingarda de cano duplo, revólver, pois aqui é permitido ter em casa, sem qualquer imposto e, como sabem, as armas sempre são necessárias. Aqui são caras porque ainda não existem fábricas como na Europa e tudo é importado da Prússia, por isto é grande a procura do dinheiro prussiano.

            Agora o que posso comunicar é que eu, Francisco, peço ao querido irmão João Skurczynski que me mande notícias sobre Joana (?) Makowski, se a devo esperar ou não. Não tenho mais nada a escrever, somente despeço-me, desejando saúde, todo bem e o que pedir a Deus Nosso Senhor. Beijamos as vossas mãos, senhor Przybylski e a ti, querida irmã Wanda, juntamente com Ladislau e toda a família de casa. Eu, Luciano, abraço igualmente ao tio Korzycki, aos senhores Koroleski e suas crianças e aos senhores Zaleski. Despedimo-nos de você, João Skurczynski e esposa, beijamo-vos carinhosamente e pedimos que nos escrevam, informando o que se passa por lá. Se for possível obter as certidões de nascimento, mandem-nos quanto antes. Mande-nos resposta, caríssimo tesouro nosso e amor. Esperamos que receberemos aquilo que pedimos. Despedimo-nos cordialmente, eu Francisco Skurczynki e Luciano Przybylski.

            Caríssimos, informo-vos sobre as propriedades que devemos receber. São 100 morgas de terra, casa na propriedade, construída pelo governo. Quanto ao imposto, não se paga nenhum e não se pagará no futuro nada por esta propriedade, somente vai se  trabalhar para si. Nestas terras existe muito mato e erva mate, isto é árvore de chá, que é semelhante ao vime que cresce por lá e com ela pode se ganhar bastante dinheiro. A vida é boa. Recebemos comida quatro vezes ao dia. De manhã um pão e café, a outra refeição consta de arroz e carne, para o almoço feijão e carne à vontade e para o jantar pão e chá.

            Queridíssimos e amados pais, eu Luciano, peço-vos encarecidamente que consigam as certidões. Se estão expedindo agora, tragam, se tendes intenção de vir, senão escrevam e mandem as certidões em carta.

            Mando os mais profundos cumprimentos aos Korolewski e peço a mão da senhorita Mariana e que seja tão bondosa de chegar com seus pais. Se porventura os pais dela não vierem, então peço que a Senhorita venha com os meus pais. Se não vierem, respondam e mandem que nós procuraremos resolver o nosso (—) e tem que nos mandar sem falta. No navio não há perigo algum, porque aqueles que tem medo podem passar o tempo todo sem ver água. A viagem é confortável e o navio nunca pode virar nem afundar a não ser que se choque com alguma rocha e quebre e assim mesmo vão dar um jeito e não permitem que o povo se afogue. O navio percorre 15 milhas por hora. Quando atravessávamos o ensolarado Equador, o navio balouçou 3 vezes a ponto que  os viajantes caíram das camas, pois era noite e nós estivemos no mar, no grande oceano, enquanto os peixes pulavam ao lado do navio, como porcos.

            Querido pai Przybylski, quando estiveres para partir, certamente vai-me trazer uma espingarda de cano duplo que custa 21. Estou enjoado de escrever por isso cumprimento-vos e despeço cordialmente, estimadíssimos Przybyski e Skurczynski, juntamente com os filhos. Beijamos cordialmente vossas mãos e despedimo-nos pela segunda vez, desejando saúde, sorte que a pedis a Deus Supremo, tanto para vós como para os nossos amigos, amigas,  conhecidos, parentes, compadres e comadres e ao conhecido Rogalski e Golambiewski, feitor de Wloclawek, e suas crianças. Enviamos lembranças e cumprimentos. Beijamos e abraçamos cordialmente, com toda satisfação e de todo o coração vossos filhos e colegas e conhecidos. Com amor e estima, eu Francisco Skurczylski e  Luciano Przybylski, pedimos que nos escrevam para este endereço.

 

 

65. Alexandre Slwaski à família de lugar indeterminado do município de Encruzilhada, Rio Grande do Sul (endereço desconhecido). 27/12/1890.

 

 

            Escrevo esta carta em 27 de dezembro de 1890.

 

            Pronuncio para vós, queridos pais, as primeiras palavras: Louvado seja N.S.Jesus Cristo. Inclino-me diante de vós queridos pais, Pai e Mãe, juntamente com vossos filhos. Agora meus cumprimentos a você, meu irmão e esposa do irmão e vossos filhos, especialmente Anastácia, que gostava mais. Informo a respeito da saúde e da situação.

            Vou nem bem, nem mal. Estou com saúde, graças a Deus e desejo-vos tudo aquilo que pedis a Deus. Agora descrevo-vos a minha viagem que foi assim:viajamos três dias e três noites, de Szczyt a Berlim e o fizemos de trem. Custou-nos 12 marcos, menos alguns “centavos”. De Berlim a Bremen, igualmente fomos de trem e a viagem durou horas. Em Bremen fomos separados em grupos de poucos e detivemo-nos lá 6 dias, até chegar a Bremerhaven. Na cidade de Bremen ganhamos as passagens, com as quais viajamos em frente e em Bremen também ganhamos a alimentação do governo, até Bremerhaven. Viajamos igualmente de trem, durante 2 horas. Nesta cidade, embarcamos no navio chamado “Stutgart”, este é o nome do navio no qual viajamos, parando apenas dois dias num lugar. De Szcytno, partimos no dia 27 de agosto e de Bremerhaven saímos no dia 10 de outubro. Viajamos de navio, através de água e mar, durante 6 dias até a Espanha, isto é até a ilha que se chama Lãs Palmas. Aqui paramos um dia, pois o navio fez carregamento de carvão. Depois que zarpamos, sempre fomos em direção do sul, até o Brasil, cidade que leva o nome de Rio de Janeiro. Essa travessia durou 15 dias e 15 noites. Neste lugar existe uma ilha com entreposto, porque está na divisa entre o Brasil e a Inglaterra (sic) e aqui devem ficar todos que viajam ao Brasil e ali se fazem as inscrições para onde alguém deseja ir. Nós nos inscrevemos para Porto Alegre do Sul (Rio Grande do Sul). Trata-se de uma província semelhante a nossa “gubernia”. Lá chegaram milhares de povos.

            Para aqueles que desejarem ler minha carta, vou descrever a minha viagem pelo mar. Tivemos uma travessia difícil e árdua. Não é qualquer um que pode gozar de saúde no navio, porque balouça bastante como se fosse um berço. Outras vezes o navio segue em linha reta e outras vira de tal forma que a gente fica aguardando o instante de nadar na água. Atravessamos vários tipos de água, salgada de forma que não se pode por na boca. A água para cozinhar, levam dentro do navio. No que respeita olhar a terra, somente vimos de início, junto à ilha e depois no litoral, o resto, durante 12 dias, não vimos nada. A alimentação no navio é boa: carne, café, chá, arroz, batatinha, pão de trigo preto, o repolho e pouco, (...) também  à vontade, mas o café e o chão são amargos. É pena que não se possa comer, porque sofre-se de tonturas de cabeça, o que impede comer.

            Todos viajamos para o sul, em direção ao sol. Fazia muito calor porque atravessamos a trajetória do sol. Passamos a quatrocentas milhas do centro do sol (?). Desembarcamos em terra firme no dia 31 de outubro e ficamos na ilha durante quatro dias. Novamente partimos de navio, singrando durante dois dias e duas noites, quando o navio entrou em dunas e encalhou. Vários navios passaram ao largo e não podiam desencalhar o nosso. Ficamos retidos durante 10 dias, até a chegada das chatas, em que embarcamos. Elas foram engatadas em outro navio, que nos rebocou até Porto Alegre, onde chegamos no dia 16 de novembro. Ali permanecemos e tivemos intenção de ficar permanentemente, mas não foi possível. Disseram-nos que há serviço nas fábricas, mas não aqui, porque somente existem algumas, mas o que significa isto para tanta gente? A cidade é linda, localiza-se sobre um grande morro  as margens das águas. Há igrejas, só católicas. As cerimônias são lindas mas não se pode entender nada. O povo é todo preto, os brancos são poucos e há outros que não crêem em Deus e toda manhã (?). Nesta cidade inscreveram-nos no dia 18 de novembro, mandaram através da água e no dia 1º chegamos a uma ilha e ali ficamos até o dia 3 de dezembro, quando partimos de trem, viajando algumas milhas. Depois mandaram-nos de carretas, tiradas por quatro parelhas de bois, isto porque não existem estradas. Há enormes montanhas, canhadas, matas, de forma que é impossível existir uma estrada. Levaram-nos nestas carretas durante 6 dias e eles possuem tais carroças, porque com outras não conseguiriam passar. Depois andamos a pé, mais 7 horas, enquanto as crianças foram em bruacas, nos lombos de cavalos, porque as carretas não podem chegar até lá.

            Chegamos ao destino. Lá construíram barracos, onde moramos provisoriamente, porque ainda não estamos estabelecidos definitivamente em nossas propriedades. Nesta situação encontramo-nos desde o dia 11 de dezembro, morando nos barracos e nós, os homens vamos ao trabalho, ao passo que as mulheres ficam em casa. A vida é boa, desde Bremen e assim continua sendo. Quem trabalha, recebe 4,3 marcos e mais a manutenção. O serviço que fazemos é semelhante ao que entre nós vale 2 “zlotes”. A terra que receberemos terá uma légua de comprimento e meia légua de largura. Dão igualmente as construções, mas quem construir por conta própria receberá em dinheiro e  mais ainda os instrumentos necessários para trabalhar.

            Agora vou descrever o Brasil. Desde o início não vi nada mais do que montanhas, pirambeiras, matas. Os habitantes são escassos nestas serras.A riqueza da terra permitiu-nos ver cereais, batatinha, cevada, trigo, milho, feijão (...), “burbr” (lubina), repolho e tudo que for semeado crescerá. As colheitas são duas vezes ao ano e a batatinha até três vezes e as espigas são de 8 polegadas (?) e mais vigorosas porque aqui o inverno é fraco. O povo, todavia, semeia muito pouco, mas tem muita criação, segundo pudemos ver. Aqui e acolá reside um negro, no meio das montanhas. Ele cria umas quarenta cabeças de gado, umas 20 vacas e cabras e muito de toda espécie de criação.Possui uns 40 cavalos, geralmente anda a cavalo e não a pé. Este animal nunca sai do campo, por isso torna-se selvagem como um touro. O país é fracamente povoado e tudo é deserto, montanha, pirambeira, rios entre montanhas e  mata que entre nós não se pode imaginar. Há árvores no Brasil e nestas montanhas e pirambeiras crescem cactus, mirta, fina e grossa, “oleander” de forma que  nestas os pássaros se aninham. Todas as árvores são folhosas e não existem com espinhos. São várias espécies, cujos nomes nós não sabemos. Existem árvores grossas, próprias para construção. O calor não é exagerado, é igual ao que existe entre nós na época da colheita. O ar e o clima são bons para nós, porque escolhemos tais regiões, embora existam outras onde é quente. Aqui a atmosfera é bastante boa. O dia aqui é assim: O sol levanta às 5 horas e põe-se às 7. O sol nasce aqui no lugar, onde na Polônia, desaparece, enquanto ao meio dia esconde-se debaixo dos  pés . (—) O sol fica verticalmente (—). A terra é arável, mas é preciso limpa-la, pois são desertos, mas tudo cresce, mesmo que seja na maior das montanhas.

            Agora vou noticiar o que não é verdade. Não é verdade que o dinheiro gasto, é devolvido.O governo constrói casa por conta própria. Aqui servem os cobertores de penas, toda sorte de roupas, como entre nós, e também os calçados. Os maiores pacotes podem ser trazidos, desde que se consiga transpor a fronteira, pois podem ser levados, uma vez que custam muito caro, de forma que na Prússia pode se comprar duas pelo valor que lá custa uma. Quanto ao dinheiro enganam muito na  Prússia. Se alguém tem intenção, bem como os conhecidos de vir, que se mantenha no lugar, aguardando a minha segunda carta, porque ainda não me encontro no lugar definitivo, e não sei como será.

            Peço-te, meu irmão, depois de receber a minha carta, responda o mais depressa possível e eu escreverei e explicarei melhor. Comunique-me, porque aqui se fala que mataram o César russo, bem como o seu sucessor. Peço-te que me informe sobre tudo o que está acontecendo. Agora informo que no navio morreram muitas crianças, morreram 30 no navio e agora continuam perecendo. Faleceu a filha dos Tomkowski, Estanislava e outras seis estão doentes. Talvez Deus ajudará e elas superarão a doença.

            Enviamos lembranças a Alexandre Slawski e Kucinski, queridos pais — pai e mãe — irmãos, cunhada e vossos filhos. Mandamos cumprimentos às famílias Hulewycz, Mokalaewski, Solowecki, Kucenski e aos solteiros João Dobrowski, Gabriel Mokalanski, Worcel, Soliwocki e igualmente à senhorita Rosália Dobrowski, Leocádia Mikolaski, a toda a família e a todos os conhecidos. Peço-vos, colegas, escrevam-me informando como vão as coisas por lá agora, enviando para o endereço que será escrito, porque isso me interessa muito e demonstrará a vossa gentileza. Eu teria muita coisa a escrever, mas talvez a carta não chegue, mas se chegar podereis escrever um pouco para o endereço que aqui está escrito.

            Agora não tenho nada mais a escrever, somente apresento meus cumprimentos e peço simpatia de vossa parte. Desejo-vos todo bem, sorte, saúde e tudo o que pedis a Deus eu vos desejo. Amém.

 

Endereço:

Europa (erro no original — autor), Brasil, Estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Município de Encruzilhada, Colônia Francisco Glicério, Herr Alexander Slawski. Se estiverem para responder, anotem este endereço que aqui está escrito e cuidem para que seja exato como aqui está.

Quem tiver curiosidade, estas são as “cifras” brasileiras: 1 – um; 2 – dois ; 3 – três; 4 – quatro; 5 – cinco; 6 – seis; 7 – sete; 8 – oito ; 9 – nove; 10 – dez, etc. 30 – trenta (sic); 40 – quorenta (sic). O dinheiro é contado: mil reis, marcos, vintém, reis.

 

 

66. José, Josefa e Estanislau Sobiesiak de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul aos pais. Zyrardów, 3/04/1891
Veja local desta carta: Zirardów

 

 

                                                           Colônia Alfredo Chaves.

                                                           Brasil, dia 3 de abril de 1891.

 

 

            Queridos pais, informo-vos que estamos, os dois, com saúde, graças a Deus Supremo. O filho também está, o que vos desejamos de todo o coração. Mandei-lhes uma carta no dia 1º de março e  aguardo resposta com grande ansiedade. Pelo fato de que a distância é muito grande, não pode chegar depressa.O Brasil fica 2.740 milhas distante e só pelas águas a viagem é de 18 dias, através do Grande Oceano. Viajamos ainda no Brasil, 5 dias, igualmente através de águas. Estamos muito aborrecidos porque não nos podemos entender com os padres e com outras pessoas. Já entendo mais ou menos e posso falar, mas não com todas as pessoas. Compreendo,  porque aqui no Brasil escrevem tudo com letras polonesas.

            Estão construindo uma igreja em nossa brigada (sic). Virá um padre polonês, que nos entenderá. Agora, a igreja que fica na cidade, dista quatro milhas. Lá existe uma igreja polonesa. Em Porto Alegre existem 14 (sic) igrejas polonesas e duas alemãs. A maior parte dos padres pertence aos Jesuítas. A nossa colônia é composta de 200 colonos, todos da Polônia. O nosso município compõe-se de 29 brigadas, todas polonesas. São cinco famílias, oriundas de Zuyrardów: Bzozoski; Antônio Czerwinski, Jacó Fufal, Feler e eu.

            Aqui crescem árvores de várias espécies, mas nós não as conhecemos. Somente conhecemos “mahon”, os carvalhos, que são iguais aos da Polônia, embora na parte baixa não possuem nós, pois estes ficam no topo (provavelmente refere-se à araucária – tradutor). Não as serramos, mas rachamos como cunhas de ferro, fazendo tábuas e tabuinhas, por que lascam-se fácil, como baralhos. Não crescem juntos, mas distam um do outro umas 30 ou 40 braças, enquanto entre eles vegetam arbustos e pequenas árvores. Sua altura atinge entre 28 e 35 braças, enquanto a largura pode ser de 2, 4, 6 ou 8 braças. São ótimas para construção.

            Quanto aos animais selvagens, existem tigres, porco do mato, macacos em quantidade, vacas selvagens, veados, cobras e ainda muitos outros animais.Não se encontram lobos. Os pássaros são de muitas variedades, bonitos e grandes como perus, mas não cantam nada. Os insetos são muitos. Existem tais que ao voar à noite iluminam como se fosse luz elétrica. Estes são muito bonitos. Os animais domésticos constam de cavalos, burros, vacas. Um bom cavalo pode ser adquirido por 25 ou 30 mil reis, uma vaca boa pode ser comprada por 30 ou 40 mil reis. As vacas aqui são enormes. Há ainda porcos, cabritos, carneiros, cachorros, gatos, marrecos, perus, gansos, galinhas, galinhas de angola, pombos, coelhos, tudo igual ao da Polônia.

            Cada um possui seu lote de terra, com 1.100 metros de comprimento e 275 de largura. A minha casa já está construída, fiz sozinho, com mais dois ajudantes e trabalhamos durante 16 dias. Recebi do governo 80 mil reis, recebi igualmente 32 libras de pregos, 4 pares de dobradiças, uma fechadura, pois o governo dá tudo isso. Isso tudo deverá ser pago no montante de 200 mil reis, durante 12 anos, mas se alguém não puder pagar nesse espaço de tempo, poderá pagar até a morte, porque ninguém o explusará da Colônia. Já cortei duas “morgas” de mato, mas não semeei nada, porque já é tarde. Agora aqui se aproxima o inverno que vai começar em maio, junho e julho. A geada mais forte atinge 3 graus. Aqui não neva. As chuvas e trovoadas são freqüentes. As trovoadas são fortes e dão a impressão de que sempre estão perto, de modo que, mesmo que caísse um raio, não se saberia. O calor não é forte,  a temperatura mais alta atinge 20 graus. O clima é mais ou menos saudável. O povo é pardo, mas com muita saúde e são muito bons para nós. A diferença em horas é de 7, pois no Brasil é meio dia, na Polônia são 7 horas. Nós estamos mais longe, atrás do sol (sic) do que vocês, em frente do sol. Aqui os dias santificados são guardados da mesma forma que na Polônia, mas não o fazem da mesma forma que nós. A Páscoa é muito curiosa, não temos ovo bento, nem doces como na Polônia. Quando conseguirmos alguma fortuna, faremos do mesmo modo como na Polônia, mas agora é muito difícil. Comprei uma cabrita, pagando 10 mil reis,  bem como os talheres iguais aos usados na Polônia, somente aqui eles são bem mais caros. O restante fiz eu mesmo: cama, banquinhos, armários, mesa. As casas tem o mesmo modelo que na Polônia, mas sem chaminés e sem janelas. Cozinhamos no pátio.Não existem panelas pequenas, como lá,  mas somente panelões. Vestimo-nos da mesma forma como na Polônia, somente não se usa paletó porque faz muito calor.

            Durante o dia faz calor, a noite é fresco e cai bastante orvalho. Aqui o sol se põe às 7 e nasce às 6 horas e é igual o ano inteiro. A gente vive aqui tanto tempo, quanto na Polônia.

            A plantação é feita de forma diferente do que lá. Aqui se planta no meio de tocos, porque não se ara, nem vira a terra. Queima-se o mato, deposita-se a semente entre tocos e troncos e tudo cresce muito bem. O centeio cresce muito maior do que na Polônia. O centeio e o trigo são plantados uma vez ao ano, a batatinha tão logo é colhida, pode ser plantada novamente. A cenoura, a beterraba, salsinhas, ervilhas, a cebola, o milho, a cevada, o sorgo, o linho, a “tatarca”, a aveia, a viça, tudo isto cresce como na Polônia. Pode-se semear duas vezes ao ano e não é necessário estrumar, nem arar, porque toda a terra é como argila e fofa.

            Quanto ao custo de vida, o quilo de batata custa 200 réis, farinha de trigo 200 réis, centeio 150 réis, milho 100 réis, uma dúzia de ovos 200 réis, o quilo de arroz 300 réis, o quilo de açúcar 500 réis,  este não é como na Polônia, mas em pó, o quilo do café, um mil réis, o quilo de manteiga 1 mil réis, o quilo de carne 200 réis, carne de porco 300 réis, toucinho 500 réis, o quilo de fumo, 1.200 réis, ervilha (feijão) 120 réis, um quilo de sal 180 réis, uma galinha 400 réis. Um quilo equivale a duas libras, um mil-réis é igual a dois marcos russos. Um mil réis, possue mil réis. Nós contamos 100 réis, 12 centavos, por isso o marco possue 2 “zlotes”.

            Eu ganho um mil-réis e duzentos réis por dia quando vou trabalhar na construção da estrada. Numa semana ganho 7.200 (sete mil e duzentos réis). Os calçados aqui são mais caros do que entre nós, mas o produto é melhor. Quanto às mercadorias, é a mesma coisa que na Polônia, somente os marceneiros são mais caros. Não existem fábricas e se o governo traz imigrantes não é para as fábricas , mas é para a terra. As sementes também recebe-se do governo: batatinha, feijão de bagas, centeio, trigo, milho.

            Não tenho mais nada a escrever. Na minha terceira carta vou escrever, quando estiver em melhor situação.

            Querida Teófila, meus mais profundos respeitos a vocês três. Peço resposta, dizendo como vão por lá. Teófila, peço-te que mande informações onde anda Alexandre. Queríamos encontra-nos com ele, porque não sabemos para onde ele foi. Estamos aborrecidos sem a família, em regiões tão diferentes. Mandamos lembranças a toda a família: ao avô, à avó, à mãe, à tia e ao tio. Mandamos lembranças ao Zienkiewicz e seus filhos, a ti Romão, aos Puszynski, Szulc, Koproski, Biernatowicz, Niepostyn e sua mãe, aos Kauecki, Kobierski, o abraço do afilhado e a todos os conhecidos.

            Agora peço que mandem notícias, o que acontece em Zyrardów. Escrevam-nos com urgência, pois esperamos ansiosos e ficaremos alegres. Entreguem esta carta a todos para lerem e aguardo resposta. Cordialmente vosso amoroso José e Josefa Sobiesiak. Fiquem com saúde.

            Peço que mandem resposta quanto antes.

            Brasil, Porto Alegre, Colônia Alfredo Chaves. Picada. O endereço pode ser em polonês.

 

 

 

67. José Sobiesiak, de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul  (endereço desconhecido). Zyrardów. Falta data.
Veja local desta carta: Zirardów

 

 

 

 

            Querida Teófila, peço-te cordialmente, seja tão bondosa e mande-me alguns livros de canções e para leitura, porque aqui não existem em língua polonesa, mas só em português e eu não possuo nenhum e quando chega um dia santificado, não tenho nada para ler e fico muito aborrecido.

            Pode enviar pelo correio. Quando estiver em melhor situação, vou-te retribuir este favor. Não me esquecerei de ti e mandarei minhas fotografias. Você mesmo pode escrever uma carta para nós e ficaremos muito satisfeitos. Podes endereçar em polonês. Escreva-me tudo sobre Valéria, se ela te obedece e sobre Flora, sobre os Tuszynski, sobre todos e sobre o Szulc. Peço-te encarecidamente, responda com urgência. Escrevo no primeiro dia da Páscoa e tenho dias santos muito tristes.

 

 

                                                           Sinceramente com amor

                                                           José Sobiesiak

 

 

68. Antônio Stolarski, de Caxias do Sul aos pais (endereço  desconhecido). Escreveu João Wietrzykowski. 25/01/1891.

 

            Queridos pai e mãe. Envio-vos os meus respeitos filiais e comunico sobre a minha saúde e situação. A nossa saúde não é das piores, mas o pequeno Francisco, certamente não viverá. A criança pequena nasceu no navio e hoje tem treze semanas.

            Ainda não estamos em nosso lugar definitivo, embora estejamos perto. Inscrevemo-nos para São Marcos. Agora vou descrever ligeiramente a viagem e a situação em que nos encontramos.

            A viagem de início foi bastante perigosa. O navio balouçava demais, durante três dias, a ponto de fazer rolar os cofres e o povo dizia que chegou o fim do mundo. Depois destes três dias, a viagem não era das piores. Viajamos neste navio, ao todo, 28 dias. Chegamos ao entreposto brasileiro e descansamos 16 dias. Ali nos inscrevemos para Porto Alegre, onde repousamos 8 dias. A viagem para Porto Alegre foi com outro navio e durou 8 dias. Em Porto Alegre alistamo-nos para Caxias, onde atualmente estamos. Até o presente, a nossa vida é bastante boa. Vivemos de carne, pão, farinha de trigo e arroz. O cuidado que nos dispensam é muito bom (—) temos bom. Os padres poloneses intercedem por nós. Consertam todo o mal porque há bastante padres e igrejas. Há mais igrejas do que na Polônia, somente que não podemos entender, mas em breve teremos padres poloneses. Tudo é bastante bom, somente as montanhas são enormes. São tais que desde que Deus criou o mundo lá não pisou o pé humano. Nos morros a terra é melhor, porque um “korzec” de milho produz até sessenta espigas (?). Tudo o que for semeado, produz em abundância.Aqui tudo é caro, porque essa gente produz pouco, semeiam pouco e possuem muito dinheiro.Criam muitos cavalos, burros, porcos, porque alimentam-se no campo uma vez que não existe inverno. Entre nós, ninguém se preocupa com nada para o inverno, porque tudo é fresco. Mal colhem uma coisa e outra já está nascendo e a terceira florescendo. Nós ganhamos 110 morgas de terra e a medida é das grandes, bem como todas as sementes, enxadas para a limpeza, facão para usar sempre consigo e utensílios domésticos. Ainda destinaram-nos uma vaca e um burro, mas isto não estamos recebendo por ora. O governo nos sustenta até conseguirmos a própria subsistência, isto é, durante 6 meses e isto não é retribuído com trabalho. Numa palavra, recebemos tudo de graça. Os impostos só pagaremos daqui a alguns anos e são muito pequenos. Dizia-nos um brasileiro que mora vinte anos e somente pagou 2 rublos. Quem construir uma casa em sua propriedade receberá do governo 150 rublos e ainda, se tomar parte na construção de estradas, recebe pagamento.

            Quanto ao clima, é mais ou menos saudável e fresco, mas isto não acontece em todo lugar. Nós viajamos através de lugares quentes onde mal se podia agüentar. Informaram-nos onde seria melhor e com a ajuda de Deus achamos um bom lugar. Tudo o que escrevi é verdade. Quem tiver vontade e desejo pode vir, segundo a orientação da minha carta.

            Queridos pais, enviai esta carta para os pais da esposa em Kempy e a todos os conhecidos. Advirto-te, Adão Guntowski, para que case e venha para junto de mim. Não tenha medo de nada, basta ter dinheiro para a viagem —20 rublos até Bremen. No final de minha carta mando lembranças à família e aos conhecidos.

 

                                                           Antônio Stolarski

                                                           Escreveu João Wytrzykowski

Província Rio Grande do Sul

Correio de Caxias nº 1

Hernon Antônio Stolarski

Brasil.

Este é o meu endereço. Respondam-me no mesmo dia que receberem, porque esta é uma carta registrada e aqui é muito severo. Eu pagarei 18 rublos.-

 

 

 

           

69. Constantino Strzelarski de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul ao irmão Max (endereço desconhecido)  23/02/1891.

 

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

            Amadíssimo irmão.

 

            Nas primeiras palavras da minha carta, comunico-te que, por graça de Deus Supremo permaneço com vida e gozo de boa saúde o que também desejo a você a  toda família de todo o coração, Max. Minha esposa Constância já faleceu. Morreu na cidade de Porto Alegre. Igualmente as duas crianças, Catarina e Adão, foram para o túmulo atrás dela. Estou com a mãe da esposa e com José. Até o presente, estamos com saúde.Informo-te que ainda nos achamos em viagem  e só depois da Páscoa é que cada um estará em sua colônia.

            Agora vou descrever a viagem. Desde a divisa prussiana até a cidade de Bremen, levamos 40 horas de viagem. Atravessamos as cidades de Torun, Bydgoszcz e Berlim. Em Bremen, detivemo-nos 10 dias de graça num hotel e dali partimos em trem prussiano para Bremerhaven. Aqui embarcamos em navio passageiro e atravessamos o Mar do Norte alemão em 24 horas. Desembarcamos na cidade Belga, Antuérpia, e aqui adentramos o Oceano. Viajamos durante 18 dias e desembarcamos com o pé enxuto numa ilha, próxima a Capital do Brasil, Rio de Janeiro. A partir dali recebemos comida pronta, por conta do governo. Nesta ilha ficamos 4 semanas e novamente embarcamos em navio brasileiro, a vapor, denominado “Estrela”. Viajamos durante sete dias até Porto Alegre e ao mesmo tempo passamos pelo grande rio da América do Sul, o Amazonas (sic). Nesta cidade detivemo-nos 4 semanas. Aqui sepultei a esposa e os dois filhos. Alojaram-nos em enormes carroções de duas rodas e cada carreta era tocada por 12 parelhas de bois. Viajamos 5 dias e chegamos às serras da parte do sul do Brasil. Aqui nos encontramos, porque os geômetras,  isto é, os agrimensores, estão demarcando as terras para cada um de nós. Mantêm-nos aqui, para que nos aclimatemos e acostumemos com o ar. Aqui, na assim chamada Velha Colônia de Santo Antônio, recebemos dinheiro para a manutenção e moramos em grandes barracos, construídos especialmente para nós. Com isto, saimo-nos muito bem. Cozinhamos o que queremos: sopas, batatas, ervilhas de campo, feijão, carne, café e chá, fazemos broa de farinha de trigo, pastéis fritos em banha. Ganhamos 500 réis diários, por pessoa, o que significa que a família que possuir mais filhos é melhor. Além disso, 15 mil-réis para aquisição de utensílios de cozinha e ferramentas para cortar o mato e para a lavoura, nos primeiros momentos. Com 25 mil réis, compramos: machados, cortadeiras, enxadas, facões e outros. Para isto, cada família recebeu 50 mil réis. Esperamos receber 120 “morgas” de terra, com mato denso de tal forma, que não se pode introduzir a mão.

            As cobras não nos são estranhas e quando se encontra assemelha-se a um tirante de couro estirado. Não se vêem outros animais, porque ainda nos encontramos em estradas carroçáveis, pisadas por gente que mora aqui. A fé que aqui se pratica é a católica e a língua é portuguesa.O povo aqui é muito bom, agradável e cordato. Os pretos são gentis igualmente. O Governo aqui é muito bom e mantém a ordem. Se alguém é ruim na Polônia, que não venha para cá, porque também vai-se dar mal. Deve-se compreender que sem castigo não haveria fim para a maldade e aqui também sabem por na prisão aqueles que não querem obedecer.

            Agora descrevo-te o que é 1.000 réis. Um mil-réis vale a mesma coisa que 4 “zlotes” e seis níqueis, ou seja 63 “kopiicas”. Informo-te que cada filho maior de 18 anos, casado ou solteiro, ganha a mesma quantidade de terreno, quanto os demais. Se quiser, venha, se tiver permissão levarão gratuitamente. Por dinheiro, poderá viajar só quem for magnata.

            Aqui a vestimenta é a mais cara. Um quilo de açúcar, aqui nas montanhas, custa 400 réis; um quilo de carne 260; um quilo de batata 140; um quilo de farinha de trigo, bonita, 340; um quilo de feijão 260; um quilo de toucinho 700; uma abóbora grande 100, cujo peso atinge 25 libras e o seu tamanho é como de um balde grande.

            Não posso escrever mais, pois não tenho tempo. Desejo-te saúde, bem como a tua esposa e a teus filhos, desejo-te de toda alma e de todo o coração e almejo tudo aquilo que pedis a Deus Supremo, tanto para a família como para todos os conhecidos.

            Peço-te, irmãozinho Máximo, responda-me quanto antes e peço-te de todo o coração que não esqueças e escrevas o que se passa entre nós.

            O meu endereço, para onde deves escrever é este: Brasil, América do Sul, para a cidade de Porto Alegre, Província Santo Antônio, para Constante Strzekalski ( o melhor é escrever o endereço em alemão). Se me responderes logo, mandarei outra carta.

                                                          

 

                                                           Beija-te, teu irmão

                                                           Constante Strzekalski

                                                           Fiquem com Deus!

 

 

70. João Strzelec do Brasil para Mariana Seklicka, (endereço desconhecido). 15/12/1890. Não existe o original. O presente é transcrição reconstituída durante a ocupação pelos alunos da Universidade Polonesa  Livre  e Oculta  de Varsóvia. 15/XII/1890.

 

 

 

            Em minha última agonia, falo a você, querida esposa. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Queridíssima esposa minha, estimadíssimos filhos e amadíssima mãe, a todos vocês mando o adeus em última agonia da minha vida. Despeço-me da esposa, das crianças, da mãe e de toda a família, por meio deste papel branco, porque não vos verei, a não ser no Juízo Final de Deus. Já me despedi deste mundo e de vocês todos. Desejava rever-vos antes da minha morte, mas não pude alcançar. A minha doença consistiu no seguinte: adoeceu o dedo da mão direita e toda a mão ficou inchada de forma que não tinha condições de me virar, mas viravam-me de um lado para outro e eu não podia suportar essa doença. Deus levou-me deste mundo. Fiquei doente durante três domingos e neste tempo visitei Antônio Strzelec. Ele me tocou de sua casa, porque ele me tocou de sua residência, argumentando que fedia, em sua casa, somente estranhos me levaram sob seu cuidado e cuidaram de mim durante sua doença, até a morte. Falou-me, quando ainda em vida, antes de sua hora derradeira que se despedia de sua mulher, filhos e mãe e toda a família e falava de que se encontraria com eles no último Juízo Divino, quando todos se apresentarão  na mesma hora. Agora não tenho mais nada a escrever sobre ele, somente mando minhas cordiais lembranças.

 

                                                           João Strzelecki

 

João Strzelecki escreveu esta carta para vós. Se quizerem escrever para mim, este é o meu endereço. Além disso peço-vos, Mariano Seklicki, tão logo receber esta carta, responda-me, então saberei se receberam a minha carta.

            Queridíssima Marian Seklicki, vosso marido morreu no dia 19 (há erro, deve ser no dia 9 — autor) de dezembro, depois do almoço, às três horas e foi enterrado na quinta-feira, às 10 horas da manhã. Foi sepultado em cemitério polonês. Durante a doença recebeu a visita do médico três vezes e uma vez do padre. Teve boa assistência, não há de que se queixar, somente mandem rezar uma Santa Missa e recomendações. Agora não tenho mais nada a escrever, somente envio meus respeitos, em nome do falecido, e peço a mais rápida resposta.

 

                                                           J.S

                                                           (João Strzelec)

 

Observação do tradutor: Esta carta foi escrita para a esposa de um imigrante falecido, cujo nome não é mencionado. João Strzelec, o autor da carta, usa uma forma estranha. Inicialmente ele se coloca no lugar do falecido e transmite os sentimentos que animavam o extinto nos últimos instantes. Posteriormente ele se confunde com a esposa do falecido e usa a forma narrativa.

 

 

71. Mariana e Teófilo Suchowski de Porto Alegre à mãe (endereço desconhecido). 25/04/1891.

 

                                                          

 

                                                           Ano de 1891, mês 4º, 25 de abril

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

            Eu, Mariana Sychocki. Minha querida mãe eu vos saúdo, juntamente com o marido Teófilo Sychocki, ambos saudamos e mandamos lembranças aos irmãos queridos e irmãs e nós vos desejamos que Deus vos tudo o que desejais. Agora informamo-vos sobre a nossa  situação.Ganhamos 130 morgas de terra com mato, isto com árvores que na Polônia não existem. Querida mãe, recebemos mais 50 mil-réis para ferramentas, 100 mil-réis para construção de casa própria, que já está pronta. Cada mil réis, corresponde a um rublo russo e ainda nos pagam para a manutenção, pelo espaço de meio ano. No primeiro ano teremos muito trabalho, mas se Deus nos ajudar, com saúde e vida por mais tempo, então por sua graça esperamos que ficaremos melhor do que um senhorio, em sua propriedade

            Agora, querida mãe, comunico-vos a respeito do pai do meu marido e sua senhora e dos dois irmãos e uma irmã que são muito bons para mim. Mande notícias, querida mãe sobre a situação, quais são agora os ganhos nas fábricas, porque se  não houve melhoria no trabalho que a mãe me comunique, porque eu trarei a mãe e a família para junto de mim.

            Eu Teófilo Sychocki, genro da mãe, paguei 20 mil-réis para o casamento no cartório, o que significa 20 rublos e ao padre 14 mil réis. Já temos cavalos e porca enxertada, duas cabritas e quinze galinhas. Graças a Deus ambos estamos com saúde. Estas são as notícias sobre as terras brasileiras: Durante os meses de abril, maio e junho é inverno, como na Polônia durante a colheita da batata. Não tenho nada mais a escrever. Agradeço a estremosíssima mãe pela criação da filha, porque estou satisfeito com ela.

 

                                                           Teófilo Sychocki, escreveu e isto era de noite (—).

 

Teófilo Sychocki, Estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, por Caxias, Brasil.

 

 

 

72. Estanislau Ratas de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul aos pais, (endereço desconhecido). 23/03/1891.

 

                                                           Alfredo Chaves, 23 de março de 1891.

 

            Queridos pais!

 

            Primeiramente, cumprimento-vos segundo o nosso tradicional costume polonês: Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre. Agora vou descrever a minha viagem. Graças a Deus foi feliz, todos estivemos com saúde, paramos duas semanas em Bremen, viajamos pelo mar, durante 18 dias, até Rio de Janeiro. Do  Rio de Janeiro para a nossa cidade, Porto Alegre, levamos 8 dias de viagem. De lá para a cidade St. (—), de barco a vapor e pequeno, que levou 12 horas. Aqui findou a nossa viagem por água. Desta cidade até a de Dona Izabel, viajamos em carroções. A estrada segue por serras e pedras, mas Deus nos ajudou. Ali detivemo-nos quatro dias. A partir dali viajamos em lombos de burros e cavalos, tanto os homens quanto as mulheres. Foi uma bela viagem até Alfredo Chaves, onde descansamos um dia. Depois levaram-nos para as colônias, isto é, levaram a cada um para a sua propriedade. Cada família recebeu uma colônia de  5 “wlocas” de terra com mato. A terra é boa e fértil. A comida durante a viagem foi boa e farta e nas colônias ninguém experimentou fome. O governo ajuda-nos em tudo. Deu a cada uma  a colônia, todas as ferramentas indispensáveis para o trabalho e ajuda para a construção da casa própria. Quem construir por conta própria recebe 75 mil réis, o que equivale a 85 rublos, em dinheiro russo.

            Numa palavra, no Brasil, é melhor do que na Polônia. Se Deus me der saúde, como até agora, não me arrependerei. Agora comunico-vos as minhas tristezas. Primeiramente, em dezembro faleceu o pequeno Wenceslau, depois adoeceu meu cunhado Simeão, ficando de cama 7 semanas e no dia 26 de fevereiro, Deus o levou deste mundo. Minha irmã é viúva e ficaram duas crianças. Estanislava está com muito boa saúde e a segunda recebeu no dia 15 o nome de José.Estamos bastante tristes, mas o que se há de fazer? Deus faz como lhe apraz. Deus nos entristeceu, mas ele há de nos consolar, seja feita a sua vontade.

            Desta feita, não tenho nada mais a escrever. Ainda não plantamos nada. Em maio vamos semear trigo e depois em seguida plantar todas as coisas: feijão, milho, batatinha, aqui crescem duas vezes ao ano. Tudo o que se planta cresce bem.

            Mandamo-vos lembranças, queridos pais, irmãos, irmãs, parentes e conhecidos. Desejamos saúde e sucesso e todo o bem. Permanecemos vossos, amando-vos como filhos, até a morte.

 

                                               Estanislau Tartuss e Mariana Wieczorek e

                                               Antonina Tartuss.

           

            Pedimos resposta urgente. O nosso endereço é o seguinte:

            Ao colono Estanislau Tartass/Colônia Alfredo Chaves, 7ª secção, Lote nº 5 /

  Porto Alegre/ Estado do Rio Grande do Sul / Brasil.

            Ao lado a seguinte anotação:

            Não tivemos padre até agora. No presente já temos, compreende polonês. A igreja foi edificada pelo governo. Mandem-nos no envelope uma canção polonesa, como aquela, como o bom Jesus entrava no céu ou (—) e sobre o barriqueiro.

           

 

 

 

73. João Wietrzykowski de Caxias do Sul aos pais, (endereço desconhecido). Falta a data   

  

            Queridos pais. Uma coisa me corrói. Faleceram os meus filhos. Marta morreu no primeiro entreposto, faleceu de sarampo. Boleslau e Olga  morreram em Caxias, atingidos por uma espécie de varíola. Os dois foram sepultados no mesmo túmulo. Isto me aborrece bastante. Também morreram muitas crianças dos meus conhecidos. Os médicos não ajudaram a ninguém. As crianças maiores não morreram, só as pequenas.

            No final da minha carta, despeço-me de vós queridos pais, irmãos, irmãs e bons colegas. Que Deus vos ajude por ver, não nos veremos:

            Este é o meu endereço:

            Provinz Rio Grande do Sul, Porto Alegre / — Correio Caxias/Nº. / Herrn João Wietrzykowski,  Brasil/.

            Só escrevam com clareza. Vocês precisam mandar a resposta necessariamente porque do contrário eu pagaria uma multa de 18 rublos, isto porque a resposta tem de voltar em seis semanas.

 

 

                                                           Até logo!

                                                           Wietrzykowski

 

            Helena juntamente conosco e seu marido/ estão bem de saúde / e todos os conhecidos.

 

 

 

 

74. João Wietrzykowski, de Caxias, Rio Grande do Sul à família, (endereço desconhecido). 26/01/1891.

 

                                                           Caxias, 26 de janeiro de 1891.

 

 

            Queridos pais, irmãos, irmãs, mando-vos uma cordial saudação, filial e fraternal e comunico que estou escrevendo a segunda carta do Brasil. Estou curioso em saber se recebestes. Nesta carta vou escrever tudo sobre a situação e toda a viagem, desde que embarcamos no navio no dia 29 de outubro. Os primeiros dias de nossa viagem foram muito difíceis, porque o navio balouçava bastante nos três primeiros dias, de forma que as pessoas caíam das camas. Cada um dormia quase sem alma. Depois nos acostumamos e o resto da viagem foi razoável.  Navegamos 28 dias e chegamos à cidade brasileira, um entreposto, chamada Rio de Janeiro. Lá descansamos 16 dias. No entreposto inscrevemo-nos para Porto Alegre, para onde nos dirigimos em outro navio, navegando 8 dias e descansamos outros oito dias.

            Em Porto Alegre inscrevemo-nos para Caxias, onde até o presente nos encontramos, porque ainda não estamos em lugar definitivo, mas já estamos perto do destino. Viajamos até agora através de rios e em carroções e muares. Tudo estaria bem, mas não me agradaram as serras. Há montanhas tais que as nuvens se partem contra elas e nos morros a terra é turfística (preta, estéril) e nas canhadas argilosa. Eu me inscrevi para uma colônia e ganhei 110 morgas de terra, de medida grande e recebi todas as sementes necessárias e ajuda, bem como enxadas para a limpeza (—), machados, utensílios de cozinha e facão para defesa contra animais. Se construir a casa, receberei 150 rublos do governo. Pela abertura da picada em próprio terreno, também se recebe pagamento, segundo consta 2 rublos por dia de trabalho. Os impostos são pequenos. Dizia-nos um brasileiro, que reside em sua terra há vinte anos, que pagou dois rublos. Ganha-se manutenção durante seis meses, até que se colha a própria cultura. Hoje para sustentar duas pessoas, temos 6 rublos para 10 dias e com isto pode-se viver muito bem. Quando trouxeram os italianos, cada família custou dois rublos. Deram-les cavalos, vacas e toda espécie de ajuda. Para nós cortaram, não dão cavalos, nem vacas. Sabem que isto é feito sem nenhuma retribuição, porque a gente não teria condições de pagar durante toda a vida. Os serviços são bem pagos, dois rublos diários. Há mais igrejas do que na Polônia e igualmente o número de padres é maior. A população é uma mescla de gente de todo o mundo e somente católicos, mas não nos podemos entender, a não ser por sinais. O povo é rico e misericordioso, trabalham pouco, mas criam bastante burros, cavalos, gado, porcos, porque isto não dá trabalho. Alimentam-se no pasto, tanto no inverno, quanto no verão, porque aqui, por graça de Deus, não existe inverno.

            Nós acertamos, pois escolhemos regiões frescas e saudáveis. Não há muito calor. Sempre seguimos rumo Oeste e Sul, de forma que passamos debaixo do sol (sic) e nesta travessia não pudemos suportar o calor. Espero que poderemos viver melhor do que na Polônia, porque um “korzec”, de milho produz até 60 espigas. A batatinha é cara, porque um  “korzec” custa 19 rublos. A carne é a mais barata, uma libra custa 18 centavos. Nós vivemos de carne, arroz, farinha de trigo e broa. Pode-se plantar quando se quiser, pois enquanto se colhe um lote, outro está florescendo e o terceiro nascendo. Numa palavra, vai bem, o comércio é excelente. Quem tiver algumas centenas de rublos pode enriquecer, pois aqui não exigem patentes. Comuniquem isto ao Orelów, mas digam-lhe que a viagem é penosa, pois nós já estamos viajando mais de três meses e ainda não chegamos ao destino. Por aí se conclui que a viagem é difícil. Quem chegar depois de nós, não levará tanto tempo, porque nós vadiamos, perguntamos onde seria melhor e duvidamos para onde se dirigir e acertar boas regiões e vocês poderão vir diretamente sem paradas, seguindo os nossos passos. Ainda temos um dia pela frente, uma viagem em muares em direção das serras de São Marcos, porque assim é chamada a aldeia e a cidade, todos com nome de santos, como na Polônia. Lá será a nossa residência permanente. Não existem em absoluto cata-ventos, mas moinhos. As casas são todas de madeira. “Passas” e pimenta não vi nas árvores, não vi igualmente animais, coelhos e veados. Vi um pequeno crocodilo e quando enxerga a gente refugia-se em tocas. Há macacos, gatos do mato e papagaios. Esse país é bastante triste, mas rico porque há muito dinheiro, prata e pouco ouro, mas dinheiro de papel. Quem vier para o Brasil com dinheiro que o troque na Prússia por ouro e traga para o Brasil, porque terá muito lucro com isto. Em Bremen não devem pagar pela alimentação, não fale que tem dinheiro, porque irá pagar desnecessariamente, uma vez que eles são obrigados a fornecer a manutenção gratuitamente. No navio deve-se escolher um lugar no centro e em baixo, porque lá balouça menos. Durante a viagem deve-se ter cuidado de não comer laranjas, porque isto traz a primeira doença. Cuidado para não brigar com alguém, porque o castigo é pesado. Em caso de roubo é diferente, chamam-nos de mudos, mas depois de três anos a lei é dente por dente, cabeça por cabeça, porque se o castigo fosse imediato haveria muitas mortes, uma vez que no início vieram muitos ladrões, razão porque é igualmente ruim para nós. Talvez vocês pensam que vou ganhar 110 morgas de terra arável; não, pois vou receber mato e tigüera, onde não se pode introduzir um dedo. Primeiramente tem que se queimar, cortar o resto e só então teremos lavoura. Peço-vos que comuniquem aos Krajewski que venham para junto de nós. Eu lhe darei pinho de graça, com o qual ele poderá construir metade do cata-vento e não lhe vai custar nada.

            Queridos pais, escrevi-lhes a verdade. Orientem-se como quizerem para que ninguém tenha queixa de mim. Tenho a esperança de que aqui se pode viver melhor do que na Polônia, desde que Deus ajuda a fazer uma viagem, por que a metade das crianças se perdem na viagem. Eu próprio vou lhes contar a verdade real. Esperem que eu lhes mande a segunda carta, pois saberei melhor sobre tudo e descreverei. A não ser que na Polônia tenha algum surto de miséria que force o povo a sair, então mandarei conselhos como devem portar-se na viagem. Não levem nenhum endereço na Prússia, somente quando desembarcarem a polícia levar-vos-á para um acampamento, lá aparecerá um agente e dará as passagens. Levem estas passagens ao padre e perguntem se são verdadeiras ou falsas .No navio não se alistem para fazendas ou fábricas. Não recebam nenhum dinheiro, porque muita gente afunda-se como trocos para sempre. Muita gente se vende por burrice, recebem dinheiro, como volta pelas despesas, alistam-se para chácaras, mas tudo isto é mentira. Conduzem-nos para o navio e levam para outra parte e nunca mais voltam. Ao chegarem ao primeiro entreposto, cidade de nome Rio de Janeiro, lá inscrevam-se para Porto Alegre e dali para Caxias e em Caxias para São Marcos. Certamente nós estaremos lá e seremos conhecidos porque nos alistamos, a não ser que não nos recebam, então vamos para Antônio Prado. O melhor de tudo é aguardar a minha segunda carta.

 

                                                           João Wietrzykowski

 

 

75. Estanislau Wisniewski de Nova Trento, Santa Catarina aos pais, (endereço desconhecido). 15/03/1891.

 

 

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Trago-vos, queridos pais, notícias sobre a minha situação. Viajei sobre água 18 dias. Desembarquei felizmente, com a ajuda da Santíssima Trindade. Graças a Deus Supremo, eu, minha mulher e minhas crianças, estamos com saúde até o presente.Nas segundas águas, viajei durante dois dias e duas noites. Desembarquei. Depois até a cidade viajei de carroções, através de selva se montanhas escarpadas e pirambeiras. Lamentava-me por ter partido para o Brasil. Estou muito aborrecido com a falta da família.

            Meus queridos pais, eu vos peço que me respondam com urgência sobre a situação e sobre toda a família. Estão todos vivos e sobre o meu irmão Inácio. Digam se foi alistado para o Exército e escrevam-lhe se quiser vir venha, porque eu lhe mandarei a passagem, porque julgo que não nos veremos, a não ser depois da morte. Estou muito melhor do que na Polônia, somente pelo fato de não estar submisso a nenhum senhor. Ganhei 150 morgas de terra, mas isto não me alegra, porque empurraram-nos para meio de gente estranha, selvagem e onde há muitos insetos. Há bichos que, nem a gente sabe, penetram no corpo, e corroem a gente em vida. Essa gente selvagem possui espingarda que consegue matar uma pessoa a 300 passos, sem o mínimo barulho, por isso temos que estar alertas e possuir ao lado uma arma dia e noite, ou um revólver à cinta de cano duplo, um fuzil ou uma faca e por esta razão vivo sempre com medo.

            Nada mais tenho a dizer, somente peço encarecidamente, queridos pais, que mandem resposta urgente e escrevam-me sobre o que estou pedindo. Estou bastante curioso, porque alguns falam que a carta chega e outros que não. Isso me deixa muito curioso. Escrevam-me igualmente quem partiu para o Brasil. Acho-me a 2.500 milhas da Polônia. Oh! Doce é a nossa Polônia, mas não se consegue voltar mais para lá. Se tivesse uns trezentos rublos retornaria a Polônia, mas apenas tenho comida à vontade e pouco dinheiro. Em último caso peço-vos uma resposta urgente, queridos pais, e peço encarecidamente que respondam o mais depressa possível e em carta registrada. Desde que saiba que as cartas chegam, descreverei tudo, o lado bom e o ruim. Todos que saíram de Biskupianka,  chegaram junto ao Brasil e hoje acham-se espalhados. Dos conhecidos, somente apenas permaneceram junto os Sienglieski, como estamos sozinhos que nem palanque, sentimo-nos tristes. Os Wesoloski, Knerek e Lisiecki moram a 20 milhas daqui.

            Escrevo-lhes as últimas palavras. Saúdo juntamente com a esposa os pais, mando lembranças ao avô e a avó, seu neto e aos parentes, conhecidos e desconhecidos. Eu  Estanislau Wisniewski, 15 de março de 1891. Escrevam assim o meu endereço:

            Pan Estanislau Wisniewski, Província Santa Catarina, Nova Trento, Brasil.

 

 

 

76. Inácio Zielenski, são Mateus, Paraná, para destinatária desconhecida, Ostrowy, província Kutno, 15/11/1891. A carta foi escrita por uma outra pessoa.

 

                                                           Brasil, 15 de novembro de 1891.

 

 

 

            As primeiras palavras de minha escrita sejam louvado seja N.S.Jesus Cristo, queridíssima tia. Comunicamo-vos que, por graça de Deus Supremo estamos com saúde, o que também vos desejamos. Descrevo-vos a nossa viagem que estivemos com o pai e o filho com saúde, enquanto a esposa estava doentia. Estabelecemo-nos na localidade de São Mateus. Ganhamos terras, de conformidade com a medida brasileira, 100 morgas, o que em medida polonesa significa duas “wlocas” e 10 morgas. Tudo é mata virgem. Só é necessário saúde para trabalhar e em breve teremos um pedaço de pão. Peço mandar lembranças ao irmão do Prygonski com votos de saúde, segundo o nosso desejo, ao tio Kurpik e para toda a família e a todos os conhecidos. Quanto a vossa vinda, façam como querem, porque nós ainda não testamos este lugar, mas julgamos que será bom por que temos a manutenção governamental até a colheita. Não venham antes de receber a segunda carta nossa, daqui a quatro meses. Se estiverem para vir levem roupas, também de cama e tudo o que puderem, porque o transporte no mar é gratuito. Viajamos pelo mar, em navio, durante um mês inteiro e desembarcamos em plenas festas, exatamente ao meio dia do Nata, em terra firme, no Rio de Janeiro.

            Junto conosco há conhecidos de Ostrowy. Eles estão em São Mateus e outras localidades. Nossa colônia situa-se em Taquaral, nº 69. Não temos nada mais a escrever, a não ser mandar profundos cumprimentos, desejando-vos todo bem que pedia a Deus.

 

                                                           Eu Inácio Zielenski

 

Escreveu Alexandre Marciniak. Pedimos a mais urgente resposta porque teremos que esperar muito.

Nosso endereço:

Brasil, Província Paraná, Município São Mateus, Inácio Zielenski

No envelope. Danificado. Pode ser visto o final de “Ostrowy” e a palavra “Warschau”, tudo escrito com outra mão, a mesma que escreveu a carta nº 38.

No verso do envelope: Anotação a lápis do Censor Zadierzat” e um bilhete com resumo da carta.

 

 

 

77. Antônio  Zielinski  de  Santo  Antônio da Patrulha,  Rio Grande do Sul para Nicolau Bama, (endereço desconhecido). Correio Ciechanów. 26/11/1891.

 

 

 

                                                           Dia 26 de fevereiro, Santo Antônio, ano de 1891.

 

            Assento-me à mesa para escrever ao vosso coração.

            Saúdo-te, Nicolau Bama, juntamente com a esposa, filhos e toda a família. Estou graças a Deus com saúde, o que também vos desejo de todo o coração, saúde e sucesso. Vou-te descrever a minha viagem. Não é verdade como falavam em casa, que é preciso dormir e viver sob o céu aberto. Tão logo chegamos a Bremen, levaram-nos para estalagens e deram-nos comida e bebida e não pagamento nada. Saímos de Bremen no dia 26 de novembro. Viajamos 18 dias, até a ilha no Rio de Janeiro. Quando viajamos no navio prussiano, a comida era muito boa, a broa era limpa, como entre nós, pastéis de farinha de trigo, sardinhas, duas vezes por semana carne e todos os dias café da manhã e chá para o jantar.

            Vou descrever como é a ilha. Ela chama-se Brasil (sic) é o país no qual vamos viver. Estivemos lá durante oito dias. Lá recebemos bebida e comida e não tivemos nenhum contratempo. Dali partimos para Porto Alegre, ficamos ali durante um mês e de Porto Alegre fomos para Santo Antonio. Levaram-nos de carretões, puxados por bois. Em cada carreta atrelaram dez bois e viajamos quatro dias. Atrás de nós seguiam os panelões e paramos de 6 em 6 horas, quando cozinhavam os alimentos. Durante estes quatro dias, comemos dois bois. Chegamos a Santo Antônio. Ali destinam um marco diário, para cada um. Nos três dias, ganhamos 30 marcos para aquisição de utensílios e durante alguns dias recebemos 40 marcos para ferramentas, porque, como sabem, no instante em que estamos escrevendo esta carta, ainda não nos encontramos em nossa colônia. Alguns já estão há três meses em suas colônias e falam que é muito bom e se alguém adoece, imediatamente é levado para o hospital e cuidam bastante do doente e o cercam de atenção. Dizem por lá que somente emigram da Polônia. Não é verdade, partem da Espanha, Suíça, Itália, e de todas as partes chegam gentes. Dizia o povo que no Brasil não há nada, que lá existem animais selvagens. É que no Brasil não há nada, que lá existem animais selvagens. É mentira. Atravessamos tão grande parte do país e ainda não vimos nenhum bicho. E falavam que não há igrejas. Elas existem mas são raras, estão mais nas cidades. As cerimônias realizam-se da mesma forma como entre nós, em latim. A língua é outra. Falam da mesma forma como gansos, grasnam. Viajamos muitos dias, mas ainda não vimos terra cultivada. Os moradores possuem apenas uma casinha, um pequeno eito de milho, um pouco de abóbora e vivem como animais. Quando nós começarmos a trabalhar, tudo será diferente. A população é metade branca e metade preta. Os pretos são bons, melhores que os brancos, porque estes são mais orgulhosos e mais ateus. Os pretos são católicos convictos. Dizia o povo que no Brasil não existe gado, cavalos, nada. Lá existe de tudo: gado, cavalos, carneiros, até cabritas, da mesma forma que na Polônia.

            Meus queridos irmãos, eu não trocaria convosco a minha propriedade. Eu agora sou dono, isto não é assim como era na Polônia. Peço-te encarecidamente, querido tio, para fazer chegar estas palavras a João Zielinski, porque tenho dificuldade em escrever tantas cartas. Escrevo-te, querido irmão, estas palavras, porque se estás em miséria é melhor vir para cá, junto de nós. Quanto aos pais, não sei para onde foram. Afastamo-nos, mas a seu respeito não sei nada. Vi-me com Antônio Jazabkowski e sei onde se encontra. Não tenho nada mais a escrever, somente mando lembranças, querido tio e (desejo) tudo aquilo que pedes a Deus e a Mãe de Deus, Rainha do céu e da terra e um encontro, em breve, que Deus nos ajude. Amém.

 

                                                           Antônio Zielinski, 1891.

 

(Acrescentado a lápis):

Aqui estão os endereços. Respondam com urgência, dizendo se a carta chegou ou não.

Os endereços são estes:

Brasil, Estado Rio Grande do Sul, Porto Alegre / Santo Antônio da Patrulha / Antônio Zielinski.

(Novamente com pena): Pedro Muklik (talvez assinatura de quem escreveu a carta).

Envelope: (Danificado):

42/Na den Mikolaj Bama/in (—) Plock Kranc,/(—) Correio Ciechanów / Aldeia. / Ruszland.

No verso:

Carimbo brasileiro: Comissão de Terras Santo Antônio da Patrulha, carimbo do correio russo de Varsóvia e um recado a lápis, ilegível.

 

 

 

78. Um autor desconhecido da região de São  Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa, (endereço desconhecido). Falta a data.

 

           

            Querida esposa! Levo ao seu conhecimento que ganhei a colônia Leopleneto (segundo autor não foi possível determinar sua localização), nº 41. A colônia corresponde a uma chácara e é igual a 40 morgas polonesas. Recebi somente mato. É necessário limpar primeiro para depois plantar. Não há gente para trabalhar, embora nesta terra tudo o que se planta cresce. A menina que levei comigo é uma vagabunda, nem sequer sabe lavar uma camisa, nem cozinhar. Querida esposa, mandei-a embora. Peço-te querida esposa que venha quanto antes, porque é pesado para mim trabalhar na terra, sem ter quem cozinhe e lave a roupa.

            Querida esposa se estiveres para partir, traga consigo utensílios domésticos e ferramentas para a lavoura, como enxadas, martelos, crianças, porque aqui são caros. Traga sementes de cereais, alfafa e sorgo. Peço aos pais que me dêem minha herança, a que tenho direito na propriedade, e peço ao pai que tenha bondade de dar o dinheiro a minha esposa, porque eu já não volto à Polônia.Querida esposa, reúna todo o dinheiro e guarde-o bem, costure um saquinho e guarde-o bem junto ao corpo. Quando resolveres viajar,  venha a Torun e depois que atravessares, querida esposa a fronteira, imediatamente troque o dinheiro porque na fronteira o câmbio é melhor e na Prússia já oferecem menos. Em Torun você comprará os bilhetes e em Bremen mantenha-se de sobreaviso, porque enganam muito. Em Bremen compre bastante remédios, 10 libras de açúcar, alguns limões, três garrafas de álcool, três litros de  conhaque (—), remédios no valor de 4 marcos, 4 marcos de vinho, porque, querida esposa, tudo isto é necessário no navio. Tudo será útil na viagem e em caso de fraqueza evite alimentos. No navio tudo é caro e por isso não se deve comprar. Tudo o que tens contigo será necessário, não para a alimentação e sim para a saúde.Querida esposa, em Bremen tenha muito cuidado com o dinheiro. No hotel receberás a comida de graça e tudo será grátis até a partida do navio. Querida, o navio irá até o Rio de Janeiro, principal entreposto brasileiro. No entreposto inscrever-te-ás para Porto Alegre e  ali para Feliciano, colônia Cleploneto (sic) nº 41.

            A minha viagem até Bremen foi com saúde. De Bremen parti de navio e viajei até o destino, sem um vintém. Querida esposa, não tenho mais nada a escrever, somente peça ao pai, por mim e em meu nome na qualidade de marido, essa com a mais profunda humildade. Queridos pai e mãe, irmão e irmãs, tenham a bondade, toda a família minha, peçam ao pai que se digne mandar-me dinheiro que é a minha parte da herança. Em verdade ganhei uma boa colônia, não tenho como começar o serviço porque não tenho dinheiro. Estou muito aborrecido por me achar por tão longo tempo sem a minha família.

            Agora não tenho nada mais a escrever, somente imploro-te, querida esposa, para que tenhas a bondade de vir para junto de mim, quanto antes.

            Agora mando-vos os mais profundos cumprimentos, mando a toda a família porque já não retornarei mais a Polônia.

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.,

 

 

 

79. Autor desconhecido de Rio dos Patos, Paraná, ao filho (endereço desconhecido). 21/03/1891  

 

 

                                                           1891, dia 3 de março.

 

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Cumprimento-te, querido filho, juntamente com sua esposa. Levo ao teu conhecimento que, por graça de Deus Supremo, estamos com saúde, o que também vos desejamos, queridas crianças.Agora vou-te contar a respeito da nossa viagem. Somente eu e o filho João estivemos com saúde. A mãe e as duas crianças estavam doentes. A manutenção no navio era gratuita. Agora, se tens vontade de vir para o Brasil, leve consigo roupa de cama e coisas miúdas e ao chegares a Prússia, primeira parada, compre passagem para Bremen. Em Bremen a permanência é gratuita. Em Bremen você vai embarcar em trem e numa viagem de 7 dias (sic) para Bremerhaven. Ganhei para meu uso 80 morgas de terra e igualmente o João. Agora, querido filho, peço-te que mandes lembranças a todos os meus conhecidos.

            Se tens vontade de vir, venha para a cidade do Rio de Janeiro que é a capital, ali inscreva-te para Paranaguá. Depois chegarás a Curitiba e ali aliste-se para Rio dos Patos, onde eu me encontro.

            Querido filho, peço-te que me respondas o mais depressa possível.

                                              

 

 

80. Autor desconhecido, de um lugar desconhecido do Brasil, para Tomás Konecki, (endereço desconhecido). 13/02/1891. Não existe o original, mas uma transcrição   feita  durante a ocupação pelos alunos da Universidade Polonesa Livre e Oculta de Varsóvia.

 

 

            Dia  13 de fevereiro de 1891. Adentro vossa casa, dizendo Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Escrevo esta carta para Tomás Konecki. Inclino-me diante de vós, pai e mãe, que não chegastes a sê-los, para que não sejais faladores. E peço ao pai, nesta carta, que leve em conta o “deve ser” (sic), na Polônia e no Brasil.

            Cumprimento-te, amadíssima Andzió (não se sabe o nome exato) e abraço-te cordialmente. Preste atenção para isto, amadíssima Andzio, como tinhas a intenção, pois não na hora, não há momento que não pense em ti queridíssima. Peço-te que venhas quanto antes, pois então libertar-te ás dos grilhões, e serás uma distinta senhora. Estou na cidade (—) e aguardamos dia-a-dia a nossa propriedade, porque a colônia já foi demarcada. Cada um receberá 5 “wlócas”. Agora tenho que descrever toda a viagem. No dia de Todos os Santos atravessamos a fronteira, custou-nos 3 rublos. Somente eu e Frederico atravessamos e fomos para Torun — 2 milhas a pé —, onde embarcamos em trem e chegamos a Bremen e de Bremen para o Brasil, que foi totalmente gratuita. Viajamos em águas durante 20 dias. Agora Andzió, leve roupa consigo, tudo o que puder. Aquilo que o povo fala, tudo é mentira. Nada mais tenho a escrever, somente caio aos vossos pés, pai e mãe e mando lembranças a família inteira e a querida Vitória. Se ela não casou pode vir, juntamente com a irmã e você, queridíssima Andzió. Se não vier, responda-me.

 

 

 

81. Autor desconhecido, do Brasil aos pais. (endereço desconhecido). 6/03/1891.

 

            Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

            Nas palavras que seguem ouso perguntar-vos a respeito da carta que escrevi no dia 28 de novembro, se ela chegou ou não. Por acaso ficastes brabos ou a carta não chegou?Aqui no Brasil nós sabemos muito bem que toda a correspondência que sai do Brasil para a Europa, dura dois meses. Já se passaram três meses e não há nenhuma notícia.

            Agora, queridos pai e mãe, cumprimento-vos e descrevo a minha viagem que, por graças de Deus Supremo, fiz com felicidade. Viajamos 3.500 milhas e não tivemos nenhum problema sério com o mar. Deus nos protegia contra toda desgraça, embora ouvimos que outros navios tiveram acidentes, mas nós, graças a Deus, atravessamos felizes. Viajamos durante 21 dias, além das paradas. Comunico-vos  que ao chegarmos ao Brasil à Província de São Paulo, permanecemos em casas para imigrantes, semelhantes a quartéis. Lá recebemos a manutenção e pouso durante 8 dias. Durante estes dias quizeram tirar-nos de lá e atirar fora porque não aceitamos inscrições para fazendas, isto é para trabalhar para a nobreza, que cultiva café. Nesta cidade é difícil agüentar, por causa do calor.

            Nas fazendas desta nobreza é assim: em sua fazenda o dono, por desobediência pode mandar fuzilar, não há nenhuma lei que impede, porque no Brasil é República, o que significa liberdade da nobreza. Quando chegamos de São Paulo para São Bernardo, graças à ajuda governamental, e estabelecemo-nos em nossa propriedade, o que quer dizer: saímos da cidade para a colônia que haveremos de ganhar, pois já estão instalados em suas colônias. Por este motivo, podemos ter certeza que receberemos. No Brasil, a propriedade em que se habita, chama-se colônia. No que diz respeito à terra, cada um ganha 40 morgas. As matas são enormes. A madeira é dura e as tábuas são caras. Cada tábua de 7 pés custa dois rublos, ou seja dois mil réis, em português.Agora vou falar a meu respeito. Sepultei meu filho no dia 9 de novembro. Francisca está doente desde o Natal. Minha esposa, Inês, esteve doente até agora, mas Glória a Deus, está com saúde. Graças a Deus, já pode andar e cozinhar a comida.

            Desde o instante que saímos de São Paulo e chegamos para São Bernardo, trabalhamos nos serviços públicos e ganhamos 10 “zlotes” por dia. A vida é cara, por isso o gasto de farinha em “pud* custa, em dinheiro polonês, 6 rublos. Agora, queridos pais, peço notícias a respeito do meu irmão Casemiro. Se não foi incorporado no exército, que venha para o Brasil, então em breve poderemos chegar à felicidade ( O original é confuso — trad.). Ninguém deve arriscar a viagem com crianças.

            Não tenho nada mais a escrever, somente estas palavras. Beijo-vos, queridos pais, eu, José e minha esposa Inês, que não vos esquecerá até a taboa sepulcral. Mando igualmente lembranças aos conhecidos e desconhecidos. Peço que respondam o mais depressa possível.

 

 

 

82. Autor desconhecido para destinatário desconhecido (falta o princípio da carta).

 

            Paz a todos!

 

            ... Ainda vos recomendo o que deveis levar consigo. Traga vestes leves, alguns pares de calçados e para mim, peço, quando chegarem a Bremen comprem uma pistola, de pólvora, que custa 6 marcos, um relógio pelo valor de 35 marcos que no seu interior possui um “cabelo” e anda 8 dias sem que lhe dê corda, isto pode ser visto nas vitrines. Podereis também comprar alguns despertadores pelo preço de 6 marcos, porque no Brasil podeis ganhar com eles. O dinheiro podereis trocar em Bremen pelo ouro inglês, com isto não tereis prejuízo no Brasil. Se não chegarem, pelo menos que venha o pai. Podeis emprestar dinheiro, porque eu restituirei mais tarde. No momento não tenho. Se fosse trabalhar numa fábrica, mas não posso, porque terei que deixar a mulher no mato, uma vez que as fábricas ficam longe .

            Apresento meus cumprimentos a toda a família e conhecidos. Peço desculpas por não ter escrito por tão longo tempo. Podem viajar para Nieszawa de trem, podem perguntar pela aldeia Golembie e ali perguntar pelo administrador Ostrowski. Ele ajudará a transpor a fronteira, mas recomendo-vos todo cuidado com o dinheiro.

            Levem consigo para o navio vinagre, chá, açúcar e remédios. Em Bremen podeis comprar algumas garrafas, bem como broa preta, porque no navio isto será como mel. Os  cobertores, se não puderem vender, tragam consigo ou podem comprar em Bremen, porque aqui os dias são quentes, mas as noites frescas e os cobertores poderão ser úteis.

            Peço que em Oryszew entendam-se com João Plucinski, pois ele também  está para chegar e assim será melhor atravessar a fronteira. Em Ruda, podeis comprar as passagens para Nieszawa e depois seguir para Golembie e procurar o proprietário Ostrowski, ele vos ajudará atravessar a fronteira. Na ultrapassagem da fronteira muito cuidado com os pertences, para não serem roubados. No trem prussiano, podeis conservar consigo as bagagens, porque custa muito fazer expedição. Termino aqui. Agora previno: aqueles que têm crianças pequenas, que não se arrisquem para a viagem, porque para elas a viagem é crucial.

            Agora peço-vos encarecidamente que tragam o que peço. Peço que me respondam quanto antes, porque estamos com muitas saudades porque por tanto tempo não  nos pudemos ver, nem falar. Que dor deve ser! Dor daqueles que partem para tão longa viagem! Fim.

            Peço resposta urgente para esta carta.